Informação para você ler, ouvir, assistir, dialogar e compartilhar!
Tenha acesso ilimitado
por R$0,30/dia!
(no plano anual de R$ 99,90)
R$ 0,30/DIA ASSINAR
No plano anual de R$ 99,90
DFB/Divulgação
Alemanha se utiliza da tecnologia para crescer no futebol. DFB/Divulgação

Alemanha avança no plano de se tornar a maior potência mundial no futebol

Conheça o futurístico projeto de R$ 450 milhões da Academia DFB, o 'Vale do Silício do futebol'

Jamil Chade, enviado especial a Berlim, e Matheus Lara, O Estado de S.Paulo

26 de março de 2018 | 07h00

A ambição da Alemanha é maior do que "apenas" faturar o pentacampeonato na Rússia em junho e se igualar ao Brasil no número de títulos mundiais. No mesmo mês, a federação alemã de futebol (DFB) dará início a um projeto que promete ser por muito tempo o ápice da tecnologia e da ciência aplicadas ao futebol. É a Academia DFB, a nova sede e centro de treinamentos e estudos da federação em Frankfurt, que já vem sendo chamada de "Vale do Silício do Futebol".

+ '7 a 1 faz parte do passado, queremos escrever nova história', diz Miranda

+ 'Brasil é menos dependente de Neymar hoje', dizem jogadores da Alemanha

No país, o projeto é visto como um caminho natural para que a Alemanha se consolide como a maior potência do futebol mundial. E a aposta é na inteligência. Serão investidos mais de 110 milhões de euros (R$ 450 milhões) para a construção de um complexo tecnológico e esportivo de mais de 54 mil m² composto por campos, academia, mas também por laboratórios e salas de aula.

 

A estrutura será construída com patrocínio de uma empresa de software para gestão de empresas no terreno de um antigo hipódromo da cidade alemã. Como contrapartida para a construção da Academia, nove hectares de floresta nativa deverão ficar intactos e a federação construirá um parque público, batizado de "Parque Cidadão", como parte integrante do projeto.

O conceito central da Academia DFB é o de "big data", termo da informática utilizado para se referir ao armazenamento e manipulação de um grande conjunto de dados. "A Academia estará em rede", informa a federação. "O projeto reúne especialistas de diferentes áreas, como psicologia, medicina, esporte e comunicação, para trabalhar estratégias de otimização de desempenho.”

O objetivo é o de ser o líder na análise digital da esporte, algo considerado como a nova etapa que qualquer comissão técnica terá de mergulhar. Na avaliação dos alemães, estatísticas como posse de bola e a quilometragem percorrida por um jogador em campo são dados "ultrapassados". "O que se quer saber é a eficiência de um jogador. E não quanto tempo ele fica com a bola no pé", explicou um representante da DFB. 

+ Tite esboça seleção com Fernandinho na vaga de Douglas Costa

+ Estádio usado pela seleção em Berlim foi construído por torcedores

Um exemplo amplamente usado pelos protagonistas do novo sistema: em 2014, o Brasil de Scolari foi o time que ficou com o maior percentual de tempo com a bola no pé. Mas foram os alemães que fizeram sete gols. 

Pela Europa, o projeto gera preocupação dos demais países, alarmados com o salto que o centro poderia dar aos alemães e os distanciando ainda mais do restante do continente. Ao Estado, membros da Uefa admitiram que o plano é “revolucionário” e poderia abrir fronteiras inéditas na forma pela qual o futebol é administrado em campo.

Para especialistas da entidade europeia, a mudança pode ser da mesma dimensão que a revolução que foi criada quando, nos anos 50, seleções passaram a ter preparadores físicos profissionais.

Um dos objetivos do trabalho integrando diversas frentes é, para a federação, uma forma de tentar resolver qualquer problema dentro de campo. Um jogador com baixo aproveitamento em finalizações, por exemplo, poderá ter todos seus chutes a gol monitorados por um sistema que entregará relatórios com informações sobre força do chute, curvatura da trajetória da bola e posição do pé do atleta no momento do impacto. Com isso tudo em posse de treinadores, a aplicação vai para o gramado e, para a federação, o caminho para a melhora se torna natural.

"A estrutura está sendo pensada para garantir que nossos melhores jogadores e nossas melhores mentes encontrem as melhores condições para trabalho", afirma o presidente da entidade, Reinhard Grindel. "O resultado será o destaque no futuro, e muitos títulos para a Alemanha. Isso também via impulsionar o futuro, já que, quando um time joga com sucesso, as crianças e jovens passam a emular seus ídolos. Quanto mais sucesso na ponta, mais forte o influxo na base."

