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Amanhã

Na cúpula do futebol mundial e na cúpula do futebol brasileiro não há mais nada

Ugo Giorgetti, O Estado de S. Paulo

11 de outubro de 2015 | 03h00

Incerteza é a palavra do dia. O que vai acontecer amanhã? O que vai ser do nosso emprego? O que acreditamos seguro hoje estará do mesmo jeito amanhã? Parece incrível que, de um mundo sólido de alguns poucos anos atrás, passamos para um mundo líquido, hesitante, perplexo, sem certeza de nada, sem poder acreditar em nada, mergulhado em episódios que se sucedem dia a dia numa cadeia que parece não ter fim. Esta coluna é de futebol e o futebol não poderia fugir das incertezas do mundo. 

Não vou falar, até porque há quem fale muito melhor, dos imigrantes europeus, de Donald Trump, da Síria, ou das eleições na Argentina. Esta coluna é de futebol, repito. E a incerteza geral golpeia fortemente o futebol. A começar dessa entidade misteriosa, quase secreta, com sede na Suíça. Por anos ela se manteve atrás de seu véu de mistério e suas entranhas não vinham a publico. Aliás, durante muitos anos o mistério foi mantido sob comando de nosso João Havelange. O estouro da bolha veio a dar-se no reinado de seu sucessor. Hoje a rigor não há mais Fifa. Toda a diretoria está afastada, o presidente, o sorridente ex-craque francês, o arrogante administrador que vinha ao Brasil passar pito nas autoridades locais e era recebido como um nobre, até mesmo um magnata sul-coreano, acusado de comprar votos para que sua região fique com a copa de 2022. 

De lá a incerteza chega aqui. Ou foi daqui que partiu a incerteza? Pouco importa. O fato é que temos um presidente da CBF trancado em sua fortaleza sitiada, rodeado de pouquíssimos defensores e um sem número de inimigos, nos quais tampouco se pode confiar. Na cúpula do futebol mundial e na cúpula do futebol brasileiro não há mais nada. O mundo do futebol se move por força inercial. Se move por hábito, pelo costume de anos se movendo do mesmo jeito. Parece que há alguém dirigindo, mas é só impressão. 

E disso resulta que não há nada no comando da seleção propriamente dita, em campo. O que há é um Dunga atônito, que por via das dúvidas se defende fazendo o óbvio, convocando praticamente os mesmos jogadores de vexames recentes, sem ousar mudar, sem arriscar alguma coisa nova, pelo menos com aparência de nova, pelo menos que denote um simples esforço criativo, uma simples manobra não utilizada, um simples gesto de rebeldia contra a inércia, a falta de liderança e de respeito por uma tradição de futebol que vai sendo rebaixada ano a ano. 

A incerteza passa até pelo julgamento da qualidade dos próprios jogadores. Afinal nenhum deles, exceto Neymar, passou pelo crivo do torcedor brasileiro. Digo crivo mesmo, de craque incontestável. Aceitamos Miranda, Oscar, Hulk, etc, por instinto, por informação secundária, nunca por convicção. Porque quando saíram daqui ainda eram apenas promessas, garotos que tinham muito tempo ainda pela frente antes de receber o aval de craque de seleção, dignos de levar à frente a tradição brasileira. A incerteza quanto às verdadeiras qualidades deles nos leva à indulgência. Ficamos no fundo com pena deles. 

Não sabemos o quanto exigir deles, não sabemos mais nada. Sabemos que o que acontece na cúpula os atinge também - e não só a brasileiros - a ponto de alguns se tornarem alvos de investigação policial. 

Torcemos para recuperar nosso lugar no mundo. Mas as coisas ao nosso redor teimam em aparecer e desaparecer com a mesma velocidade tragando tudo. É preciso seguir em frente, porém, e acreditar. Em que? No acaso certamente, na fortuna, na sorte. Este é um país grande. Pode ser que neste momento em algum remoto e improvável lugar esteja surgindo um gênio, um grande craque que nos vai redimir. Um garoto que vai começar por driblar os familiares, depois escapar dos membros da Associação Brasileira dos Agentes de Futebol e finalmente da fama e do dinheiro a qualquer custo. Só precisamos de um desses craques, apenas um.

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