Christof Stache/AFP
Christof Stache/AFP

Alemanha se prepara para o retorno do futebol em meio à pandemia do coronavírus

Nesta semana, todos os clubes das duas principais divisões do país retornaram aos campos de treinamento

Tariq Panja, The New York Times

09 de abril de 2020 | 15h27

A Alemanha já está à frente da curva. Enquanto outras ligas do futebol europeu se vêm às voltas com incertezas e disputas salariais entre clubes e sindicatos de jogadores, na Alemanha existe ordem e uma estratégia clara para reiniciar o campeonato que, como tantos outros ao redor do mundo, foi interrompido pelo rápido crescimento da pandemia do novo coronavírus.

Nesta semana, todos os clubes das duas principais divisões do Campeonato Alemão retornaram aos campos de treinamento, seguindo protocolos locais de saúde, mas oferecendo a milhões de torcedores famintos por futebol o sinal mais seguro de que em breve poderão voltar a ver os jogos, muito mais cedo do que os fãs das outras grandes ligas da Europa.

Christian Seifert, diretor executivo da liga, disse ao jornal americano The New York Times que estão sendo traçados planos para que os jogos retornem em todos os 36 estádios no início de maio, com a previsão de que os nove jogos restantes sejam concluídos até o final de junho, quando boa parte das outras ligas europeias nem terá retornado do intervalo esportivo. É improvável que a Premier League da Inglaterra, a competição nacional mais rica do futebol, volte antes de julho.

Mas, apesar de todo o otimismo, já está claro que uma das características definidoras da popularidade do futebol alemão estará ausente - e ausente por muito tempo. Seifert disse que os estádios, geralmente lotados (a Alemanha tem as maiores médias de público da Europa), estarão vazios, já que os chamados "jogos fantasmas" são realizados em arenas desertas, sem a habitual atmosfera de carnaval. O futebol será um entretenimento apenas para a televisão e provavelmente continuará assim até o final do ano, disse Seifert.

Os outros países vão acompanhar de perto o caminho da Alemanha de volta aos gramados. Todo o futebol europeu foi interrompido, com a estranha exceção da Bielorrússia. A Fifa está permitindo uma extensão indefinida do calendário, para que os campeonatos de todo o mundo possam completar suas temporadas.

"Fazemos parte da cultura do país, as pessoas querem recuperar cada pedacinho de vida normal, e isso pode significar o retorno da Bundesliga", disse Seifert. "É por isso que temos que cumprir nosso papel aqui, e isso significa apoiar o governo e conversar com o governo sobre a data em que poderemos voltar a jogar".

Na elaboração do plano, a Bundesliga estima que, para cada jogo, serão necessárias 240 pessoas, entre jogadores, técnicos e departamento médico, árbitros e staff de produção. Dois grupos foram criados para lidar com os aspectos práticos da organização dos jogos: um para estabelecer regulamentos uniformes para o dia do jogo e o outro, talvez mais importante, para elaborar um plano de higiene para treinamentos e jogos e para determinar quais medidas devem ser tomadas se um jogador testar positivo.

"A ideia é passar segurança aos jogadores, a suas famílias e também à sociedade", disse Seifert. A pressa em retornar aos campos é resultado tanto da necessidade financeira quanto da emocional.

Ainda que seus clubes sejam alguns dos mais saudáveis da Europa, não terminar a temporada acarretaria um custo enorme. Seifert calcula o valor em 750 milhões de euros, uma quantia similar às previsões de perdas de 1 bilhão de euros na principal divisão da Espanha, La Liga, e de pelo menos 1 bilhão de libras na Premier League.

"No momento, estamos todos lutando para sobreviver", disse Seifert, prevendo que 50% das equipes da segunda divisão "correriam muito risco de pedir falência" se a temporada fosse cancelada, e que outras cinco equipes da divisão principal também enfrentariam sérios problemas.

Os clubes alemães não atraíram grandes investidores da mesma maneira que a Premier League, onde bilionários estrangeiros e sheiks do petróleo despejaram dinheiro nos clubes. Isso se deve principalmente a um modelo que impede que entidades comerciais sejam proprietárias de mais de 49% de um clube. A crise levantou sugestões de que o regulamento - que é ferozmente defendido pelos torcedores, mas que há muito frustra alguns dirigentes de clubes - pode enfim estar prestes a ser revisto. Seifert negou essa possibilidade. "Enquanto eu for o CEO da Bundesliga, ninguém discutirá a regra do 50+1 bem no meio do coronavírus", disse ele.

Clubes alemães conseguiram navegar com serenidade a complicada questão de negociar cortes nos salários dos jogadores, ao contrário das equipes da Inglaterra, onde uma disputa feia entre jogadores, sindicato e times já entrou na segunda semana. Na Alemanha, onde jogadores e clubes negociaram sem intermediários, os jogadores dos clubes maiores concordaram em reduzir seus salários entre 20 e 30% e os dos menores, em 10%. "Para ser sincero, não entendi as discussões em outros países porque, desde o início, os clubes conversaram com seus jogadores sobre isso", disse Seifert./TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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