Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

Andrés sobre naming rights da Arena Corinthians: 'Se chegarem com uns R$ 200 milhões, eu aceito'

Responsável pelo projeto do estádio corintiano diz que problemas da Odebrecht dificultam as negociações

Entrevista com

Andrés Sanchez, ex-presidente do Corinthians

Daniel Batista, Robson Morelli, Vitor Marques, O Estado de S.Paulo

25 Outubro 2016 | 06h01

Ex-presidente do Corinthians e responsável pelo projeto da Arena em Itaquera, Andrés Sanchez está preocupado com o fato de as coisas relacionadas ao estádio não caminharem como o planejado. Ele não consegue vender os naming rights da casa corintiana e admite que a operação Lava Jato atrapalha o andamento das negociações.

Em entrevista exclusiva ao Estado, Andrés abre o jogo, diz que as suspeitas sobre a arena dificultam transações, responde para quem insinua que o ex-presidente Lula deu o estádio ao clube, revela um pedido do político do ex-mandatário do País, assegura que o pagamento da obra não afetará o futebol do time e cutuca o presidente do Palmeiras, Paulo Nobre, pelo fato de o Allianz Parque ser da WTorre. O dirigente também falou sobre futebol e a política do Corinthians (clique aqui para ler a segunda parte da reportagem)

O plano de negócios da arena Corinthians não funcionou?

O plano foi feito por um especialista, que é o Luis Paulo Rosemberg. O estádio custou R$ 985 milhões e tem mais R$ 40 milhões ou R$ 50 milhões que faltam para terminar a construção. Temos R$ 500 milhões do CID (Certificado de Incentivo ao Desenvolvimento), que foi questionado na Justiça, mas vencemos na primeira instância e a segunda será decidida em breve. Já vendemos uma parte e não conseguimos vender mais por causa dessa briga judicial, pois os interessados pedem desconto de 30% e não aceitamos. Os naming rights estão atrasados por mil razões. Pegando esses valores, você tem 70% do estádio pago. Camarote, a gente imaginava vender mais rápido, mas não esperávamos essa crise no Brasil. 

A operação Lava Jato influencia ou amedronta alguma empresa a dar nome ao estádio?

Incomoda, dificulta, pois todas as obras da construtora estão sendo questionadas. Mas temos uma auditoria para ver a parte financeira e tudo que tem no estádio. Quando acabar, saberemos o que tem de certo e errado, mas é óbvio que a Lava Jato atrapalha, porque ficam falando a toda hora que a arena vai entrar nisso.

E ela vai entrar ‘nisso’? 

O Corinthians não sabe de nada. Mas quero que procurem mesmo, porque se tiver algo errado, o Corinthians é vítima e vai correr atrás de seus direitos. Eu não tenho medo da Lava Jato, porque não roubei nem sei de ninguém que tivesse roubado no estádio.

Alguma empresa chegou a te afirmar que não investe na arena por medo da Lava Jato?

Nenhuma. A preocupação é se a imprensa vai falar o nome (do estádio depois de batizado). Por exemplo, vocês só sabem chamar o estádio do Corinthians de Itaquerão. 

A WTorre teria o mesmo problema no Allianz Parque e conseguiu acertar o nome antes mesmo de ter jogo lá...

E vocês escrevem Allianz Parque? Ninguém fala o nome do estádio (O Estado passou a chamá-lo assim desde a oficialização do nome). Vocês questionam tudo da arena do Corinthians, mas porque não fazem isso com o Allianz? Pega lá os documentos e veja como estão as coisas no lado do Palmeiras.

Quanto você quer hoje para ceder o direito do nome do estádio?

Sei lá, se chegarem com uns R$ 300 milhões ou R$ 200 milhões, eu aceito. O que pagarem a gente fecha (o Corinthians insistiu por muito tempo em R$ 400 milhões). 

O senhor se arrepende de falar a toda hora que os naming rights estão perto e nunca fecham?

Você quer que eu fale o quê? Se eu comentar que não vai fechar, tenho de parar.

Esse discurso de falar que está quase certo e não fechar acaba sendo negativo para o clube?

Não sei. Vocês me perguntam, falo que vai fechar logo, passam dois meses, não fecha e me chamam de mentiroso. Não depende de mim. Acha que não quero fechar isso logo (são dois anos de espera)? Mas é um projeto novo, é mais complicado. Um hora vai fechar. Podem ficar tranquilo.

