Fábio Motta/Estadão
Fábio Motta/Estadão

Análise: Fifa ‘entrega’ dirigente para se salvar e defender seu discurso

Entidade viveu dilema de dar um golpe em aliado ou o risco de esvaziar o discurso do combate à corrupção

Jamil Chade, O Estado de S.Paulo

16 de dezembro de 2017 | 07h00

Dois anos depois de ver o caos legal se instalar no futebol, a Fifa decide romper com a CBF. Mas a iniciativa vai muito além de punir um cartola brasileiro, insignificante na estrutura de poder da entidade. A decisão de afastar Marco Polo del Nero faz parte de uma estratégia dos advogados em Zurique de demonstrar, de forma desesperada a procuradores americanos e patrocinadores, que a entidade de Infantino é vítima da corrupção. E não parte de um esquema criminoso. 

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Em apenas três anos, a Fifa gastou mais de US$ 60 milhões (R$ 197,4 milhões) em honorários de advogados para se defender e viu uma fuga importante de empresas parceiras, temerosas em ver seus nomes relacionados com uma entidade símbolo da corrupção. 

Por dois anos, a Fifa não moveu uma só ofensiva contra Del Nero, mesmo com ele indiciado.

O presidente Infantino o visitou no Rio, ganhou do cartola uma camisa da seleção com seu nome, inaugurou uma placa, nomeou seus afilhados para comitê da Fifa e até liberou US$ 100 milhões (R$ 329 milhões) como parte do legado da Copa de 2014. 

Questionado pelo Estado no início de dezembro sobre a situação do brasileiro, Infantino ainda pediu que a “tolerância” fosse adotada em relação aos acusados. Mas, nos bastidores da Fifa, uma decisão foi tomada por seus advogados. Ninguém seria protegido se evidências de corrupção viessem à tona.

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Assim, quando os procuradores americanos inundaram a corte de Nova Iorque com evidências da corrupção de Del Nero, foi a vez da equipe legal da entidade mandar um recado claro a Infantino: manter o brasileiro na “família do futebol” havia se tornado “insustentável”. 

A cúpula da Fifa, então, passou a viver um dilema. De um lado, punir Del Nero significaria um golpe político contra um cartola que havia dado apoio a Infantino nas eleições. Mas mantê-lo no futebol brasileiro, diante das provas apresentadas nos EUA, deixaria escancarado às autoridades o fato de que o combate à corrupção não passava de discurso vazio. Venceu o sentido de sobrevivência da Fifa, mesmo que, para isso, antigos aliados fossem traídos.

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