Os sinais de que a Alemanha busca o topo do mundo no futebol não são de agora. Mesmo antes de 2014, quando faturou o Mundial no Brasil, a seleção já fazia uso de tecnologias para tentar aprimorar seu desempenho. Na Copa, o técnico Joachim Löw utilizava um software que calculava estatísticas através de vídeos. Uma das aplicações, na preparação para o torneio, era na velocidade - em campo, o fatídico 7 a 1 sobre os anfitriões foi uma aplicação direta dos resultados de um amplo estudo de como rodar a bola de modo a fazer o adversário abrir grandes buracos no setor defensivo.

O treinador da seleção alemã acompanha de perto o desenvolvimento do projeto da Academia DFB. Em carta aos moradores de Frankfurt, ele disse ver o projeto como uma forma de garantir o futuro do futebol alemão. "A Academia será onde desenvolveremos jovens atletas e ideias para nosso futebol. O design, seus campos e áreas verdes dão uma ideia do que pode acontecer lá."

Além do foco no desenvolvimento do time nacional e das equipes de base e feminina da Alemanha, a intenção da federação é descobrir, melhorar e projetar novos talentos da modalidade no país. Clubes com menor estrutura, até amadores, poderão utilizar as dependências da Academia. "O novo espaço da federação está em interação com as associações do país para também poder promover o futebol amador na Alemanha", informa a entidade. "Quanto maior a participação de pequenos clubes na Academia, mais aparecerão talentos."

O projeto, que a federação espera poder inaugurar em 2020, tenta atrair a atenção de empresas de tecnologia ao redor do mundo. No início deste mês, o diretor de projetos da DFB, Oliver Bierhoff, esteve na Califórnia visitando empresas do setor.  Para chegar ao modelo que começa a ser criado, empresas como Google e Tesla, além de universidades como a Stanford, foram consultadas, na busca pela tecnologia de ponta.

"O intercâmbio é fundamental para que possamos manter as parcerias existentes e, ao mesmo tempo, obter novos insights. Digitalização, inovação e pesquisa estão se tornando cada vez mais importantes no esporte de primeira classe, e é isso que queremos", disse Bierhoff.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Plano alemão prevê renovação constante da seleção nacional

País quer se tornar a maior potência da história do futebol

Jamil Chade, enviado especial a Berlim, O Estado de S.Paulo

26 de março de 2018 | 07h00

Falar em dominação global ou superioridade é um tabu na Alemanha, diante de sua história. Mas, nos bastidores do futebol alemão, os planos são claros: transformar o país na maior potência da história do esporte e, no espaço de duas décadas, superar definitivamente o Brasil como maior campeão de todos os tempos.

+ Alemanha 'esvazia' elenco de amistoso contra o Brasil 

+ Aposta de Löw, Sané diz que Alemanha melhorou em comparação a 2014

O novo slogan da seleção alemã que será levado para a Rússia deixa claro a dimensão de sua ambição. “Die Besten ruhen niemals” - os melhores nunca descansam. 

Nos últimos dez anos, já foram investidos 1 bilhão de euros para atingir esse objetivo e, enquanto o treinador Joachim Löw busca a melhor formação para a Copa de 2018, seus auxiliares e dirigentes da DFB (a federação alemã de futebol) planejam o que será a próxima década. 

Em mente, três princípios: uma renovação constante, foco total na técnica e jamais permitir que uma equipe dependa de uma ou duas estrelas para garantir resultados. O próprio time alemão que enfrenta o Brasil na terça-feira, em Berlim, é resultado desse plano. Menos de um terço dele esteve em campo ou no banco na vitória histórica da Alemanha por 7 x 1 em 2014, contra o time de Luiz Felipe Scolari. 

Um dos símbolos desse novo time é Leroy Sané, que ganhará uma chance na partida contra o Brasil. Ele acredita que o time da Alemanha de 2018 se desenvolveu em comparação ao de 2014 e que é um dos favoritos para vencer a Copa. “Temos uma boa combinação de atletas mais novos e outros com experiência, o que permite que não se sinta tanta pressão”, explicou. 

O jogador do Manchester City atende a uma demanda específica de Löw. Desde 2014, ele tem procurado dar mais velocidade ao time. Sané, por sua vez, bateu o recorde de velocidade no Campeonato Inglês e se transformou num dos jogadores mais rápidos da Europa.

