Algoz e herói, Zidane se vê nos pobres do Brasil e exalta país

Em sua primeira visita ao Brasil, oastro francês Zinédine Zidane disse no domingo ter profundaidentificação com o país tanto pela pobreza da periferia comopelo amor ao futebol. Ele recusou o status de carrasco daseleção brasileira, apesar de ter sido decisivo para a Françasair vencedora nos confrontos dos Mundiais de 1998 e 2006. Nascido em uma família argelina e peladeiro nos subúrbiosde Marselha quando criança, Zidane vestiu uma jaqueta com ascores brasileiras ao passar pela favela de Heliópolis ondemoram cerca de 125 mil pessoas, na zona sul de São Paulo. Foiovacionado por centenas de moradores, que se acotovelaram paravê-lo. "Hoje eu pude relembrar um pouco da minha infância porqueeu também cresci em um ambiente difícil. Eu fico feliz de estaraqui e saber que as pessoas me conhecem", disse o ex-jogador ajornalistas após dar o pontapé inicial na inauguração de umaquadra poliesportiva em Heliópolis, considerada a maior favelada capital paulista. "Quando a gente vem de um lugar desfavorecido (como é o meucaso), se toca mais facilmente. Em um momento você sente quequer dar para os outros um pouco do que recebeu. Sou embaixadorde muitas causas e fico feliz, porque estou sendo útil", disseele, ao responder perguntas previamente selecionadas pelaassessoria de imprensa da Adidas, sua empresa patrocinadora. Em Heliópolis, Zidane evitou fãs mais entusiasmados ejornalistas. Mas conversou com Vitor, 8 anos, que deu depresente ao ex-jogador um Estatuto da Criança e do Adolescente,"para ele se lembrar das crianças do Brasil". Cercado por umamultidão na quadra de futebol, o francês abreviou a saída e nãobateu bola com os jogadores locais, do Ratatá Futebol Clube. "Ele é quietão, mas gostei dele. Pena que ficou pouco",disse Vitor. Zidane permaneceu cerca de 20 minutos no local,onde converteu uma cobrança de pênalti tendo como goleiro rivalo senador Eduardo Suplicy (PT-SP), que ajudou a bola a entrarno gol após ela carimbar a trave e a sua perna direita. Apesar das feições contidas e do semblante mais tranquilodo que empolgado, Zidane afirmou que se considera umbrasileiro, apesar de ter marcado dois gols na vitória francesapor 3 x 0 na final da Copa do Mundo de 1998 e de ter esbanjadohabilidade na vitória da seleção européia por 1 x 0 no Mundialda Alemanha, em 2006. "Me considero um de vocês, com certeza... se vocêsdiscordam, eu lamento. Mas para mim o Brasil é um exemplo nofutebol.... eu espero que não me considerem como alguém que fezmal ao Brasil", comentou. FUTEBOL DE SALÃO Após a visita a Heliópolis, Zidane deu entrevista no clubePaineiras, no bairro nobre do Morumbi. Lá, ele foi chamado adistribuir autógrafos a torcedores, sócios do clube,jornalistas e quem estivesse por perto. A energia que sobroupara atender os fãs faltou ao ex-jogador, aposentado em 2006,para evitar a derrota de seu time na partida de futebol desalão que disputou no clube e que perdeu por 4 x 3. Cerca de 4,5 mil pessoas, de acordo com a organização doevento, contribuíram com uma campanha beneficente para verZidane em ação em um jogo que reuniu, além dele, outros seiscampeões mundiais: Rivellino (1970), Aldair, Márcio Santos,Mauro Silva, Ronaldão e Paulo Sérgio (todos em 1994). Os torcedores presentes não viram a "roleta", driblecaracterístico de Zidane, no qual ele gira por cima da bola,nem um chute indefensável ou um lançamento na medida para umcompanheiro. Viram um craque sem cerimônias, nem exageros. "Ele é uma pessoa muito simples aqui fora, mas lá dentro émuito requintado. Ainda é difícil marcar um jogador como ele.Não desaprendeu nada", disse Aldair, ex-zagueiro da seleçãobrasileira e da Roma. Apesar dos elogios, o francês reiterou que não voltará aoscampos, ainda que os fãs brasileiros tenham pedido em cartazese gritos para que ele retorne e não deixe o fim da sua carreiramarcado pela expulsão na decisão do Mundial de 2006, quando deuuma cabeçada histórica no peito do italiano Marco Materazzi. "Eu recebi propostas para jogar nos Estados Unidos, mas nãoaconteceu. É tarde para isso, porque já faz dois anos queparei. Estou com a cabeça em outro lugar", afirmou. Três vezes eleito pela Fifa o melhor jogador do mundo, emmeio a títulos com a seleção francesa, a italiana Juventus e oespanhol Real Madrid, Zidane diz que não se sente no mesmonível dos maiores jogadores da história, entre os quais listouo brasileiro Pelé e os argentinos Maradona e Di Stefano. Eafirmou que se vê menor do que o atacante Ronaldo. "Para mim ele foi e será o número 1 do mundo", declarouZidane sobre o atacante do Milan, que está com a carreiraameaçada após uma grave lesão no joelho. "Eu acredito nele equero rever o Ronaldo em campo, como todos que amam ofutebol." Assim como chegou em Heliópolis, o discreto Zidane logodeixou o clube Paineiras onde jogou sua primeira partida noBrasil. Ele parte nesta noite, mas promete voltar, no máximo,até a Copa de 2014. "A Copa no Brasil vai diminuir as chances das outrasequipes, mas o futebol é assim mesmo. Espero poder estar aqui",disse.

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