Fabrice Coffrini/AFP
Fabrice Coffrini/AFP

Americano pode ser uma ameaça a Del Nero em investigação

Presidente da Traffic negocia delação premiada nos EUA

JAMIL CHADE / CORRESPONDENTE GENEBRA, O Estado de S. Paulo

20 de julho de 2015 | 07h00

Um dos principais executivos da Traffic negocia uma delação premiada com a Justiça americana, numa iniciativa que pode colocar em risco a posição do presidente da CBF, Marco Polo Del Nero e o ex-dirigente Ricardo Teixeira. Uma carta obtida pelo Estado revela que Aaron Davidson, presidente da Traffic nos EUA, está negociando um acordo para cooperar na investigação sobre as propinas da empresa para entidades esportivas, entre elas a CBF.  

A carta foi enviada pelos procuradores do caso para a corte federal no Brooklyn, em Nova Iorque. Nela, os procuradores apontam que Davidson estava "ativamente comprometido em negociar um acordo." 

O executivo foi preso em maio, na operação do FBI contra a Fifa. Ao Estado, fontes próximas ao caso confirmaram que a iniciativa envolvendo Davidson pode levar o processo a chegar mais perto dos brasileiros, principalmente no que se refere às propinas recebidas por membros da CBF para a Copa América. 

Numa das acusações, a Traffic negociou o pagamento de US$ 110 milhões em propinas para os dirigentes sul-americanos. Parte do pagamento, porém, seria destinado para eventos que ocorreriam já na presidência de Del Nero, como as edições do torneio em 2015, 2016 e 2019. 

A mesma Traffic foi quem teria compartilhado uma propina com Ricardo Teixeira no contrato com a Nike e negociado também nos EUA.

A esperança dos americanos é de que o executivo possa explicar para onde foram as supostas propinas e como os pagamentos ocorreram. Davidson, na semana passada, foi o primeiro executivo a ser levado a uma corte desde as prisões em maio. Ele se declarou  "inocente" diante das acusações de fraude, lavagem de dinheiro e obstrução da Justiça. 

José Maria Marin, ex-presidente da CBF e preso em Zurique, também será alvo de uma negociação com a Justiça americana. Mas, com a cooperação imediata do executivo da Traffic, o peso das declarações do brasileiro pode ser diminuído. 

Enquanto isso, em Zurique, a ausência de Del Nero nas reuniões da Fifa de nesta segunda-feira significará para os demais cartolas o “silêncio” do Brasil no processo decisório da entidade e a perda de espaço nas definições do futuro do esporte. Na sexta-feira, o dirigente brasileiro enviou uma carta para a Fifa alegando que não poderia viajar diante da CPI do Futebol no Congresso. Hoje, a Fifa realiza uma reunião de emergência para definir o futuro da entidade.

Entre os dirigentes estrangeiros, a notícia da ausência do brasileiro foi marcada por uma mistura de críticas e reconhecimento de que a situação da CBF não é boa. ”Não me surpreende que Del Nero não esteja em Zurique”, apontou um membro do Comitê de Ética da Fifa, pedindo para não ser identificado.

"O Brasil tem um peso no futebol mundial que não se pode imaginar que não esteja numa reunião como a desta semana”, disse outro dirigente, também na condição de anonimato. “Se existe um país no mundo que é o futebol, esse país é o Brasil”. “Esse é “o” encontro da Fifa”, enfatizou Gianni Infantino, secretário-geral da Uefa, sobre a importância do encontro.

Segundo um representante da Oceania, a ausência de Del Nero pode ser “perigosa” para o Brasil. “Ninguém sabe o que vai acontecer. Não estar aqui significa ficar de fora e em silêncio no momento mais importante da Fifa”, disse. Para um cartola europeu, também pedindo anonimato, foi claro que o Brasil acabará sofrendo. “Não estar neste momento significa que o Brasil não será ouvido e, se houver algum tipo de revolta, não saberemos a posição da CBF”, declarou.

APREENSÃO

No hotel que foi palco das prisões dos cartolas da Fifa há dois meses, a apreensão era real ontem ao voltar a receber os dirigentes da entidade dois meses depois das prisões. Carros de luxo negros continuam indo e vindo, os funcionários do hotel também continuam com os mesmos uniformes e a música clássica nos alto-falantes dá a impressão de calma absoluta.

"Mas o hotel decidiu colocar seguranças privados pelo local e deu a ordem aos funcionários, alguns de fraque, para que não falassem com os jornalistas. A Fifa decidiu manter as reservas no mesmo hotel, apesar do constrangimento. Nem todos os dirigentes, porém, aceitaram ficar no mesmo cenário das prisões e foram espalhados por hotéis em Zurique.

Ao chegar nesta segunda-feira, o presidente da Conmebol, Juan Napout, dava sinais da tensão vivida. “O jeito é continuar”, declarou à dirigente Sonia Bien Aime, representante do Caribe na Fifa.

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