Arnd Wiegmann/Reuters
Arnd Wiegmann/Reuters

Anúncio de reformas da Fifa é abafado por escândalo de corrupção

Cartolas da entidade se irritam com questões sobre corrupção

Jamil Chade, correspondente em Zurique, O Estado de S. Paulo

03 de dezembro de 2015 | 13h53

Era para ser o momento de inauguração de uma nova Fifa, com regras e transparência. Mas a coletiva de imprensa para anunciar as mudanças na entidade se transformou nesta quinta-feira em um tiroteio entre a imprensa e os cartolas, visivelmente constrangidos.

Apesar das prisões contra os dirigentes do futebol realizadas na manhã desta quinta-feira, a Fifa foi adiante com seus planos de reformas, as maiores em 111 anos de história. Um acordo entre dirigentes permitiu a criação de uma nova constituição para a Fifa que, abalada por prisões e fuga dos patrocinadores, registrou o primeiro déficit em 14 anos e com um buraco em 2015 de US$ 103 milhões.  

O discurso era de otimismo. "A situação faz a reforma ser ainda mais urgente", disse Issa Hayatou, presidente interino da Fifa. "Esse é o início de uma mudança de cultura na Fifa", insistiu.

Mas quando as perguntas começaram, o tom mudou de forma radical. O africano se recusou a aceitar que a entidade seja corrupta, ainda que 17 dos 24 membros do Comitê Executivo da Fifa tenham sido afastados, presos ou suspensos em 5 anos. "A Fifa não é corrupta. São indivíduos", insistiu.

Quando foi questionado sobre o fato de ter sido punido há poucos anos pelo COI por corrupção, Hayatou apenas respondeu: "Nem eu sei por que fui punido". O africano chegou a evocar racismo e garantiu que "jamais" pegou dinheiro. "Se eu fosse corrupto não estaria aqui", atacou.

Hayatou, que está na Fifa há mais de 20 anos e nesta quinta-feira parecia dormir em alguns trechos da apresentação da reforma da entidade, também se mostrou irritado quando foi questionado sobre como ele poderia mudar a Fifa, quando esteve sempre ao lado das pessoas hoje detidas. "Isso não tem nada a ver. Não existem provas", insistiu.

François Carrard, presidente do Comitê de Reformas, também insistia em um discurso de que esse era "o começo de um processo". "Todos sabemos que a Fifa está passando por uma profunda crise", disse.

Mas quando foi questionado pelo Estado quanto ele havia recebido para realizar seu trabalho de liderar a reforma, ele se recusou a dar uma resposta: "Ganho o preço de tabela de um advogado em Lausanne por hora". Quando a reportagem o questionou quantas horas havia trabalhado na reforma, ele respondeu de forma dura. "Esse não é problema teu. É meu", disse. 

Markus Kattner, secretário-geral da Fifa, também se recusou a dar respostas sobre sua situação. Sua assinatura aparece em diversos documentos usados para abrir processos contra Joseph Blatter e Michel Platini. Ao ser questionado sobre isso, se negou a dar uma resposta. "Não posso responder", disse. 

MEDIDAS

Ignorando as críticas e na esperança de reverter a crise financeira e restaurar a imagem da entidade, os executivos aprovaram uma reforma da organização. Pelo menos três multinacionais estariam dispostas a assinar um acordo com a Fifa. Mas querem garantias de que as reformas vão ocorrer. 

A refundação da Fifa não veio sem um conflito interno. A proposta original, de Domenico Scala, tentou ser aguada por dirigentes asiáticos e por aliados de Blatter. A ideia de colocar limite a mandatos havia sido enterrada. Mas pressionados pelos cartolas dos EUA e apoiados pela Conmebol, a reforma conseguiu avançar. 

"Sou contra. Mas se isso é o que precisa para restabelecer a imagem da Fifa, vou aceitar", prometeu Ahmed Al Sabah, membro do Comitê Executivo e um dos homens mais fortes hoje na entidade. "A prioridade é a imagem da Fifa".

Enquanto os americanos sabiam que apenas uma reforma profunda poderia salvar a imagem do futebol nos EUA, na América do Sul a direção da Conmebol precisava dar um sinal de que a gestão precisaria mudar. Pelo menos sete dirigentes da região foram presos ou afastados, enquanto Marco Polo Del Nero não pode deixar o País.  

A meta era a de adotar medidas que estão sendo chamadas de "Anti-Havelange". Ou seja, que desmontariam a estrutura de poder montada por anos pelo brasileiro, sem limites de mandatos e nem transparência. Os advogados estabeleceram uma nova constituição, justamente para afastar a entidade que vai permanecer no comando do futebol daquela estrutura que hoje passou a ser alvo de investigações. 

O pacote adota ainda um limite de três mandatos para presidentes e executivos, o que significa que um dirigente pode ficar no máximo doze anos no poder. Na avaliação dos encarregados pelas reformas, ao limitar os mandatos, a Fifa estaria impedindo a formação de "clubes" dentro da entidade que controlariam decisões importantes. 

Mas não foi estabelecido um limite de idades. "Isso seria arbitrário", insistiu Carrard. O Comitê Executivo ainda será transformado em Conselho da Fifa e decisões técnicas sobre contratos passarão a ser examinadas por um grupo de especialista, justamente para evitar que influências políticas determinem a escolha de parceiros comerciais.  O grupo passará a ser formado por 36 cartolas. 

Outra decisão será a de publicar o salário do presidente e dos diretores. A meta é a de revelar o que de fato a Fifa paga a seus dirigentes e quanto vai ao futebol. 

Um grupo independente ainda vai fazer um "exame de integridade" em cada um dos novos membros do Conselho da Fifa para garantir que nenhum membro esteja sob suspeita m seus respectivos países. 

Depois de aprovada nesta quinta-feira, a reforma será colocada à votação para as 209 federações nacionais, em fevereiro. Mas não deverá haver mudanças. "Para que haja uma reforma profunda, a crise também precisa ser profunda", disse Domenico Scala, o homem que desenhou a nova entidade. 

MUNDIAL

Pelo pacote, a Copa do Mundo ainda pode passar a ter 40 seleções. A medida valeria a partir do Mundial de 2026, faz parte de uma reforma da entidade e que serve como compensação política para a perda de poder das confederações regionais no controle do futebol mundial.

Hoje com 32 times, o Mundial já se transformou em um desafio operacional. Ao colocar mais oito seleções, o torneio promete passar de um mês e incluiria mais de 80 partidas. 

A medida, que esteve sob debate nesta quinta-feira no Comitê Executivo da Fifa, está sendo duramente criticada por pessoas ligadas ao futebol. A acusação é de que isso seja uma forma de compensar as confederações regionais que, na criação de uma nova Fifa, terão seus poderes limitados.

Em 1994, a Copa foi ampliada de 24 para 32 times. Agora, um novo formato dará a possibilidade para que a Fifa de mais lugares para seleções de fora da Europa. Para 2018, os europeus terão 14 seleções, quase dez a mais que a segunda confederação melhor representada. Os africanos contam com cinco lugares, contra quatro e meio para a América do Sul.

 

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