Michael Bulhozer/AFP
Michael Bulhozer/AFP

Blatter se isenta de responsabilidade e acusa EUA e Inglaterra

Presidente concorre a um quinto mandato no comando da Fifa

Jamil Chade, correspondente em Zurique, O Estado de S. Paulo

29 de maio de 2015 | 06h12

Joseph Blatter, presidente da Fifa, abriu o congresso anual da Fifa apelando por "unidade" e se recusa a aceitar a responsabilidade pela crise. Nesta sexta-feira, ele concorre a um quinto mandato no comando da entidade. Mas nunca seu reinado esteve tão ameaçado como hoje e usou seu discurso para atacar os EUA e a Inglaterra por estar questionando a Fifa. 

“Gostaria de compartilhar essa responsabilidade com vocês, federações, e com o comitê executivo”, disse Blatter na abertura do congresso aos delegados de 209 países. “Precisamos fortalecer as fileiras e ir adiante”, lamentou. “Vamos recolocar a Fifa nos trilhos”, disse. 

Blatter insistiu que foi ele quem estabeleceu regras para tentar controlar o comportamento dos cartolas e garante que existe uma divisão de poderes dentro da entidade. “Mas não podemos controlar todos fora da Fifa”, disse. Ele também alerta que cabe às confederações regionais agir para se reformarem. “Só assim poderemos ter maior controle. Em nenhum país um tribunal pode agir sozinho”, insistiu.

Blatter ainda tentou explicar a “explosão” financeira da Fifa nos últimos anos e que transformou a entidade em uma potência. “É o casamento do esporte com a televisão que fez a Fifa explodir, atraindo parceiros comerciais”, disse. “Sem eles, não estaríamos aqui”.  

Na investigação realizada pela Justiça americana, são justamente esses contratos que foram alvos de propinas por muitos cartolas.

O dirigente da Fifa, porém, deixou claro pela primeira vez hoje em mais de 30 anos na entidade que a federação é, de fato, “uma empresa, uma grande empresa”. Ele ainda citou João Havelange, seu ex-chefe.

“Meu predecessor me disse: você criou um monstro”, disse Blatter. “Não é assim, Mas a Fifa se transformou em uma grande empresa e as federações nacionais são os acionistas”, declarou.

Blatter ainda atacou os EUA e Inglaterra em seu discurso, alertando que se a escolha das Copas de 2018 e 2022 não tivessem sido para a Rússia e Catar, a “história seria diferente”.  Desde a escolha das duas sedes em 2010, a Fifa vive um terremoto. Londres ganhou apenas dois votos e foi humilhada. Os americanos, mesmo com Bill Clinton pedindo votos, também foi derrotado pelo Catar.  

Mas a situação do suíço é delicada. O opositor de Blatter, Ali bin Hussein, garantiu ao Estado que está otimista que os fatos dos últimos dias e as detenções de cartolas mudem os votos na entidade. 

Blatter, porém, usou seu discurso para fazer um apelo aos 209 eleitores. “Convoco vocês a um espírito de equipe, de unidade”, disse. “Não vai ser sempre fácil. Mas estamos aqui para atacar os problemas. Esses problemas não se solucionam em um dia”, insistiu.

Na quinta-feira, a Uefa deixou claro que poderia até mesmo abandonar a Fifa se Blatter fosse eleito, no que seria o maior cisma no futebol mundial moderno. Michel Platini, presidente da entidade, apelou ao suíço para que peça demissão. Mas Blatter se recusou. 

O cartola suíça está na Fifa desde 1976 e, a partir de 1998, ocupou sua presidência. Mas acredita que não terminou ainda sua “missão”. 

“Os eventos dessa semana foram uma verdadeira tempestade. Foi colocado em dúvida até mesmo a realização do congresso. Mas estamos aqui”, declarou Blatter. 

Falando como se fosse o real candidato de oposição, o cartola fez questão de elogiar os 209 membros e apelar por seus votos. “Vocês tem o poder de mudar a cara da Fifa. É um poder que não se pode comprar”, disse. “Vamos buscar soluções”, declarou. 

“Vivemos um momento difícil”, declarou. Mas tentou minimizar, alertando que não seria “inédito”. “Os eventos jogaram uma sombra no futebol. Mas vamos tentar tirá-la e decidindo que não podemos aceitar que a Fifa seja levada a isso. Os que estão por trás disso tudo e os suspeitos são indivíduos. Não é a entidade como um todo. São indivíduos que esqueceram que o futebol é baseado em um jogo de equipe e com fair play”, declarou.

Garantindo que existia “transparência total para a imprensa” na Fifa, Blatter teve seu discurso interrompido por manifestantes. Um grupo pedia a exclusão de Israel na entidade por supostas violações contra o futebol palestino.   “Segurança, por favor”, pediu Blatter.  Instantes depois, ele explicaria que o estatuto o da a responsabilidade de garantir a segurança do evento. 

VOTOS 

Em uma das primeiras decisões, o Brasil foi eleito para escrutinar votos de algumas das decisões da Fifa durante o dia de hoje. Ontem, o presidente da CBF, Marco Polo del Nero, abandonou o evento e retornou ao Brasil. 

Em Zurique, é a Federação de Futebol do Ceará que representa a CBF e que votará em seu nomes. Mas a posição de Del Nero no Comitê Executivo da entidade ficará vago.  

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