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Ano Novo

É possível existirem por aí exércitos de jovens que podiam ter sido, mas não foram

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

05 de janeiro de 2020 | 04h30

Começar de novo, uma segunda chance quem sabe? Ou uma última. De qualquer forma quando um novo ano começa é impossível não pensar neste recomeço, artificial, automático, repetitivo, monótono, feito de fórmulas gastas que vamos ajudando a difundir, como se o começo de cada ano não fosse apenas um dia a mais nas nossas vidas e os votos tivessem algum valor e principalmente contivessem alguma verdade, não um artifício para nos inculcar um pouco de alegria forçada num mundo e num país que teimam em ser exatamente o contrário dessas expectativas. Mas, de qualquer forma, por cansaço ou por negligência aderimos e desejamos bom ano a todos. Eu, particularmente desejo um bom ano aos garotos que começam essa competição chamada de Copa São Paulo, destinada a jogadores muito jovens que apenas se iniciam. O triste é que muitos deles não estão iniciando, mas terminando.

Para muitos essa Copinha é a derradeira oportunidade. No limite da idade, já tratados quase como veteranos, eles sofrem a angústia de uma última possibilidade. Todos sabemos que ao fim desse torneio a maioria esmagadora dos jogadores vai retornar ao seu cotidiano quase dramático. Vão retornar, com o sonho desfeito dessa Copa terminada, a vagar pelos campos do Brasil esperando alguma coisa que suspeitam que passou. O que foi, poderia ter sido outra coisa, mas não foi. Como é possível desejar um bom ano a esses garotos cujo ano termina dentro de poucas semanas, se muito? A exposição pela televisão não os salvou, o empresário ideal que esperavam os notassem não notou, a ilusão de um olheiro de clube no exterior também não passou de longínqua hipótese.

No fim sobrou o Brasil. E lá vão eles à cata de alguma coisa que os alimente pelos longos onze meses restantes do ano que agora se inicia. Esse torneio não revela mais ninguém, não serve mais ao futebol, não cumpre promessa alguma. Talvez um ou outro jogador já de grande clube ainda apareça, sempre há. Mas não são muitos. Nesse futebol hierarquizado, onde é impossível ser alegre e se divertir, onde os treinadores passaram de “professores” a “mister”, os garotos não têm mais vez. Não mostram mais futebol, mas tentam ganhar de qualquer maneira para se manterem um pouco mais vistos pelas câmeras. Como em praticamente todos os setores dessa nossa sociedade o destino está traçado para quase todos os garotos desde o dia em que nasceram.

A coisa mais comum que tenho ouvido são declarações de jogadores importantes que, em entrevistas, frequentemente se referem a um amigo ou um irmão que, esses sim eram craques, mas algo lhes truncou a carreira e ficaram pelo caminho. É um lugar comum o craque lembrar sempre um outro, mais craque ainda, mas que não aconteceu. Talvez as lembranças dos craques fracassados esconda apenas um sentimento de culpa. Talvez os colegas, amigos e irmãos não fossem tão bons assim, mas evocá-los no momento em que estão completamente esquecidos é um agradecimento, tardio, mas consolador. É possível existirem por aí exércitos de jovens que podiam ter sido, mas não foram. 

É a esses os futuros esquecidos que me dirijo, desejando-lhes um bom ano novo. Sem muita convicção sobre o que lhes vai acontecer, mas com sinceridade. A competição e a exclusão massacrantes estão começando cada vez mais cedo. Logo teremos fracassados de 12 anos, frustrados antes da adolescência , marcados antes de terminar a infância. Tenho, porém a esperança de que alguma alegria pode surgir disso tudo. Quem sabe o futebol redentor que o Flamengo nos apresentou este ano não tenha contaminado os responsáveis pelas categorias de base? Os fatos costumam desmentir nossas previsões mais seguras.

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