Flavio Lo Scalzo/Reuters
Flavio Lo Scalzo/Reuters

Antes divididos, clubes italianos passam a cooperar em meio à pandemia

Crise afetou todas as atividades relacionadas aos jogos válidos pela competição, como merchandising e patrocínios

Rory Smith, The New York Times

30 de junho de 2020 | 17h17

Paolo Dal Pino percebeu logo de cara que a lista de nomes ilustres em seu currículo brilhante, os longos anos vividos nas salas de conselho de algumas das maiores corporações italianas – nada disso o preparava para administrar a principal liga de futebol do país.

Afinal, o Campeonato Italiano não funcionava como a Pirelli, gigante da indústria, nem como a provedora de telecomunicações Wind, nem mesmo como a telefônica Telit, empresas onde Dal Pino havia trabalhado antes de aceitar assumir o comando da principal divisão da Itália. A liga não tinha hierarquia definida, nem um senso de propósito. O que tinha eram 20 presidentes de 20 clubes, todos brigando entre si.

Era um pátio de escola, uma assembleia em discussão, tomada por políticas internas e vulnerável a conflitos intestinos. Uma parte, que contava com muitos dos clubes médios da liga, se reunia em torno de Claudio Lotito, presidente da Lazio. Outra se agrupava em torno da Juventus, sua fortaleza. O crescente número de proprietários americanos – Roma, Milan e Fiorentina – tinha um conjunto diferente de ideias.

Então, eram remotas as chances de a liga formular uma resposta unificada à crise do coronavírus – encontrando um caminho para atravessar a paralisação forçada que satisfizesse todas as agendas concorrentes. Era de se esperar que a liga quebrasse de vez. Mas, em vez disso, Dal Pino acha que a pandemia talvez a tenha curado.

“Temos mais unidade do que antes”, disse ele. Uma explicação um tanto inesperada para o presidente de uma competição de futebol: os clubes do Campeonato Italiano agora poderiam trabalhar em conjunto porque não havia jogos. Sem ação dentro de campo, disse Dal Pino, “deixamos de lado muitas questões”.

Dal Pino chegou ao cargo em janeiro, o quarto homem a assumir a presidência da liga italiana em quatro anos. Se, olhando do lado de fora, o trabalho parecia uma sinecura – apenas alguém para sorrir e distribuir as medalhas e apertos de mão no final da temporada – e uma sinecura incerta, de curta duração, do lado de dentro ele quis enxergá-la de um jeito um pouco diferente.

Em seu primeiro comunicado oficial depois de assumir o cargo, ele pediu aos donos dos clubes da liga que “se unissem” para recolocar o Campeonato Italiano na posição que ocupara na década de 1990, como “a mais bela liga do mundo”.

Mas como fazê-lo? Eis uma pergunta que, é claro, tem perturbado o futebol italiano desde que começou seu declínio, no início dos anos 2000. As Sette Sorelle, as lendárias Sete Irmãs que fizeram do Campeonato Italiano a liga mais glamourosa da Europa, já não atraem os melhores jogadores do planeta. A receita de transmissão da liga não se compara às dos campeonatos inglês e alemão. Seus estádios estão em ruínas, antiquados.

A chegada de Dal Pino também não ocorreu num momento propício. Uma série de episódios racistas nos estádios e uma campanha antirracismo mal pensada no final do ano passado deixaram a reputação do Campeonato Italiano em frangalhos. A liga parecia incapaz – ou, talvez, até mesmo pouco disposta – a combater o problema. Alguns clubes pareciam estar à mercê de seus torcedores de extrema-direita.

A questão se tornou tão endêmica que vários jogadores negros recusaram transferências para o futebol italiano, temendo sofrer episódios racistas. Depois que Romelu Lukaku, atacante da Inter de Milão, foi vítima de racismo durante uma partida, Demba Ba, ex-companheiro de Lukaku no Chelsea, instou os jogadores negros a sair do Campeonato Italiano.

Mas havia também problemas econômicos. Os clubes que queriam construir novos estádios invariavelmente descobriam que a construção os obrigava a mergulhar numa burocracia kafkiana. A beIN Sports, com sede no Catar, um dos mais importantes detentores de direitos da liga, ficou furiosa com a decisão de sediar a Supercopa da Itália na Arábia Saudita e ameaçou encerrar seu contrato de transmissão.

Ainda assim, Dal Pino viu sinais promissores. Ele citou as chegadas de Lukaku e Cristiano Ronaldo como prova de que os clubes italianos ainda podiam atrair grandes talentos e destacou que, antes da pandemia, o futebol italiano estava quebrando recordes de público, sugerindo que os torcedores ainda tinham “fome” de assistir aos jogos.

Mas o Campeonato Italiano ainda parecia muito distante do que era. A pandemia desferiu um golpe paralisante, “que devastou o setor”, como Dal Pino disse, não apenas em termos de venda de ingressos, mas em “todas as atividades relacionadas aos jogos, como merchandising e patrocínios”. “Abandonar a temporada teria afetado gravemente o valor dos clubes e dos jogadores”, disse ele.

Este risco foi evitado – pelo menos por enquanto. Dal Pino até anda esperançoso de que alguns torcedores possam começar a retornar aos estádios italianos a partir de julho. “Precisamos ser prudentes e pacientes, mas estamos confiantes de que, se a situação da saúde continuar melhorando, o retorno gradual dos torcedores aos estádios será uma realidade, talvez parcialmente no próximo mês”, disse ele.

Sua visão para a liga, no entanto, não se limita a um retorno ao normal, à realidade de antes. Seu plano, ao contrário, põe o foco na mudança. “Qualquer situação de crise representa uma oportunidade de melhoria para nós mesmos, em todos os sentidos”, disse Dal Pino. “Precisamos aproveitar as oportunidades”.

Estas oportunidades abrangem toda uma gama de ideias, desde a “redução da burocracia” para os clubes que querem construir estádios novos até, quem sabe, a venda de uma participação na liga a um fundo privado – diz-se que a CVC Capital Partners e a Bain Capital fizeram ofertas, mas Dal Pino não quis comentar – e uma mudança na maneira como o Campeonato Italiano vende seus direitos de transmissão.

A briga com a beIN Sports, por exemplo, resultou no cancelamento da exibição dos jogos do Campeonato Italiano em dezenas de países, o que convenceu muitas pessoas do futebol italiano de que a liga precisa ter a palavra final sobre seus acordos de transmissão, em vez de vendê-los por meio de terceiros, como acontece atualmente. Dal Pino está interessado numa plataforma de streaming e reconheceu a necessidade de “controlar nosso destino a longo prazo”.

Mas, para que essas coisas saiam do papel, para que Dal Pino transforme sua visão para o futebol italiano em realidade, ele precisará que os presidentes de suas 20 equipes – o balaio de gatos que deve administrar – se lembrem de que podem trabalhar juntos, mantendo a harmonia que conseguiram encontrar em silêncio, mesmo agora que o barulho recomeçou. / Tradução de Pedro Ramos

 

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