Alex Alves/Estadão
Alex Alves/Estadão

‘ALGUNS JOGADORES TÊM MEDO DE FALAR’

Lateral do Barcelona diz que atletas se autocensuram

Entrevista com

Daniel Alves

Raphael Ramos, O Estado de S.Paulo

07 de novembro de 2015 | 07h00

Daniel Alves não precisa da braçadeira de capitão para se comportar como líder da seleção brasileira. Os números o credenciam como uma das principais referências do grupo. Entre os 23 atletas chamados por Dunga para os jogos contra Argentina e Peru, pelas Eliminatórias, somente Kaká foi mais vezes convocado do que o lateral do Barcelona. Com 86 jogos pela seleção, Daniel Alves assume o papel de porta-voz daqueles que, por exemplo, não têm coragem de criticar o comando da CBF. “Alguns jogadores têm medo de falar e não voltar à seleção”, diz o lateral nesta entrevista ao Estado. Quando o assunto é Neymar, o jogador se posiciona como uma espécie de escudo para proteger o craque. “Ele é meu companheiro e sempre vai ser defendido por mim. Basta a imprensa para bater nele.”

Depois da Copa América, você criticou a CBF e disse que o futebol brasileiro parou no tempo. Teve medo de sofrer algum tipo de retaliação e não voltar mais à seleção?

As pessoas precisam ter confiança no seu trabalho e na sua verdade, independentemente da repercussão que isso possa ter. Tenho de suportar as consequências das minhas atitudes e não dos meus medos. Falei o que pensei com o único objetivo de ajudar o futebol brasileiro a melhorar. Não tenho nenhum interesse particular. Sei que falei com a boca de alguns jogadores que têm medo de falar e não voltar à seleção. Mas, o meu trabalho é muito mais forte do que uma opinião que eu possa ter sobre um determinado tema. Eu estava entalado, engasgado, e preparado para a qualquer repercussão.

Você chegou a dizer que não era possível que o presidente da CBF não viajasse com a seleção. Ainda mantém essa posição?

Falei naquele momento o que eu pensava. Não preciso ficar batendo na mesma tecla. Agora é pensar no futuro e continuar lutando para a melhoria da seleção e da organização do futebol. A junção de tudo isso vai ter reflexos dentro de campo.

Você é um jogador que sempre sai em defesa dos outros atletas. Não poderia, por exemplo, ser capitão da seleção?

Eu me predisponho a ajudar sempre que necessário. A minha posição independente da tarja de capitão. Vou continuar defendendo meus companheiros. Cada um age da forma que achar melhor. Continuarei tendo o mesmo comportamento para não deixar que coisas de fora afetem o grupo.

As críticas incomodam?

É complicado ver gente que já foi jogador, e sabe das dificuldades que passamos, ter uma visão do futebol como se fosse o melhor do mundo ou nunca tivesse cometido algum erro. Sempre assisto aos jogos com uma visão bastante crítica e procuro compreender os erros ou tomadas de decisões equivocadas porque entendo como é complicado fazer escolhas acertadas em fração de segundos.

Tem jogador que rende menos na seleção do que no clube porque tem medo de errar e não voltar a ser convocado?

A seleção tem de ser a mescla de jogadores jovens e mais experientes. Quando eu era mais novo, passei por diversas situações de não tomar a decisão na hora certa por falta de confiança. Quando você começa a ter controle desse tipo de situação o seu trabalho rende mais. A partir da confiança é que surgem os resultados. Isso só vem com o passar do tempo, mas se pudermos encurtar esse prazo será melhor para a seleção.

O 7 a 1 ainda está engasgado ou faz parte do passado?

O passado só tem de ser observado se for para melhorar o presente e, consequentemente, o futuro. Se não for assim, não vejo motivos para você ficar voltando toda hora ao passado, até porque não dá para mudar o que já está feito. Sem dúvida nenhuma aquela derrota foi dolorosa, mas ficou para trás. Temos de olhar para frente e fazer com que aquilo não volte nunca mais a acontecer.

Você conhece muito bem o Messi no Barcelona. Qual é o tamanho da vantagem do Brasil em jogar contra a Argentina sem ele?

Estamos falando do melhor jogador do mundo. Não enfrentá-lo é um ponto a nosso favor, mas não temos que nos apegar a isso. A Argentina não se resume exclusivamente ao Messi e tem outros jogadores de qualidade que tentarão superar a ausência dele. Por isso, temos de estar muito bem preparados para conseguir um resultado positivo fora de casa. Se a gente se apegar muito à ausência do Messi, teremos dificuldades.

Depois da expulsão do Neymar na Copa América, você deu uma entrevista dizendo que saiu em defesa dele na imprensa, mas que, quando estavam só vocês dois, o tom da conversa foi outro. Você pode revelar o que disse para ele?

Isso fica nos bastidores, não se comenta. Sou um cara que sempre se preocupa com as pessoas que eu gosto. Tenho alguns anos a mais de experiência no futebol do que ele, e isso acaba ajudando em momentos como aquele. A expulsão ficou de aprendizado para o resto da vida dele. Ele é meu companheiro e sempre vai ser defendido por mim. Se eu tiver que criticá-lo vai ser numa conversa particular, e nunca em público. Basta a imprensa para bater nele.

Como a seleção pode resolver a dependência que tem do Neymar?

Não acredito que o Brasil tem uma Neymardependência, assim como costumam falar que o Barcelona tem a Messidependência. É claro que, quando esses jogadores estão em campo, a equipe circula em função deles. É evidente que você tem de procurar explorar o máximo possível um jogador dessa qualidade porque ele pode resolver jogos complicados. Mas uma equipe vai muito além de um único jogador. O futebol é um esporte coletivo. O Ney é o nosso diferencial e não o nosso tudo. Nesse ponto, acho o futebol injusto. Sempre falam em dependência de um jogador quando é para o lado positivo. Quando é algo negativo, o foco se volta para os outros. Cada jogador tem a sua importância dentro da seleção e todo mundo tem de procurar fazer o melhor para a gente formar uma grande equipe.

Você foi convocado duas vezes por causa da saída de outros jogadores. A primeira foi na Copa América, quando o Danilo saiu por lesão, e depois nas Eliminatórias com o corte do Rafinha, que pediu para não jogar. Agora você foi chamado na primeira lista. Acha que conquistou de vez o seu lugar na seleção?

A minha história na seleção vem há muito tempo. Sempre tentei fazer o meu melhor. Algumas vezes consegui, em outras não. Gosto de dizer que sempre consegui as coisas pelos meus méritos e não por demérito dos outros. O mais importante é estar preparado para quando a oportunidade aparecer você corresponder às expectativas. Respeito as decisões dos treinadores. A única coisa que procuro fazer é o meu trabalho, tanto no clube como na seleção.

Como vê a briga pela vaga na lateral-direita com o Danilo?

A seleção só tem a ganhar quando jogadores de qualidade disputam posição. Para mim, é um privilégio ter um companheiro como o Danilo, que é um grande jogador. O objetivo não é competir entre nós mesmos, mas sim contra os adversários. Ninguém vai para a seleção achando que é titular absoluto. Todo mundo vai para ajudar o grupo.

O Brasil corre risco de ficar fora da Copa do Mundo de 2018?

Pela qualidade dos nossos jogadores e a força do nosso grupo não acredito que o ficaremos fora dessa Copa do Mundo nem das próximas. É com essa confiança e mentalidade que fazemos o nosso trabalho na seleção. Sabemos que vai ser difícil se classificar, mas costumo dizer que se a vida fosse fácil a gente não nascia chorando.

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