Wilton Junior/Estadão
Wilton Junior/Estadão

Ansiedade ou descontrole? Desequilíbrio depois do gol suíço preocupa

Comportamento da seleção brasileira após tomar empate levanta dúvidas sobre o preparo psicológico dos atletas

Almir Leite e Ciro Campos, enviados especiais / Sochi, O Estado de S.Paulo

19 Junho 2018 | 05h00

A estreia da seleção brasileira na Copa do Mundo ficou marcada por um aspecto preocupante: o desequilíbrio dos jogadores. Depois do gol da Suíça, o que se viu foi um time excessivamente ansioso, apressado, buscando voltar a ter a vantagem no placar a todo custo. O comportamento teve como consequência o temor de que os atletas não estejam fortalecidos emocionalmente. Não foi por isso que o Brasil apenas empatou com a Suíça. O time jogou mal. Neymar não funcionou e a marcação errou no gol do rival.

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Na Copa de 2014, um dos fatores para o fracasso do Brasil foi o descontrole emocional dos atletas. Mais uma vez esse descontrole não pode explicar a surra de 7 a 1 para a Alemanha, Naquele dia no Mineirão, o Brasil também jogou muito mal.

Atuando em casa quatro anos atrás, a pressão pelo título foi imensa e isso, somado a circunstâncias como a má preparação, acabou por minar psicologicamente a equipe de Felipão.

Quatro anos se passaram, o grupo foi renovado e a comissão técnica pensa de maneira diferente da anterior - Tite, por exemplo, abriu mão da presença de um psicólogo na comissão. Porém, o comportamento demonstrado no segundo tempo contra os suíços na Rússia deixou no ar a impressão de que esse fantasma não foi totalmente exorcizado. Mesmo porque dos jogadores atuais se cobra a conquista da taça como uma resposta ao fracasso do 7 a 1.

O psicólogo do esporte João Ricardo Cozac, presidente da Associação Paulista de Psicologia do Esporte, considera que há risco, sim, de o grupo repetir o desequilíbrio que marcou o elenco de 2014. E cita como um dos motivos não haver um trabalho de longo prazo nessa área na seleção - no próprio futebol brasileiro, diz, menos de 30% dos clubes profissionais contam com esse recurso.

 

Há outros três fatores que podem levar o time de Tite a se abalar. “Não existe um líder efetivo dentro do elenco, e isso levou o treinador a estabelecer o rodízio de capitães. Também há a falta de experiência do próprio técnico - a primeira grande competição internacional que ele disputa é a Copa. Além disso, essa seleção não foi testada em situação de adversidade”, afirmou Cozac ao Estado.

Esses fatores, de acordo com o psicólogo, “sugerem” que a seleção brasileira possa ser derrotada pelo descontrole emocional. “Contra a Suíça, o time levou um gol que era o do empate e naufragou emocionalmente.”

Para o psicólogo, a falta de um capitão fixo é ruim, pois os grupos precisam de uma “referência”. Cozac entende que Tite não encontrou um grande líder. Ao optar pelo revezamento, busca “dividir responsabilidades”, mas não vê isso como ideal.

Ele diz compreender Tite por não ter buscado ajuda de um psicólogo, alegando que o tempo para trabalhar é curto na Copa. Mas alerta que a opção de levar familiares e amigos dos atletas para perto deles não serve para compensar a falta do trabalho de um profissional da área.

“Não levar psicólogo do esporte, optando por levar a família, não é a mesma coisa. Família é importante e a proximidade é algo bom, mas não substitui o trabalho científico”.

Tite e os atletas reconhecem que o aspecto emocional pesou na estreia. “A ansiedade bateu forte”, admitiu o treinador. “Sabemos da responsabilidade que carregamos”, acrescentou Gabriel Jesus.

CONFIANÇA

Na seleção, todos atribuem a dificuldade em manter a concentração e o foco à estreia e ao excesso de confiança com que a equipe chegou para a disputa. “A gente criou uma expectativa muito grande nas pessoas, e em nós mesmos, sobre jogar bem, sobre ganhar”, disse o zagueiro Miranda.

O problema é que o Brasil, mesmo sem empolgar, fazia partida correta e tinha o domínio do jogo até a Suíça empatar. A partir daquele momento, a precipitação ao buscar as jogadas ficou clara. Mesmo considerando-se que os europeus estavam bem armados, ficou a impressão de que o time não estava preparado para agir em situação adversa. “Temos de ter calma. Todo mundo espera o Brasil vencendo, mas precisa analisar o jogo. Eles chegaram uma vez e marcaram”, diz Casemiro.

Os jogadores evitam fazer ligação com 2014 e apostam que, já a partir do jogo de sexta, contra a Costa Rica, em São Petersburgo, a força mental apresentada em momentos de dificuldade nas Eliminatórias e nos últimos jogos que precederam o Mundial estará de volta. 

“Por ser uma estreia, tinha todo um nervosismo”, disse o goleiro Alisson sobre o confronto com a Suíça. “Quem sabe agora vamos poder encarar as coisas com mais naturalidade na disputa. A equipe sabe o que rendeu na estreia e o que poderia ter feito melhor.”

Há jogadores que consideram até ser perda de tempo questionar o equilíbrio psicológico da equipe. “Temos de nos manter mentalmente fortes”, afirma Willian, um dos remanescentes de 2014. “A gente sabe que algumas seleções grandes iniciaram perdendo. E nosso pensamento é jogo a jogo”, indica Miranda. / COLABOROU LEANDRO SILVEIRA

 

 

 

 

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