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ANÁLISE - Sentença de José Maria Marin é recado a toda a gestão do futebol

Ex-dirigente não reconheceu sua culpa em todo o processo dos cartolas da Fifa que eclodiu em 2015

Jamil Chade, O Estado de S.Paulo

22 de agosto de 2018 | 15h25

A sentença em relação a José Maria Marin, a primeira a ser anunciada para um ex-dirigente que não reconheceu sua culpa em todo o processo dos cartolas da Fifa que eclodiu em 2015, é um marco na busca da Justiça no futebol, mesmo ficando abaixo do que era esperado pela promotoria americana.

O tribunal de Nova Iorque determinou uma pena de prisão de quatro anos para Marin, além de multa de pelo menos US$ 4,5 milhões. No final de novembro, a corte ainda anunciará quanto ele terá de restituir a entidades que ele tenha lesado. 

Marin  já cumpriu 13 meses de prisão e ainda pode ver uma redução de um sétimo da sentença por bons comportamentos. No fundo, ele pode acabar ficando apenas mais 28 meses na prisão. A pena ficou distante dos 24 anos que ele poderia sofrer, previsto por lei. Mas o tribunal tampouco atendeu ao pedido da defesa de Marin de o deixar livre imediatamente, apesar de sua idade e condições de saúde.  Pamela Chen, a juíza do caso, descreveu Marin e os demais acusados como "um câncer no esporte que diziam amar" e que não há outra forma de descrever suas ações como "pura ganância".

No fundo, o que estava em jogo não era apenas a situação de Marin. A sentença, essencialmente, é uma condenação a uma forma de governar o futebol que precisa chegar ao seu final, em especial no Brasil. 

Durante as investigações, a promotoria americana mostrou como a corrupção era endêmica à gestão do futebol, como fazia parte do tecido social das instituições que tinham, em mãos, um bem público. O dinheiro que deveria ir para a formação de jovens, para projetos sociais, para o futebol feminino ou simplesmente para os clubes terminou em contas secretas no exterior.

O processo ainda mostrou como Marin jamais agiu sozinho e, de fato, foi apenas um dos últimos em uma longa lista de dirigentes que saquearam o futebol. Com detalhes, o caso traz testemunhos sobre como Marco Polo Del Nero e Ricardo Teixeira também faziam parte de um esquema que, por anos, desviou milhões dos cofres do futebol nacional. Os dois aliados de Marin apenas conseguiram evitar a prisão graças ao fato de não terem saído do Brasil. 

Ao decretar quatro anos de prisão para uma pessoa de 86 anos, o que a corte faz questão de sinalizar é que a Justiça não irá tolerar que o futebol seja roubado e manda um recado claro aos que ainda estão no comando do esporte mais popular do mundo: se a corrupção ainda estiver ocorrendo, ela não ficará impune. Salvo, talvez, se eles estiverem exilados no Brasil. 

 

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