Antes de renúncia, Teixeira armou terreno para Del Nero

A ata da assembleia geral que antecedeu à renúncia do presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), Ricardo Teixeira, revisou vários pontos do estatuto da entidade, já explorados ao longo dos últimos meses. O documento, porém, permanecia inacessível. Jamais constou do site da CBF, nem sequer chegou às mãos de vários presidentes de federações estaduais, os que o avalizaram. No mês passado, o deputado federal Romário (PSB-RJ) reclamou publicamente que o estatuto em vigor da CBF "era um mistério" e disse ainda que não conhecia ninguém que admitisse ter uma cópia do documento.

SILVIO BARSETTI, Agência Estado

18 de abril de 2013 | 09h05

Nesta quarta-feira, a reportagem obteve finalmente a versão atual do estatuto da CBF, com as mudanças efetuadas e coordenadas por Ricardo Teixeira um mês antes de deixar o cargo e o País - foi morar em Miami. Ele promoveu mudanças com a colaboração direta do departamento jurídico da CBF e deixou tudo preparado para que José Maria Marin o substituísse e depois abrisse a vaga para Marco Polo Del Nero.

Ricardo Teixeira já tinha decidido renunciar à presidência, por causa de várias acusações de escândalos de corrupção, e convocou a assembleia sem detalhar o que pretendia fazer para as federações - apenas o da federação paulista, Del Nero, sabia do teor do encontro, além de José Maria Marin e no máximo dois dos assessores da dupla.

A alteração mais polêmica é a que estendeu o prazo para a eleição à presidência da entidade de 6 para 12 meses, antes do término do mandato em curso. Ou seja, Ricardo Teixeira definiu o próximo pleito para abril de 2014 a fim de evitar que um eventual fracasso da seleção na Copa do Mundo, em junho e julho, pudesse dar impulso a uma candidatura de oposição. Como o mandato de Marin termina em abril de 2015, a eleição estava prevista para outubro de 2014. Esses dados estão agora no Artigo 22, parágrafo 4.º.

Outro mudança importante, e só revelada agora, também se refere ao Artigo 22 do estatuto. No parágrafo 7.º, o quorum mínimo para a destituição do presidente ou de vices da entidade sobe para 3/4 da "totalidade das entidades filiadas" presentes à assembleia convocada com esse propósito - pelo menos 20 federações. Na versão anterior, havia a possibilidade de apenas nove presidentes de federações se juntarem para afastar o presidente.

PODER PAULISTA - Desde que assumiu a CBF, em 1989, Ricardo Teixeira jamais teve entre os vices da entidade algum presidente de federação estadual. Isso era vetado pelo estatuto. Mas o último documento elaborado na CBF, com a ingerência de Teixeira, modificou vários artigos para dar nova redação ao Artigo 37, no qual se estabelece que "se ocorrer vacância em qualquer cargo de vice-presidente, em qualquer momento do mandato, haverá eleição para o seu preenchimento".

Como José Maria Marin assumiu o posto de Ricardo Teixeira por ser o vice-presidente mais velho da CBF, a vice-presidência da Região Sudeste ficou vaga. Houve então eleição e Marco Polo Del Nero, candidato único, ganhou mais poder.

Pelo estatuto anterior, o dirigente não poderia acumular a presidência da Federação Paulista de Futebol com a vice da CBF. Por isso, alterou-se o Artigo 100, o qual passou a estabelecer que o acúmulo de funções poderia se dar por até 180 dias. Basta uma licença em um dos cargos por um ou dois dias, a cada seis meses, que Marco Polo Del Nero continuará com assento nos dois gabinetes mais poderosos do futebol brasileiro.

A ata da assembleia que parece ter definido os rumos da CBF nos próximos anos foi realizada 13 dias antes da renúncia de Ricardo Teixeira. Presidida pelo presidente da Federação de Futebol do Rio de Janeiro (Ferj), Rubens Lopes, a assembleia teve dois delegados, também dirigentes de federações, Mauro Carmélio, do Ceará, e André Pitta, de Goiás. As mudanças somam 11 páginas e levam a rubrica de representantes das 27 federações estaduais, que têm direito a voto na CBF.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.