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Andrés Sanchez lança livro sobre sua gestão no Corinthians: O Mais Louco do Bando

Dirigente conta como conseguiu contratar Ronaldo, de que forma orquestrou construção do Itaquerão e como montou sua "rede de ouvidos" no clube

Robson Morelli, estadão.com.br

13 Junho 2012 | 18h27

SÃO PAULO -  O diretor de seleções da CBF e ex-presidente do Corinthians, Andrés Sanchez, se prepara para contar tudo o que viveu no comando de um dos clubes mais 'nervosos' do Brasil. Com o título O Mais louco do Bando, Andrés reuniu nas 224 páginas (com mais 28 de fotos) toda a sua trajetória e a do clube também após a queda para a segunda divisão em 2007, quando seu antecessor, Alberto Dualib, ganhava as manchetes do noticíario policial e a instituição se afundava na lama. Foi nessas condições que Andrés assumiu o comando do Parque São Jorge.

"Quer gozar, goza! Com a gente, não tem tempo ruim. Agora, podem escrever: quem riu do Corinthians, tudo bem, mas é melhor se despedir. A partir de hoje, ninguém nunca mais vai gozar do Timão". Foi assim que, um dia depois da maior catástrofe da história do Corinthians, o presidente recém-eleito iniciava o processo de recuperação do Corinthians, que acabava de chegar ao fundo do poço, com a queda para a 2ª divisão. Quatro anos depois, entregava ao seu sucessor um novo clube, turbinado com a chegada de Ronaldo Fenômeno, com a conquista de títulos, mudanças no estatuto, inauguração de um Centro de Treinamento e as primeiras estacas de um estádio em Itaquera. Andrés reergueu o Corinthians à sua maneira.

São essas e muitas outras histórias que ele conta em seu livro de memórias. O Mais Louco do Bando será lançado pela editora G7 Books, dia 19 de junho, a partir das 19h na Livraria Saraiva do Shopping Anália Franco, no Tatuapé. Andrés teve como co-autor seu primo Tadeo Sanchez.

O ex-presidente mergulha nos bastidores dos quatro anos em que dirigiu o Cortinthians, de 2008 a 2011, além de dar um breve resumo de sua vida antes de assumir o cargo mais importante que teve no Parque São Jorge. Andrés era um garoto de pés chato, vindo da Espanha, que sonhava em ser lateral-direito do seu time do coração. Não conseguiu. Trabalhou como feirante e também em uma barraca de frutas no Mercado Municipal de São Paulo. Nunca foi de estudar, mas isso não o impediu de vencer na vida e se tornar um líder esportivo.

"Já fiz muita coisa na vida, mas ser autor de livro é uma que eu não esperava. Ao terminar minha passagem pela presidência do Corinthians e refletir sobre tudo que havia sido feito, achei que o torcedor corintiano gostaria de saber do funcionamento do cube pelo lado de dentro. Nessa época fui procurado tanto pelo primo Tadeo quanto pela editora G7 Books para fazer esse registro em formato de livro. Embarquei nessa jornada e fiquei contente com o resultado. Espero que todo corintiano goste", disse Andrés.

A CONTRATAÇÃO DE RONALDO

O cartola destaca na publicação a negociação que fez para a contratação de Ronaldo e como tudo se acertou em uma conversa no banheiro de um hotel, com a base do contrato escrita em um guardanapo. A negociação para a construção do Estádio do Corinthians também ganha capítulo à parte. Andrés montou sua central de inteligência no Parque São Jorge. Ele mantinha o que chamou de "rede de ouvidos" para obter relatos de qualquer torcedor que tivesse algo para informar sobre tudo o que acontecia em bares, boates e restaurantes da cidade envolvendo seus jogadores. Sem papas na língua, revela o nome de um famoso ídolo de time rival que cantou o Hino do Corinthians num jantar de jogadores da seleção brasileira.

FICHA TÉCNICA

Livro: O Mais Louco do Bando

Autor: Andrés Sanchez

Co-autor: Tadeo Sanchez

Editora: G7 Books

Data de Lançamento: 19.06.12, na Livraria Saraiva do Shopping Anália Franco

Preço: R$29,90

Número de Páginas: 224 + 28 páginas de fotos

EXCLUSIVO  

Das festas de 2009 à água no chope de 2010

O time seguia dando show: nas sete  rodadas

finais da primeira fase do Paulista,  nos mantivemos

invictos. Fomos à semi, no primeiro jogo contra o

São Paulo, e vencemos por 2 a 1 no Pacaembu – gols

de Elias e Christian. No jogo de volta, vencemos por

 2 a 0 no Morumbi, com gols de Douglas e Ronaldo.

Este fez um gol que calou a boca dos

que o chamavam de gordo: pegou a bola na intermediária,

deu aquela arrancada que sempre foi sua marca registrada

e deixou a zaga tricolor a ver navios. O time estava mesmo

embalado, não tinha como colocar freio.

A final foi contra o Santos. O primeiro jogo foi na

Vila Belmiro, 26 de abril – fazia 25 anos que não jogávamos

uma final contra o Peixe. Pouco antes do grande clássico,

o gerente de marketing Caio Campos me explicou que as

negociações de patrocínio com a Hypermarcas avançavam.

