Benjamin Cremel/AFP
Benjamin Cremel/AFP

ANÁLISE: Tite faz algumas correções em sua primeira convocação após a Copa

Ele recomeça seu trabalho na seleção sem o mesmo prestígio de antes da competição na Rússia

Robson Morelli, O Estado de S.Paulo

17 Agosto 2018 | 12h19

Em sua primeira convocação após o fracasso da seleção brasileira na Copa do Mundo da Rússia, Tite mostrou-se mais aberto a responder e a dar explicações do seu trabalho, fato que aconteceu bem pouco antes da competição porque ele só fez ganhar na fase de preparação e Eliminatórias. Portanto, tinha seu trabalho pouco questionado. Isso mudou. Ser eliminando nas quartas de final de uma Copa o colocou em outro patamar. Um pouco mais para baixo. Sua permanência no cargo, a meu ver, foi ato acertado da CBF, o que não quer dizer que ele deixará de ter seu trabalho questionado. O Tite que fez sua primeira convocação para o ciclo do Catar não é mais o mesmo, para o bem e para o mal.

Aprendeu com alguns erros, com a pouca coragem de mexer no time e com algumas atitudes que certamente não se repetirão, como o tratamento especial dado ao jogador Neymar (ele nega isso). Ele e sua comissão trataram também de explicar a condição do atacante na Rússia, tentando justificar seu baixo rendimento em campo. Ocorre que toda a comissão também atestou que Neymar estaria 100% recuperado e pronto para ajudar o Brasil na competição. E o povo brasileiro acreditou nisso. Então, talvez a avaliação tenha sido feita de forma equivocada. Neymar não jogou nem 70% do que podia.

Tite continua sendo um bom treinador, e agora mais experiente, já com um fracasso nas costas em Copa. Então terá de fazer bem melhor e mais do que fez na sua primeira vez. Dos 24 jogadores chamados, 13 estiveram na Copa da Rússia. Então, 11 são novidades, entre eles alguns aclamados pela torcida, como o volante Arthur, agora do Barcelona. Tite também se rende a alguns jogadores que atuam no País, como Paquetá, do Flamengo, e Pedro, do Fluminense. É verdade que não são muitos os que mostram bom futebol nesse momento. Mas esses dois merecem o chamado. O que não quer dizer que estarão lá na frente na Copa do Catar. Tite, se de fato aprendeu alguma coisa na Rússia, deve saber que não se tem fidelidade, ou se deve ter, aos jogadores que começam com ele agora. Muitos, quatro anos mais tarde, podem não estar mais tão bem assim.

Ele não chama Gabriel Jesus, do Manchester City, que não fez nenhum gol na competição perdida para a Bélgica. Um recado ao jogador, mas também a outros que também fracassaram. Retrata um erro na Rússia ao manter no grupo Roberto Firmino, que poderia ter tido mais tempo em campo na Rússia, até mesmo ter assumido a condição de titular de Gabriel. É claro que é fácil comentar isso agora, após um mês de análise e a certeza de que do jeito que foi feito não foi bom. Não deu certo. As explicações dadas para o fracasso, como logística e cidade-sede do Brasil, pouco importam agora. É preciso aprender com os erros, trabalhar com mais agilidade e inteligência.

LISTA DOS CONVOCADOS

Nesta lista, a primeira após a Copa, dá também para entrar na cabeça de Tite e perceber quem foram os jogadores que passaram no teste na Copa, como Casemiro, Philippe Coutinho, Alisson, Fagner, Filipe Luís e Marquinhos, por exemplo. Neymar é um caso à parte. Mesmo longe de suas condições e de todas as suas gracinhas (condenadas à exaustão), ele ainda é o melhor jogador do Brasil em atividade. Tite não quis entrar em detalhes sobre tudo o que aconteceu (de negativo) na carreira do jogador, mas deixou claro que ele ainda é o camisa 10 do time.

O treinador precisa aprender que não se deve passar tanto a mão na cabeça dos jogadores, tratá-los como meninos. Isso não existe. O técnico francês Didier Duchamps deu a maior bronca em seus jogadores após a prim eira partida na Rússia, entre eles o craque Mbappé. Fez isso de forma inteligente, com números e análises e sem poupar ninguém. Os técnicos brasileiros são, na maioria, reféns dos melhores jogadores. Tite, se aprendeu mesmo alguma coisa, tem de mudar isso. Tem de pensar no futebol e na seleção e não nos jogadores apenas. Se tiver de treinar longe da família, que treinem. Se tiver de treinar debaixo de sol, que treinem. É assim que se ganha Copas e que se faz times de homens.

 

 

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