Rodrigo Gazzanel/ Ag. Corinthians
Rodrigo Gazzanel/ Ag. Corinthians

Andrés vai ao Conselho para explicar dívida da Arena Corinthians e jurídico costura acordo com Caixa

Presidente corintiano tentará convencer conselheiros de que o clube reúne condições de pagar o financiamento do estádio: encontro está marcado para 18h

João Prata, O Estado de S.Paulo

30 de setembro de 2019 | 10h50

O presidente Andrés Sanchez vai ao Conselho Deliberativo do Corinthians na noite desta segunda-feira prestar esclarecimentos sobre a Arena do clube. A reunião está marcada para começar às 18h, no Parque São Jorge. A oposição questionará os números da dívida do estádio, de acordo com a Caixa na casa do R$ 536 milhões, e pedirá esclarecimentos em relação às finanças do clube. O dinheiro levantado pelo clube para pagar sua arena é guardado à sete chaves.

O encontro de Andrés com os conselheiros corintianos acontece em meio à tentativa de o clube buscar um novo acordo com a Caixa Econômica Federal. O departamento jurídico dos dois lados, clube e banco, iniciou conversas para que uma reunião entre os dirigentes possa ser marcada em Brasília para assinar um novo contrato. 

O próximo encontro entre os advogados está marcado para esta terça-feira, ainda sem a presença de Andrés e do presidente da Caixa, Pedro Guimarães. Os documentos serão jogados na mesa para análise dos dois lados. O principal entrave a ser resolvido diz respeito ao período em que a arena em Itaquera recebeu a Copa América, entre junho e julho desde ano, e ficou sem arrecadar com bilheteria. Isso teria atrapalhado as contas do clube.  O dinheiro da bilheteria forma a maior parte do valor que paga o financiamento. Como não arrecadou nesse período, o Corinthians não pagou as parcelas desses meses para a Caixa.   

Segundo Andrés, havia sido conversado com a diretoria do banco de que nesses meses não haveria pagamento mensal da dívida. A Caixa nega a tratativa e informa no processo que corre na Justiça que o Corinthians deve desde março ao banco, incluindo o período da Copa América. As parcelas giram em torno de R$ 6 milhões. No jogo de domingo contra o Vasco, por exemplo, o clube levantou R$ 1,8 milhão de renda - ganhou de 1 a 0.

A intenção de Corinthians e Caixa é tentar um acordo para o refinanciamento da dívida. O banco quer receber o que emprestou lá atrás e o clube garante que quer pagar nas condições pré-estabelecidas com a outra diretoria da Caixa: parcelas mensais de R$ 6 milhões durante 8 meses e de R$ 2,5 milhões em quatro meses de menor atividade no calendário da temporada. Por enquanto, o clube informa que deve R$ 470 milhões e o banco diz que precisa receber R$ 536 milhões. A diferença é de R$ 66 milhões.

O Movimento Corinthians Grande, principal grupo de aposição a Andrés Sanchez, divulgou nas redes sociais comunicado há duas semanas em que questiona as justificativas do mandatário do clube sobre o pagamento da arena. "Seria muito melhor para todos que o presidente encerrasse por conta própria o seu papel nesse assunto", escreveu, pedindo o afastamento de Andrés à frente das negociações, o que ele não abre mão.

Para tentar diminuir as críticas na reunião desta segunda-feira, o presidente corintiano se encontrou com cerca de dez conselheiros da situação na última sexta-feira. Ele apresentou documentos e tentou convencer o grupo de que está tentando pagar as dívidas do estádio.

No último dia 27, a Justiça acatou o pedido da Caixa Econômica Federal para incluir o nome da Arena Itaquera S/A, que administra o estádio do Corinthians, no cadastro de inadimplentes do Serasa. No processo, o banco informa que o Corinthians não paga o financiamento da arena desde março. 

