Reprodução Twitter Barcelona
Reprodução Twitter Barcelona

Ajax trabalha para segurar os craques que são formados em casa

Clube tem projeto que visa evitar saída precoce dos jogadores que forma; na maioria dos casos, obtém sucesso

Rory Smith / THE NEW YORK TIMES / AMSTERDÃ, O Estado de S.Paulo

16 de fevereiro de 2019 | 04h30

No ano passado, os jogadores mais brilhantes do Ajax foram reunidos numa sala no centro de treinamento do clube. Edwin van der Sar, ex-goleiro que se tornou diretor executivo, e Marc Overman, o diretor esportivo, queriam mostrar um vídeo a eles.

Sua premissa era simples: cada um dos jogadores estava associado a uma figura icônica da ilustre história do Ajax, ou por compartilhar uma posição, uma nacionalidade ou (em um caso) ascendência. O goleiro Andre Onana, por exemplo, ficou ao lado de Van der Sar. O atacante Kasper Dolberg foi equiparado a Zatlan Ibrahimovic. Justin Kluivert foi ligado a seu pai, Patrick. Frenkie de Jong, a Christian Eriksen e Matthijs De Lig comparado a Barry Hulshoff, defensor da equipe vitoriosa do Ajax dos anos 1970.

A ideia era “mostrar a eles como se tornar uma lenda no Ajax e na Holanda”. O filme foi projetado para convencer aqueles jogadores, as joias da coroa do clube, a resistirem à tentação de se transferir para a Inglaterra, Espanha ou Itália e “permanecerem juntos, conquistar prêmios e troféus no país e depois então dar um futuro passo”.

A tática funcionou. A maioria decidiu ficar. Apenas Kluivert r esistiu à tentação de seguir os passos do pai. Recusou-se a renovar seu contrato e foi vendido para o Roma.

No Ajax, as pessoas entenderam por que ele tomou essa decisão – a vontade de um adolescente com um nome famoso de forjar seu próprio caminho. Mas, quando mencionam seu nome agora, é com um toque de pesar e frustração. Não porque ele deixou a equipe, mas por ter saído tão cedo.

“Se um jogador parte depois de seis meses no time titular, como Kluivert, ficamos desapontados”, disse Said Ouaali, diretor da De Toekomst, a famosa academia juvenil do Ajax.

Em janeiro o Ajax produziu um novo vídeo. Desta vez para o público e que foi postado nos canais de mídia social do clube. Durava pouco mais de um minuto, mas mostrava o que Eric tem Hag, técnico do clube, chamou de “as qualidades especiais de De Jong”. 

Intitulado Frenkie Futuro, o vídeo teve por objetivo comemorar a confirmação da ida do jogador de 21 anos para o Barcelona, o que no entanto só ocorrerá no verão deste ano.

De Jong era a esperança desta equipe do Ajax, um jogador tão promissor que mais de uma vez foi comparado a Johan Cruyff. Mas ninguém lamentou sua partida. “Barcelona, desfrutem do futuro, como nós”, foi escrito no Twitter oficial do time.

O sentimento será o mesmo neste verão, quando de Ligt – jogador que está no Ajax desde que tinha oito anos de idade – partir, como deverá ocorrer. O defensor de 20 anos, considerado pelos olheiros da Premier League a maior esperança em qualquer posição do futebol mundial, poderá se unir a seu amigo no Barcelona ou talvez ir para a Juventus.

De qualquer maneira não haverá tristeza nem uma sensação de perda. Ten Hag poderia pensar no que sucederia se “conseguisse segurá-los por mais dois ou três anos”, mas é isso aí. “Ficarei orgulhoso. Os que o descobriram também se orgulharão. Marc Overmars ficará orgulhoso. Todos enfim, ficarão. Se eles se transferem para um grande clube, você fica feliz por eles.”

A fórmula que permitiu isto está na parede do escritório do clube em Haia, com uma série de retratos em branco e preto de Rinus Michels, o cérebro da grande equipe dos anos 1970; Cruyff, sua estrela; e Louis van Gaal, o homem que fez o Ajax retornar ao pináculo europeu nos anos 1990 com uma equipe criada inteiramente na sua academia De Toekomst.

Ten Hag ri quando olha a parede. “Eles estabeleceram um padrão”, disse. Mas fica sério quando se refere ao chamado Ajacied, um cruzamento entre uma declaração de princípios e uma crença do clube.

É o que o clube procura instilar em cada jogador que veste a sua camisa ou que passa por sua academia, como também em seus técnicos e funcionários. Há 11 deles e estão arranjados como um time. E, sendo o Ajax, estão na formação 4-3-3. 

São critérios que vão desde assumir responsabilidade e iniciativa a manter a disciplina e se divertir.

Um enfoque que funciona claramente. Nenhuma equipe na Europa produz mais jogadores profissionais do que o Ajax. De acordo com Ouaali, 86% dos jogadores que estão no De Toekomst com 16 anos seguirão uma carreira profissional.

Este afinal é o verdadeiro talento do Ajax: sua capacidade de produzir não um jogador, mas uma geração deles, e seguir em frente. É o que faz com que a saída dos jogadores não seja somente desejável, mas necessária. “Temos de abrir o caminho para o próximo. Se os jogadores permanecem aqui por muito tempo, os próximos não conseguem jogar. E tudo fica bloqueado”, disse van der Sar. 

TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

 

 

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