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Alerta para Tite

Técnico faz ótimo trabalho na seleção. Só não pode cair na tentação do “grupo fechado”

ANTERO GRECO, O Estado de S.Paulo

22 de março de 2017 | 13h18

Tite é técnico competente – a trajetória dele atesta – e pessoa bacana, até muitas provas em contrário. O campeão do mundo com o Corinthians pegou a seleção à deriva, menos de um ano atrás, colocou-a no prumo, num estalar de dedos, e pode voltar do Uruguai com a vaga para a Copa da Rússia no bolso. Teve o mérito, até, de fazer com que o público resgatasse prazer de ver a equipe em ação, apesar do vínculo com a CBF. Gringos já a recolocam na lista das candidatas a excelente figura em 2018.

A mudança de astral representa o reconhecimento da eficiência do chacoalhão dado num elenco que, em essência, já trabalhava com Dunga. O capitão do tetra não convocava mal – justiça se lhe faça. O problema era na prática: com a bola a rolar, o time não fluía, era previsível e dependente de Neymar. Mas se trata de página virada pela segunda vez, não vale a pena retornar.

Ou melhor, vale ser retomada como referência e lição a evitar. Dunga cometeu falha de antecessores, copiada também por sucessores; ele caiu no conto do “grupo fechado”, na casca de banana da gratidão aos homens de confiança. O que vem a ser isso? Vamos lá.

Vários de nossos treinadores apegaram-se a atletas que lhes foram úteis e fiéis em momentos de incerteza, e com eles caminharam para o abismo. Foi assim com Telê em 1986 (ligado a parte da trupe de 1982), com Parreira em 2006, com Dunga em 2010 e com Felipão em 2014. Os três últimos com a coincidência de apostarem em nomes e sistemas vencedores das Copas das Confederações dos respectivos anos precedentes aos Mundiais. Confiaram no taco de jogadores que brilharam no torneio preparatório, porém negaram fogo no desafio maior por chegaram a ele em situação aquém da desejada.

Amizade jamais deve ser traída, nem é esse o tema da crônica; amigo urso é abjeto – nem merece a qualificação de amigo. A questão atém-se a aspectos práticos. Mundial tem tiro curto, 30 dias e 7 jogos no máximo. Requer, portanto, participação de atletas em perfeitas condições. Todos que acompanham a rotina do esporte de alto rendimento sabem que desempenho oscila e, mesmo com cuidados, estudos e preparo, há quem desabe quando não pode. Muito comum no futebol.

Em palavras simples: Tite não pode formar patota, com mais de um ano antes da Copa. A sensibilidade mostrada até agora nas convocações, com um ou outro reparo apenas nas listas, deve prevalecer até a data de entrega da relação final à Fifa. Se, daqui a algum tempo, titulares de agora despencarem, que sejam chamados para conversa, recebam segunda chance e fiquem de sobreaviso. Mais perto da definição, se não houve reação, um abraço sincero, um aperto de mão e vaga para outro.

Exceção? Sim, para Neymar. O craque merece salvo-conduto para períodos nebulosos; tem crédito. Como Rivaldo e Ronaldo receberam de Felipão em 2002. Estavam às voltas com contusões, foram mantidos e tiveram papel extraordinário no penta.

As reflexões acima têm a pretensão desmedida de contribuir para o debate, em eventual dilema de Tite, como se acaso ele lesse estas maltraçadas... Em termos práticos e para já: a escalação para o clássico com o Uruguai. Não há surpresas, em relação à equipe que acumula vitórias sob o novo comando. A dúvida se restringe ao substituto de Gabriel Jesus, e Firmino sai na frente. O moço sabe abrir espaços e tem presença de área; aproxima-se das funções de Jesus, de molho por contusão.

O peso da camisa celeste conta, e como! No entanto, o Brasil não tem por que mudar de maneira radical a maneira de atuar. Controle de bola, marcação eficiente e intensidade nos ataques lhe renderam sete vitórias. Com uma pitada de atenção podem resultar na oitava. A onda é tão favorável que nem derrota abalará.

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