As únicas duas parcelas pagas neste ano, de janeiro e fevereiro, foram no valor de R$ 6.442.357,31 e R$ 6.565.312,96, respectivamente, que totalizam R$ 13.007.670,30. O valor em aberto dos meses subsequentes é de R$ 33.789.494,81. No início do mês, o presidente Andrés Sanchez informou que apenas dois meses estavam atrasados. No entanto, lembrou que, caso a Caixa não estivesse contando o período de um acordo verbal, esse atraso contaria desde março.

O clube havia acertado verbalmente com a Caixa no ano passado novo parcelamento da dívida. Esse acerto foi feito com a gestão anterior do banco e teria validade até 2028. No combinado, o Cointhians pagaria parcelas mensais de R$ 6 milhões, de março a outubro de cada temporada, e R$ 2,5 milhões entre novembro e fevereiro, período em que há um menor número de jogos no calendário do futebol brasileiro. Ocorre que nada disso está no papel. A missão de Andrés é convencer seus pares do Conselho que tudo está amarrado e negociado e que o Corinthians não corre qualquer risco de perder seu estádio.

A Caixa emprestou inicialmente R$ 400 milhões ao Corinthians para a construção do estádio em Itaquera. Desde o início do financiamento, em 2014, o clube pagou cerca de R$ 170 milhões, sendo R$ 80 milhões de fevereiro de 2018 até agora. O Brasil fez sua estreia na Copa do Mundo na arena em Itaquera. Ganhou da Croácia por 3 a 1 em 12 de junho daquele ano. 

O imbróglio ocorre no momento em que o Corinthians encaminhou acerto também com a construtora Odebrecht. Além dos 400 milhões de dívida com a Caixa, o clube havia se comprometido a pagar R$ 420 milhões para a construtora, que também ajudou a erguer o estádio. Esse valor viria por meio dos CIDs (Certificados de Incentivo ao Desenvolvimento) emitidos pela Prefeitura de São Paulo. 

Perguntas e respostas sobre a Arena Corinthians

1 - O que muda a entrada da Arena Itaquera para o Serasa?

Na prática não altera em nada. Isso porque o Fundo que administra o estádio e o Corinthians que é quem paga as contas não possuem restrições e ainda estão aptos para buscar crédito.

2 - O Corinthians corre o risco de perder a Arena?

Por enquanto não. Se Corinthians e Caixa não entrarem em acordo, deverá haver uma longa briga judicial. Isso já está ocorrendo. O clube tem direito a entrar com recurso e questionar a decisão do banco. Uma solução poderá a contecer. Com a cobrança da dívida no Serasa, o Corinthians vai começar a enfrentar dificuldades financeiras no mercado, como empréstimos.

3 - O que a Caixa pode fazer?

Para receber o dinheiro, o banco pode executar as garantias financeiras, como está fazendo. Ou seja, fazer com que se cumpra o contrato assinado entre as partes. Os primeiros passos nesse sentido já foram dados. O caso tramita na 24.ª Vara Cível Federal de São Paulo.

4 - Quais as garantias estabelecidas pelo Corinthians?

Para conseguir o financiamento, o clube colocou como garantia do pagamento de R$ 420 milhões parte do terreno do Parque São Jorge. Juridicamente, essa garantia é usada em última instância. Antes de executá-la, haverá uma longa discussão jurídica entre as partes. 

5 - O clube então pode perder parte do local onde é sua sede, no Parque São Jorge?

Existe esse risco sim, mas a execução de imóveis é um processo longo e até lá pode haver um novo acordo entre as partes. 

6 - O Corinthians deixaria de jogar na arena?

Não, o processo vai correr na Justiça, em caso de não acerto, e, enquanto isso, o clube continuará se valendo do seu estádio para mandar jogos, a não ser que aja uma liminar que determine isso, mas, nesse caso, o clube pode derrubar essas determinações também na Justiça. 

7 - O clube terá de pagar a dívida numa tacada só?

Provavelmente não. O que deve acontecer é clube e Caixa firmarem uma forma para pagar a dívida até 2028, como estava estabelecido. O problema é que o Corinthians não paga a Caixa deste março e isso provocou a ação judicial.

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