Eu tinha chegado até a empresa através do fotógrafo

André Schiliró, autor de um livro com fotos de torcedores

corinthianos célebres. Schiliró me apresentou a João Alves

de Queiroz, o Júnior, principal acionista da empresa, e

eu mandei um desafio. Disse que ia demonstrar o peso de

ser patrocinador de um time como o nosso, sem que ele

tivesse de pagar nada. Ele topou, e assim estampamos a

logomarca da Bozzano, uma das marcas da empresa, nas

mangas da camisa naquele jogo.

Muitos não acreditavam que essa estratégia funcionasse.

E informamos ao estafe de Ronaldo, nosso sócio

em 80% em qualquer ação de marketing, nas mangas ou

calção, que havia a possibilidade de um novo patrocinador.

Já no intervalo recebi uma ligação de Júnior: o patrocínio

estava confirmado. Fiquei feliz, foi como se também tivesse

marcado meu gol. A partir dali, a Hypermarcas se tornou

nosso principal patrocinador – o próprio Ronaldo iniciou

uma boa amizade com Júnior.

Aquele dia todos os ventos sopravam a nosso favor.

Mesmo o Santos estando com seu time completo – até

com o garoto Neymar, que iniciava sua caminhada –, o resultado

final foi 3 a 1. Ronaldo fez dois gols e Chicão fez um

de falta, numa cobrança perfeita. O Fenômeno interceptou

um passe longo de Elias pela ponta direita, deu um drible

desconcertante no zagueiro Triguinho, dando um toque de

calcanhar de direita para si mesmo, deu dois passos e bateu

sutil na bola, de esquerda, de cavadinha – a redonda

encobriu lentamente o goleiro Fábio Costa e foi morrer devagar

no fundo da rede. Que golaço!

O jogo final do Paulistão foi em casa, em 3 de maio.

O Santos marcou primeiro, mas empatamos com um lindo

gol de André Santos. A torcida explodiu: depois de um ano

na série B, já comemorávamos o primeiro título, e invicto.

Foi o reinício em nossa história. As festas começavam já

nos vestiários: era tal a qualidade de jogo da equipe que os

resultados eram duplamente comemorados – tanto pelas

vitórias quanto pelo jogo bonito. Na saída do estádio, houve

um encontro coletivo na casa de Ronaldo, e em seguida

a festa oficial, no Royal Club – as pistas ficaram pequenas,

tal o nível de animação do elenco.

Durante aqueles dias, pela segunda vez juntei para

um almoço a família de Mano Menezes com a minha (Dete,

meus filhos, pais e irmãos), mais os membros da comissão

técnica. Nosso bom relacionamento repercutia no ambiente

de trabalho, sem dúvida. Outra festa de que participei foi o

aniversário de 15 anos de Marina, filha do doutor Grava, que

tem o mesmo nome da minha filha. Festa à fantasia. Foi gente

de todo tipo: piratas, presidiários, pierrôs e colombinas.

Simplesmente optei por me apresentar vestido de jogador do

Corinthians, com o uniforme oficial da cabeça aos pés, pronto

para atravessar o túnel e entrar no campo defendendo o

meu time. No fundo, esse sempre foi o meu grande sonho.

Títulos e festas, porém, não aliviavam o fardo de

ser presidente do clube. Atender a tantos assuntos, sempre

com a demolidora pressão do entorno corinthiano, não

é tarefa aconselhável para alguém com o coração exaltado

como o meu. A vontade de sumir era constante. E não

acontecia só comigo: até pessoas impassíveis, acostumadas

aos duros embates financeiros, também bambeavam.

Uma tarde o Rosenberg, que já havia participado da

negociação da dívida externa brasileira na época do Delfim

e depois se tornou consultor de negócios milionários, também

se encheu e veio pedir demissão, já nem me lembro

mais por que motivo. Tentei convencê-lo que só faltavam

dois anos para o fim do mandato, que seria melhor a equipe

ir junta até o fim. Mas não teve jeito: o homem queria ir

embora. Assim, pedi a ele que redigisse duas cartas de demissão.

Se o cansaço e estresse eram as razões para sua

demissão, para mim seria pior. Assim, melhor sairmos os

dois juntos. Rosenberg me olhou perplexo. Entendeu que

era brincadeira. Tudo ficou muito tenso. Até que o impasse

se resolveu numa ótima gargalhada. Quem blefava ali? Nos

abraçamos, solidários, e nunca mais se falou em demissão.

Alguns dias depois decidimos que era hora de tomar

a iniciativa e avaliar as probabilidades de futura construção

de nossa “casa própria” – é assim que sempre trato

nosso estádio. Em reunião com o arquiteto Aníbal Coutinho,

do escritório Coutinho, Diegues, Cordeiro, surgiu a ideia de

ampliar o Parque São Jorge. O tema ficou em suspenso. E

ali mesmo encarregamos ao arquiteto a elaboração de um

projeto para avaliar tal possibilidade.

