Eduardo Nicolau/Estadão
Eduardo Nicolau/Estadão

Antes

Pode dar empate, pode dar vitória do Brasil, o que será rotineiro, ou podem atirar no papa

Luis Fernando Verissimo, colunista

27 Junho 2018 | 04h00

Dizem que, no jornalismo esportivo antigo, era comum comentar um jogo antes do jogo em três versões: por que ganhamos, por que perdemos e por que empatamos. Não havia outro jeito de cobrir um jogo ainda não acontecido, já que videntes não eram de confiança e bolas de cristal não funcionavam. Ficou famoso o caso do repórter que sempre cobria a saída do papa entre os fiéis no Vaticano às quartas feiras e, no dia em que resolveu folgar, escreveu sua matéria um dia antes, mandou-a para o jornal - e foi para a praia. Afinal, nada de diferente acontecia no Vaticano às quartas. Só que aquela foi a quarta em que atiraram no papa.

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Tive uma experiência parecida. Fomos passar uma semana em Nova York. Chegamos no dia dez de setembro de 2001. Para poder viajar, eu tinha deixado crônicas prontas, sobre nada mais importante que o passeio rotineiro de um papa entre os fiéis. No dia 11/9, aviões derrubaram as torres do World Trade Center. Vimos o choque do segundo avião ao vivo, na TV do hotel. Tentei entrar em contato com os jornais que publicavam minhas crônicas, mas tamanha era a confusão que não consegui. Enquanto o mundo se espantava com o atentado, minhas crônicas continuavam a tratar de banalidades. Até hoje, deve ter gente que pensa que enlouqueci. Ou que, em vez de ser testemunha ocular da História, eu me revelara um alienado incorrigível.

Tudo isso para dizer que não sei como será o Brasil x Servia nesta quarta. Pode dar empate, pode dar vitória do Brasil, o que será rotineiro, ou podem atirar no papa.

O jornal inglês Guardian também pediu ao seu pessoal esportivo que se manifestasse antes do fato, prevendo o que veríamos na Copa. Uma das escolhas feitas pelos ingleses era quais seriam os destaques individuais dos jogos. Apenas como curiosidade, para cotejar com o que realmente aconteceu, os escolhidos foram: Lozano, do México. Umtiti, da França. Dembélé, França. Mbappé, França. Milinkovic-Savic, Sérvia. Zielinski, Polônia. Linetty, Polônia. O mais votado foi Mbappé.

*LUIS FERNANDO VERISSIMO É ESCRITOR E COLUNISTA DO ‘ESTADÃO’

 

 

 

 

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