Do time que disputou a semifinal contra o Brasil há quatro anos, apenas dois jogadores podem estar em campo: Kroos e Boateng, além de Draxler e Ginter, que estavam no banco em 2014. Emre Can, meia do Liverpool, também foi poupado por conta de problemas físicos.  

Ainda que a nova equipe do treinador tenha sido criticada por falta de brilho nos últimos meses, a realidade é que o time não perde um jogo desde julho de 2016. Em dez jogos nas Eliminatórias, marcou 48 gols. Ninguém na federação ousa dizer que a Alemanha vencerá pela quinta vez a Copa, na Rússia. Mas ficar de fora da semifinal já seria considerado como um fracasso. 

Em 2017, dois torneios indicaram que os planos estariam em bom caminho. Para a Copa das Confederações, Berlim enviou seu time B e, mesmo assim, o jovem Julian Draxler levantou o trofeu. Num espaço de três dias, outro time alemão venceu a Eurocopa Sub-21. Nos últimos anos, a coleção de troféus não deixa dúvidas: campeão em 2014, semifinal na Eurocopa de 2016, campeão mundial Sub-21 em 2009, campeão sub-19 em 2014 e quatro vezes finalistas em torneios sub-17. 

A base do trabalho foi focar a preparação na técnica, desde a infância dos futuros craques. Todos os clubes de primeira e segunda divisão foram obrigados a abrir academias para juvenis. 

300 centros foram criados pelo país, com o objetivo de identificar talentos num país com 80 milhões de habitantes. Neles, 1,3 mil treinadores foram distribuídos. Para esses técnicos, uma estrutura inédita foi criada. 5,5 mil deles hoje possuem licença para trabalhar no mais alto nível, enquanto outros 28,4 mil contam com uma licença B, uma espécie de curso preparatório. Para completar, foi criada a figura do “especialista tático”, com cerca de mil profissionais já certificados. 

Um desses treinadores de jovens é Torsten Beulen, treinador do TuS Chlodwig Zulpich. Para ocupar o posto, ele passou por um curso de 120 horas oferecido pela DFB. “Foram cinco meses de cursos”, disse. “O foco era a técnica”, disse Beulen. 

Segundo ele, depois do que foi o desempenho da Alemanha na Eurocopa de 2000, com o pior resultado de sua história, a ordem foi de que tudo teria de mudar. Começando pela base. “Era horrível o que víamos em campo. Depois disso, houve uma mudança na filosofia para garantir a técnica no centro das atenções”, explicou ao Estado

No total, 650 mil jovens são acompanhados anualmente, o que torna quase impossível que um grande talento escape dos olhos dos treinadores. O controle de toda a estrutura a partir de uma filosofia centralizada ainda permite que jovens possam logo ter uma chance no time principal. Foi isso o que ocorreu com Leon Goretzka, Joshua Kimmich e Julian Brandt, todos com menos de 23 anos.

Na Bundesliga, a média de idade também caiu. Se em 2002 os jogadores em campo tinham em média 27 anos, hoje ela é de apenas 24 anos. Em menos de 15 anos, o número de alemães jogando nos times principais de cada clube aumentou de 50% para mais de 66%, uma das taxas mais elevadas da Europa.  

Problemas

Nem tudo, porém, é sinônimo de tranquilidade para os alemães. Oliver Bierhoff, diretor da DFB, indicou na semana passada que em breve um novo “plano” para o futebol alemão começará a ser elaborado, com vistas aos Mundiais de 2026 e 2030.

Estudos realizados pelos treinadores indicaram falhas na base, com um déficit de atenção no aspecto da técnica dos jogadores entre 9 e 12 anos. “Precisamos relançar os planos”, disse. Os estudos revelaram como houve uma atenção exagerada em questões como a recuperação da bola e não permitir que o outro time possa jogar. Mas o que falta é o foco em inovações táticas e técnicas sobre o que fazer quando a bola estiver nos pés do time alemão. Sua ideia é de que o país não pode e não quer ter “uma geração de ouro”. Mas uma constante renovação. 

Assim, quando o Brasil entrar em campo para sua sonhada revanche contra a Alemanha nesta terça-feira, grupos de garotos estarão no estádio em Berlim, levados por seus clubes. Eles, porém, não apenas estarão acompanhando um dos maiores clássicos mundiais. Mas também são preparados para, em 2026 e 2030, assumir o lugar daqueles que hoje são seus ídolos. E que não farão falta.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.