Nacho Doce/Reuters
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Amistoso entre Brasil e Argentina entra no radar da Procuradoria

Ministério Público Federal recebeu informações de que jogo disputado em 2010 registrou pagamentos via sistema financeiro francês

Jamil Chade, correspondente em Genebra, O Estado de S.Paulo

19 de julho de 2017 | 18h18

Procuradores brasileiros vão investigar um dos maiores clássicos do mundo para determinar se o ex-presidente da CBF, Ricardo Teixeira, cometeu alguma irregularidade. O Ministério Público Federal recebeu informações de que o amistoso disputado entre Brasil x Argentina no Catar pode ter usado o sistema financeiro francês para desviar recursos, jamais declarados no Brasil. 

A informação também aponta que o amistoso possa ter sido usado para camuflar pagamentos para garantir o voto de Teixeira ao Catar para receber o Mundial de 2022.

Teixeira, acusado em Madri de desvio de dinheiro dos jogos da seleção, teve uma ordem de prisão emitida na Espanha e a Procuradoria-Geral da República já foi informada da solicitação sobre o brasileiro. Brasília já designou um procurador no Rio de Janeiro que ficará encarregado do caso e, ainda nesta semana, o Brasil deve pedir oficialmente aos espanhóis os detalhes sobre a apuração.

Mas as suspeitas sobre o clássico sul-americano estarão no radar. A mesma partida já passou a ser examinada também pelo FBI, que indiciou Teixeira ainda em 2015. 

O jogo ocorreu em 17 de novembro de 2010, com a informação original de um pagamento suspeito de US$ 7 milhões. O valor seria superior às taxas de mercado e ao cachê que a seleção estaria recebendo naquele momento. A suspeita é de que o dinheiro possa ter sido usado para influenciar os votos dos presidentes de Brasil e Argentina, Teixeira e Julio Grondona. Ambos votariam na escolha da Fifa, em 2010. Tanto o Catar como Teixeira sempre rejeitaram qualquer irregularidade envolvendo a partida. 

ENGENHARIA

O que chama a atenção é a engenharia financeira em uma partida de futebol, organizada pela empresa que detinha parte dos direitos sobre a seleção, a Kentaro.  O pagamento pelos custos do jogo foi feito pela Swiss Mideast Finance Group AG, uma empresa na Suíça de propriedade do conglomerado do Catar, a GSSG. O dinheiro, porém, veio de outra empresa, a SMFG. 

Em um primeiro momento, a Swiss Mideast deu US $6,8 milhões para os custos da partida. Mas, depois, a SMFG pagou mais US$ 8,4 milhões para a Kentaro garantir a participação do Brasil e Argentina. Ainda foi registrado mais um envio pela Kentaro de US$ 2 milhões para uma empresa em Cingapura. O pagamento chegou até a Business Connexion Services Pte Ltd (“BCS”), de propriedade de um sírio, Wael Ojjeh.

Para aquela partida, a Kentaro também enviou para uma conta nas Ilhas Cayman a taxa considerada como “normal” para a CBF participar de um amistoso, com cerca de US$ 1,1 milhão. 

Mas outros pagamentos ocorridos depois da escolha do Catar ainda não estariam explicados. O então aliado de Teixeira, Sandro Rosell, atuaria como intermediário para os interesses do Catar com as federações sul-americanas, entre elas a CBF. Em junho de 2011, ele transferiu 2 milhões de euros para uma conta em nome da filha de Teixeira, de apenas dez anos de idade. 

Na Espanha, a Justiça já prendeu Rosell, acusado de ter criado um “grupo criminoso de dimensões transnacionais” com a participação de Teixeira. 

Rosell, logo depois de ajudar na escolha do país árabe para receber a Copa do Mundo de 2022, assinou com a obscura Qatar Foundation um acordo de patrocínio para o Barcelona. O que a Fifa agora revela é que ele foi também consultor da campanha do Catar. Rosell ganhou 2 mil euros por dia e entregou detalhes estratégicos e ajudaria a apresentar a campanha às autoridades. Um dos focos da campanha foi Teixeira.

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