Facundo Arrizabalaga/EFE
Facundo Arrizabalaga/EFE

Anfitriã, Rússia ainda vive clima tímido antes da bola rolar na Copa

Fraco desempenho da seleção local ajuda a explicar desinteresse da população

Gonçalo Junior, enviado especial / Moscou, O Estado de S.Paulo

14 Junho 2018 | 00h00

Eliminada na primeira fase nos três últimos Mundiais que disputou (1994, 2002 e 2014), a Rússia abre a 21.ª edição da Copa do Mundo diante da Arábia Saudita, nesta quinta-feira, ao meio-dia, como coadjuvante, longe de ser favorita. Esses fiascos ajudam a explicar a chegada tardia do clima de festa. Mas não é tudo. Foi só no início desta semana que os torcedores russos começaram a aparecer na Praça Vermelha, arquibancada urbana ocupada pelas torcidas de vários países nas vésperas do Mundial. Pouco afeitos à paixão do futebol, os russos foram puxados pelas mãos de uruguaios, iranianos e argentinos quase literalmente para a ciranda da bola. Essa será uma Copa dos estrangeiros.

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Distante do solene discurso do presidente Vladimir Putin, que afirmou nesta quarta-feira no Congresso da Fifa que “o sonho da Copa está se tornando realidade”, a vida miúda dos russos comuns vai seguir normalmente. Não há previsão de alteração no horário dos bancos, que funcionam das 10h às 20h. As universidades têm uma espécie de semana do provão. O brasileiro Guilherme Gerotto da Costa, estudante de Administração na Escola Superior de Economia, já se acostumou. “As provas não param por causa da Copa”, explica. As empresas privadas não pretendem liberar seus funcionários mais cedo – o jogo na Rússia será às 18 horas.

O Brasil também vivia certo desinteresse com a Copa quatro anos atrás, mas o contexto era outro. O Mundial era contestado por vários motivos, entre eles o estouro de orçamento: foram R$ 26,5 bilhões de acordo com os números oficiais, mas parte das obras nem sequer ficou pronta. Aquele clima de “não vai ter Copa” no Brasil se transformou em um intrigante “cadê a Copa?” na Rússia. Faltava uma semana e parecia que faltava um mês. A apresentação da taça, no dia 3, concorreu com uma feira de livros tradicional em Moscou. Concorreu e perdeu. “O número de pessoas foi tão pequeno para ver a taça que eu consegui ficar colado no palco, perto da imprensa”, comemora o engenheiro mecânico Victor Gers.

Nos últimos dias, a temperatura subiu alguns graus, acompanhando os termômetros do esquálido verão. Meio sem jeito, meia dúzia de gatos-pingados fica repetindo “Rússia, Rússia”. Não há um hino provocativo como “Brasil decime qué se siente”, dos argentinos. Ou a criatividade dos colombianos, que levaram uma réplica do troféu às ruas para tirar selfies. “A Rússia é aberta, parecida com o Brasil, mas não é fanática por futebol”, explica a professora Elena Vassina, especialista em Literatura Russa.

 

Uma coisa ajudou na manifestação recente do espírito de Copa: o feriado do Dia da Rússia (12 de junho). Inspirados pelo patriotismo – nisso, eles são craques – , os russos desenrolaram as bandeiras. “Seremos campeões no futebol quando Brasil for campeão de hóquei”, brinca o mecânico Alexei que, como a maioria dos russos, evita revelar o sobrenome.

 

 

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