O que ocorreu na negociação com a Apollo Sports?

Ela ia cuidar da parte financeira da arena e do clube, não teria nada a ver com o nome do estádio. O problema é que deram como garantia um terreno no litoral (em Itanhaém) e outro no interior do Estado. Na crise que está o Brasil, eu vou vender terreno? Por isso a negociação não evoluiu.

O Corinthians contratou uma auditoria que está emperrada porque a Odebrecht não libera os documentos. Sabe o motivo?

Você acha que a vida dela está fácil? Deve estar um inferno lá dentro. A empresa não têm como esconder se tiver algo errado. De um jeito ou outro, o clube vai saber. A demora, nesse caso, faz parte.

Temos vários casos de placas de mármore caindo do teto e outros problemas do gênero. O estádio não foi construído direito?

Você já comprou um apartamento novo? Tem entupimento, não funciona uma torneira. Isso é normal. O estádio tem dois anos de inauguração só. 

Mas entupimento de um ralo ou torneira pingando é diferente de uma placa de mármore cair na cabeça das pessoas e poder matar alguém... 

Por isso está sendo feita a auditoria. O Corinthians não deu o ‘aceito’ do estádio ainda e tudo está sendo levantado. Os caras fazem ponte e cai, pô. Isso acontece. Pode ficar tranquilo que não vai cair placa na sua cabeça. Não sei por que vocês falam tanto da arena do Corinthians e não falam da WTorre. 

Talvez seja porque o estádio do Corinthians teve dinheiro público e custou mais caro?

E do Palmeiras, não? Pegou dinheiro do Banco do Brasil e da Caixa. O Corinthians pega na Caixa e é dinheiro público. O Palmeiras pega no Banco do Brasil e é dinheiro privado? Se você pega um financiamento para comprar uma casa, está pegando dinheiro público? 

A arena teve incentivo fiscal. Isso não é dinheiro público?

"Tá" bom, mas qual estádio do País não tem incentivo fiscal? O Corinthians foi beneficiado, assim como várias empresas e shoppings. Vocês falavam que eu tinha ganho o estádio do Lula. Agora falam que não vamos pagar. Tem de decidir...

Se você não fosse amigo do Lula, o estádio sairia do papel?

(Risos) É, o Lula me ajudou muito, claro. O Lula deu um estádio pra gente, mas temos de pagar R$ 900 milhões por esse presente. Que amigo, né? A única coisa que o Lula se meteu e falou foi: ‘Que papo é esse de Pacaembu? Tem de fazer o estádio em Itaquera, pois ajudaria a desenvolver a Zona Leste’ de São Paulo. Só isso. 

Não ter a renda da bilheteria pelos próximos dez ou 15 anos, prazo em que se espera ter pago a arena, não pode atrapalhar as finanças do clube?

Outra bobagem. Estádio é uma coisa e futebol é outra. Se o clube não contrata, não é por causa do estádio. O que o Corinthians perdeu de bilheteria? No Pacaembu, o ano que mais deu renda foi R$ 10 milhões. A média era entre R$ 4 milhões e R$ 5 milhões. Falam: ‘Ah, está perdendo R$ 100 milhões de renda’. Só que esquecem que antes não existiam esses R$ 100 milhões. E tem outra coisa: não está perdendo dinheiro, está pagando o estádio. Nosso! Pede para o Paulo Nobre entrar no estádio do Palmeiras. Ele ficará meia hora na porta e não vão deixá-lo entrar. Ele não manda nada lá. Na nossa arena, a gente entra e sai quando bem quiser.

Então, dirigente não pode falar que não contrata por causa da dívida do estádio?

Se algum dirigente falar isso, é mentiroso. Pode falar que o Andrés disse que ele é mentiroso. Se faltar dinheiro para pagar o estádio, a gente refinancia, mas não se pega dinheiro do clube para isso. 

A arena foi um bom negócio?

Sim, mas veremos isso no futuro. Está com dificuldade agora, mas daqui a uns três ou quatro anos vai ser o melhor negócio da história do Corinthians.

O senhor é deputado federal pelo PT. Pensa em reeleição ou um cargo maior, como prefeito ou governador?

Você está de brincadeira. Se querem renovação, não vai ser comigo. Tenho 52 anos e minha pretensão é de -10. Tentar reeleição, não sei. Faltam dois anos. A burocracia desse País é triste. É difícil fazer as coisas

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