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Antero Greco
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Alegria torta

Os duelos entre Santos e Palmeiras fazem parte da memória afetiva de milhões de torcedores. Desde priscas e menos violentas eras do século passado, ambos já disputaram clássicos espetaculares, de arrepiar. Houve período, entre os anos 60 e 70, em que um tinha Pelé como astro maior da companhia, o outro ostentava Ademir da Guia no papel de maestro. Era alegria garantida, até para quem não sofria por nenhum dos dois lados.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

24 de abril de 2016 | 03h00

A satisfação de novo dará as caras no jogo marcado para hoje, na Vila Belmiro. Mas de maneira parcial e torta. As arquibancadas do tradicional estádio estarão reservadas só para seguidores alvinegros; não haverá espaço para os alviverdes, que terão de acompanhar o tira-teima por rádio ou tevê. Passa a vigorar a final de torcida única, solução encontrada pelas autoridades para evitar confrontos, brigas e mortes.

A medida parece profilática, mas carrega a função simbólica de funcionar como carimbo do Estado na própria incompetência para controlar arruaceiros. Algo como afirmar que os extremistas venceram, que são mais ousados, organizados e atrevidos. Por isso, podem ir ao campo, mesmo que, para tanto, mandem para escanteio os demais. Em vez da democracia colorida que é a essência do futebol prevalece o cinza autoritário dos trogloditas.

Como o acaso se diverte a sapecar ironias, imagine como ficará o “Urbano Caldeira” se o Palmeiras ganhar – hipótese nem um pouco improvável. A plateia calada, pois composta por santistas e os jogadores rivais a comemorarem para ninguém. Não terão nem o gosto de ir para o cantinho em que confinam os visitantes para saudá-los. Será outro tapa na cara de todos os que amam a diversidade e o fair-play.

Tristeza danada. Se bem que, de certa forma, a pintura desbotada que se verá na Vila representa, também, o momento que vivemos. No Brasil de hoje, oponente virou inimigo a ser extirpado, diferenças se resolvem no tapa, vencidos e vencedores se espezinham. Por que seria diferente na bola?

Mas, no joguinho propriamente dito, naquele que vale, com a gorduchinha a rolar, as duas equipes têm condições de escrever outro episódio marcante de uma história que começou em outubro de 1915. Sim, amigo, essa rivalidade tem um século. E o pontapé inicial veio num amistoso, com surra do Santos por 7 a 0 sobre o Palestra então com pouco mais de um ano de vida. O clube da italianada por pouco não fecha as portas, depois do fiasco.

Dali em diante, sobraram gols para lá e para cá. O Palestra devolveu a humilhação com 8 a 0 em 1932, ano da Revolução Constitucionalista, ano de Jogos Olímpicos em Los Angeles e ano em que o campeão de natação Johnny Weissmüller estreava no cinema no papel de Tarzan. O Palmeiras ainda ganhou de 4, 5, 6, de 7, bem como perdeu também de 4, de 5, de 6 e de 7. A goleada mais recente entra na balança do Santos, com 5 a 1 do Brasileiro de 2006.

O Santos de Dorival Júnior e o Palmeiras de Cuca chegam à briga por vaga na decisão em condições semelhantes. A vantagem alvinegra está no fato de mandar – e, nesse quesito, continua a se dar bem, porque sabe como poucos utilizar-se do “fator campo” em seu favor. Se bem que não é fora de propósito a possibilidade de pênaltis, como no Paulistão e na Copa do Brasil de 2015.

O Santos se recompôs, após a perda de atletas na passagem de um ano para outro. Dorival manteve a base titular, o esquema e continua a apostar em gente rodada como Braz, Renato, Ricardo Oliveira e no talento de jovens como Lucas Lima. O Palmeiras se reencontrou com Cuca, trocou os chutões por jogadas mais bem elaboradas, tem suas lideranças em Prass, Zé Roberto, Arouca, recuperou Alecsandro e confia no atrevimento de Gabriel Jesus. Ambos têm recursos para vencer.

Alguém teme clima quente por causa de velhas provocações de Lucas Lima em redes sociais. Coisa mais tola. Esse tipo de melindre leva a reações ignorantes e torcida única.

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