Ainda tem bobo

 Uma das máximas mais usadas na linguagem esportiva é a de que “não há mais bobo no futebol’’. Em geral, ela se refere à qualidade das equipes. Ou seja, de que os grandes não são absolutos e podem ser surpreendidos. Ok, isso é a parte técnica. Mas há outra, a de bastidores e negócios.

Antero Greco, O Estado de S. Paulo

22 de maio de 2015 | 03h00

Ainda no eco das reportagens de Jamil Chade, publicadas neste caderno, e que fala dos acordos da CBF em torno da seleção, fica a sensação de que muita coisa acontece sem transparência, ou no mínimo há coincidências inexplicáveis. Como, por exemplo, a promoção de jogadores razoáveis em estrelas do momento, num mecanismo que alavanca carreiras, com transferências milionárias. Esses atletas vêm sobretudo da América do Sul, que continua a ser o principal celeiro de craques, para lembrar uma expressão antiga - nem por isso menos válida. E, claro, Brasil, Argentina e Uruguai à frente, por causa da capacidade que têm de jogar gente nova no mercado.

Repare como talentos promissores, com potencial, saem da região cada vez mais cedo, atraídos por ofertas de europeus. Em geral, têm os passes (ou direitos econômicos) cedidos por quantias irrisórias, para os padrões internacionais, e em curto ou médio prazo se valorizam a valer. Com lucro enorme para quem veio pescá-los por aqui.

A alegação dos clubes formadores é a de que não têm como segurar os moços, atraídos por ofertas generosas, com a perspectiva de visibilidade e por pressão de agentes, parentes e afins. Os cartolas se dizem com mãos atadas, culpam (sempre) a Lei Pelé e se satisfazem com um punhado de euros. Para aliviar o caixa, para não perder as pérolas brutas de graça e com a esperança de faturarem umas quirelas mais adiante em futuras transações entre tubarões da Europa. 

Daí para a despedida precoce é um pequeno passo. Só para lembrar, há o caso de Marquinhos, zagueiro que surgiu no Corinthians, três anos atrás, foi sensação na Copa São Paulo de Futebol Júnior e, de uma hora para outra, se transferiu para a Roma. Na época, se falou que iria ganhar experiência. Depois, como agradou aos italianos, foi liberado por preço irrisório. Bastou-lhe uma temporada boa e se mandou para o Paris Saint-Germain por quantia astronômica. E passou a frequentar também a seleção brasileira.

Algo semelhante havia acontecido com Kaká, quando saiu do São Paulo por mixaria paga pelo Milan. Mais recentemente, houve Casemiro, cedido para o Real Madrid, que levou também Lucas Silva, ou Felipe Anderson, que trocou o Santos pela Lazio, está na mira de grandes clubes e também cavou uma vaguinha na seleção. Ser lembrado para vestir a amarelinha é uma bênção para valorizar atletas. 

Agora é o Corinthians que novamente admite a necessidade de vender um jovenzinho. Trata-se de Mateus Cassini, 19 anos, que apareceu o outro dia, já despertou a cobiça do Palermo e está fazendo as malas por 1,5 milhão de euros, em torno de 5 milhões de reais. O Corinthians ficará com 70% disso e com a promessa de lucros de 10% em eventuais futuras transações. Parece conformado e feliz.

Para tornar mais melancólico o quadro, o Estado de ontem mostrou como as divisões de base andam, sem trocadilho, em baixa. Dentre os quatro principais clubes de São Paulo, só o Santos usa mais pratas da casa. Os demais, especialmente Corinthians e Palmeiras, gastam muito e têm retorno pequeno. Ínfimo, até. Porque os jovens não têm espaço nos elencos profissionais.

Algo está errado nisso. Muito errado. Como os clubes não conseguem revelar jogadores com regularidade, ao menos para cobrir os custos? E, quando garimpam gente boa, não as mantém? Ao contrário, permitem que saia ao primeiro aceno do exterior? Não seria a lógica aproveitar os talentos que surgem, dar-lhes cancha e depois vendê-los por preço compatível com o mercado?

Quem ganha com essa história são os intermediários, os que farejam bons negócios, os espertalhões.

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