Enquanto isso, o time seguia firme. No Brasileirão

colecionávamos jogos médios e ruins; já pela Copa do Brasil

devolvemos a derrota em Curitiba com um 2 a 0 sobre

o Atlético-PR, gols de Ronaldo. Seguiu-se, além de vitória

simples, um empate em dois com o Fluminense – mais um

passinho na Copa. Nas semis, o jogo de ida, contra o Vasco,

no Rio, rendeu a igualdade em um gol; outro empate,

agora em zero, nos permitiu a classificação à final da Copa

do Brasil.

Foi nessa época que recebi a ligação de meu amigo

Alexandrino Alencar, diretor de relações institucionais

da Odebrecht. Ele era um amigão do peito, quase parente.

Nos conhecemos desde os tempos em que ele foi diretor

da empresa OPP, que, após uma fusão, deu origem

à Braskem, de quem a Sol sempre foi uma das principais

clientes na compra de matérias-primas. Alexandrino pediu

que fosse até seu escritorio, no Eldorado Business Tower,

em São Paulo: tinha algo a dizer que podia ser de interesse

para o Corinthians, mas não poderia falar ao telefone. Horas

depois eu já estava no bairro de Pinheiros.

O escritório de Alexandrino ficava no 32º andar da

torre, com vista para a marginal Pinheiros. Rodeado de cristais

transparentes, com a sensação de estar suspenso no

ar, tive uma pequena vertigem, mal olhava para fora. Mas a

vertigem maior estava por vir. Com seu usual tom ameno,

amistoso, Alexandrino contou de uma viagem que tinha feito

a Brasília, acompanhando Emilio Odebrecht, presidente

do conselho de administração da empresa. Na reunião, a

construtora tratava com o presidente Lula de assuntos do

setor petroquímico. À saída, Lula, despedindo-se de Odebrecht

e Alexandrino, mudou de assunto:

– Bem que vocês podiam dar uma mão pra esse

garoto, presidente do Corinthians, ajudando a fazer o estádio,

hein?

Alexandrino devolveu: era meu amigo pessoal de

muitos anos. Odebrecht pegou carona:

– Presidente, pode deixar que vamos tratar esse assunto

com muito carinho. Se for viável, com certeza vamos

ajudar.

Ao terminar sua exposição, Alexandrino me piscou

o olho:

– Tá vendo? Até eu, que sou carioca e torcedor do

Fluminense, quero ver o Corinthians com um estádio. E aí,

como fica? Topa o desafio?

Ainda meio zonzo, eu revelei ao meu amigo que o

clube tinha mais de um projeto em estudo. Quem sabe?

Saí dali com mais pressa do que entrei: o “sonho da casa

própria” até que não parecia tão irreal assim.

Na Copa, afinal, a finalíssima: no primeiro jogo, no

Pacaembu, Jorge Henrique e Ronaldo garantiram a vitória

sobre o excelente time do Internacional, liderado por Nilmar

e D’Alessandro. Após passar pelo freguês São Paulo por

3 a 1 no Paulista, fomos para o segundo jogo, em Porto

Alegre, dia 1º de julho. Foi tenso, teve expulsões dos dois

lados. Mas com o 2 a 2, gols de Jorge Henrique e André

Santos, fomos campeões da Copa do Brasil em pleno Beira-

Rio. Mais um prêmio a um ano de muito esforço e trabalho.

Aquela noite Porto Alegre ficou alvinegra de alegria.

Fomos lá comemorar na churrascaria Na Brasa a conquista,

que nos classificava para a Libertadores de 2010. Rolou

uma cena inusitada. Em seu estado natural, Ronaldo é um

baita gozador. Eu conversava com meu irmão Tadeo quando

Ronaldo passou acompanhado do Caveira. Tadeo pediu

ao Caveira: “Faz uma foto?”. Ronaldo, solícito, se preparou

para a pose conjunta. Em seguida, Tadeo lhe passou

a câmera e fez pose, passando o braço sobre o ombro de

Caveira. Ronaldo, sem perder o rebolado, deu muitas gargalhadas

com todos disparando o clic:

– Um irmão concorre em autógrafos comigo; agora

o outro me faz de fotógrafo?!

Dia seguinte, uma delegação composta pelos atletas

Cristian, Dentinho, Jorge Henrique, Ronaldo, o capitão

William, o técnico Mano Menezes, o diretor Mario Gobbi e

o relações-públicas Isaac Waynszteyn me acompanharam

a Brasília em uma visita institucional a Lula. O presidente

estava emocionado com nossa conquista. Ao final da visita,

Lula me chama a um canto e pergunta para quando a diretoria

poderia fechar uma proposta para o estádio. “Com

Ronaldo estrelando um time de primeira linha para a Libertadores,

o passo seguinte é ter a casa própria!”, sugeriu o

presidente. Comentei que havia vários projetos em estudo;

Lula me aconselhou que não demorasse. Foi assim que tratei

pela primeira vez com o presidente sobre a Arena Corinthians

e me comprometi que assim que tivesse o projeto

mais viável passaria para mostrar a ele.

 

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