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Ajudem-me, por favor!

Para o técnico, trabalhar em clube um médio é o mesmo inferno do que em um grande

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

05 Agosto 2018 | 04h00

Sou treinador, jovem revelação, diziam que com muito futuro e desempregado. Demitido, no olho da rua. Acho que foi injustiça, mas muita gente deve achar que já estou indo tarde, que mereço isso mesmo, que a minha contratação foi um enorme engano. Prefiro ficar por enquanto no anonimato. Que é o que vou ter de enfrentar de qualquer maneira, se ninguém me contratar urgentemente. O esquecimento, a pá de cal. Não sou burro, estudo futebol e falo bem. Sei me virar com a imprensa. Fiz vários cursos e acho que aprendi a enrolar, isto é, falar muito e não dizer nada. Não sou ainda nenhum Tite nessa especialidade, mas se deixarem chego lá. 

Só que estou começando a acreditar que tem alguma coisa em mim que não agrada. Noto isso logo que ponho o pé num clube. Sinto olhares desconfiados me seguindo do porteiro da frente ao roupeiro, o aspone do futebol e também os jogadores. Até quando me tratam bem os olhares parecem transmitir o recado: “Cara, tu não vai durar aqui. Igual a você já vi passar uns vinte”.

Não sou paranoico, mas juro por Deus que ouvia risadinhas marotas quando eu passava. Ou não, sei lá. O fato é que não tinha uma hora de sossego e paz. Se o time ia bem eu pensava: “Até quando isso dura?’’ Se ia mal era: “Chegou a hora”. Na frente da imprensa eu fingia segurança e conhecimento. Notei que os jornalistas fingiam também. Não tinham nenhuma ideia sobre a minha capacidade. Ou sobre meu futuro. Ficavam tateando, procurando adivinhar. A maioria, tenho certeza que só esperava a minha queda. Não por mal, mas por essa coisa que eu tenho e que não agrada. Mas, como eu disse, não tinham certeza de nada e como tudo no futebol é chute, preferiam esperar e, pelas dúvidas, me tratavam mais ou menos bem.

A raiva vinha mesmo era da torcida organizada. Aí era uma raiva sólida, sem perdão e sem piedade. De longe xingavam, de perto olhavam feio. O olhar era pior que o xingamento. Era como se eu estivesse tomando o lugar do verdadeiro treinador. Mas quem seria esse treinador, tão melhor do que eu? Não sei, mas é alguém que não deve ter essa coisa que eu tenho, e que não agrada. Já pensei parar uma entrevista só pra perguntar: “Escuta aqui, agora vocês têm que dizer na minha cara, o que eu tenho que não agrada?’’

Às vezes eu acho que pode ser que eu tenha cara de treinador de time médio. Como é a cara de um técnico de time médio? Gozado, isso só aparece quando eu estou em campo, dirigindo a equipe. Ninguém vê isso nem antes nem depois do jogo. Só lá, naqueles 90 minutos, tenho essa cara. Quero saber o que faço. Espero outra chance num clube grande? E se logo na chegada começarem a achar que tenho a cara errada?

O engraçado é que depois de eu ir pra rua notei mudança no tratamento. Acabaram os olhares, a desconfiança. Todos, até alguns membros de organizada que trombei por aí. Todo mundo muito delicado, respeitoso, tipo “foi mal, desculpa alguma coisa”. Sim, comecei a pensar em clubes médios, recomeçar. Fui falar com um amigo que trabalha num clube médio. Fiquei pior. Me falou que clube médio é o mesmo inferno de um grande, com uma diferença: você nunca mais volta para um grande…

Depois de um tempo em clube médio, adeus clube grande. Fiquei pior também porque, por mais que eu olhava pra ele, não achava que tinha cara de treinador de clube médio. Parecia qualquer um de nós. Comecei pensar em treinadores da minha idade empregados, fazendo sucesso. Gente, se você é jovem e deu uma sorte, vamos dizer, de ir pro exterior, aproveita enquanto é tempo! Antes que alguém comece a achar que você tem cara de treinador de time médio. E não adianta olhar no espelho, você não vai descobrir nada. Ajudem-me, por favor!

 

 

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