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Anvisa estoura a bolha do futebol e mostra que há regras no Brasil para todos

Há mais instituições envolvidas que não fizeram a sua parte além da AFA

Robson Morelli, O Estado de S.Paulo

05 de setembro de 2021 | 18h48

O que começou torto acabou mais torto ainda. Brasil e Argentina protagonizaram uma das cenas mais ridículas do futebol mundial. Entraram em campo pelas Eliminatórias e após alguns minutos de bola rolando foram impossibilitados de jogar porque havia quatro argentinos vindos da Inglaterra que não deveriam estar ali em função da covid-19. Deveriam cumprir 14 dias de isolamento. Por descumprimento desse protocolo sanitário, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) entrou em campo literalmente e acabou com o jogo.

Para entrar no Brasil com esses atletas, a AFA (Associação de Futebol da Argentina) mentiu para as autoridades brasileiras, evitou as recomendações e pagou caro por isso. Entraram no Brasil no peito e na raça e acharam que nada aconteceria com eles e que a partida, gigante por si só, seria jogada. Os argentinos que não deveriam estar em campo nem no ônibus nem no estádio são Emiliano Martínez, Emiliano Buendia, Giovani Lo Celso e Cristian Romero.

Não há reparo para a parte legal. E essa informação deve correr o mundo. O Brasil não pode ser eternamente o país do jeitinho, das conversas de bastidores e dos acordos escusos, como tem sido desde o seu descobrimento em 1.500. O futebol não é mais uma bolha sem regras e mandos, território sem lei, onde se pode tudo sem ônus. Há muito tempo a sociedade se incomoda com essa condição. Torcedores, dirigentes e até mesmo alguns jogadores se valem de injúrias raciais, por exemplo, para ofender seus rivais. E nada acontece com essa turma. Chega.

Mas não dá para colocar toda a lambança na conta da Argentina, embora ela seja a maior culpada de tudo isso. Tem mais gente aí que não fez o que deveria. CBF (Confederação Brasileira de Futebol) e Conmebol (Confederação Sul-americana de Futebol) deveriam estar cientes da proibição de a Argentina se valer desses quatro atletas provenientes do Reino Unido em solo brasileiro e em jogo das Eliminatórias.

Não dá para aceitar que as organizadoras do evento nada sabiam desse imbróglio lamentável. O presidente envolvido da CBF, Ednaldo Rodrigues, disse que foi pego de surpresa. E que não participou de nenhuma negociação para usar ou retirar atletas do rival. Sabia, porém, que os quadro argentinos seriam deportados após a partida. Ora. Se havia essa informação antes de a bola rolar, já se tinha conhecimento do problema. E ninguém fez nada.

Da mesma forma, a Conmebol se fez de morta, como sempre faz nos problemas espinhosos, e lavou as mãos. Não é comigo! Ora. Se não é com a entidade sul-americana que organiza as Eliminatórias, vai ser com quem então?

Duvido que seus dirigentes não soubessem da necessidade do isolamento. Tem mais. O Brasil abriu seus estádios para essa entidade irresponsável sediar uma falida Copa América e assim não perder dinheiro nem prestígio com seus patrocinadores, e agora ela é capaz de ainda punir a seleção brasileira por causa da Anvisa. A AFA também se pôs de joelhos para pedir que Brasil sediasse o torneio que deveria acontecer em seu país. E agora protagoniza uma das cenas mais humilhantes do futebol.

Tomara que o técnico Scaloni e o capitão Messi não sabiam da trama. Mas todos sabiam de onde esses quatro jogadores vieram. Eles jogam no Reino Unido. E a AFA insistiu em trazê-los. O que mais se discutiu durante a Copa América foi a regra do Brasil no combate à pandemia. Como esses atletas entraram no Brasil sem ser barrados então? O assunto não era desconhecido das partes. Há outros envolvidos que precisam se explicar para a gente entender por que o campo de jogo virou um picadeiro.

*EDITOR DE ESPORTES DO ESTADÃO E COMENTARISTA DA RÁDIO ELDORADO

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