Hélvio Romero/Estadão
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Ao redor de Firmino

O jogador do Liverpool não é um típico camisa 9, nem 10, mas foge do convencional

Mauro Cezar Pereira, O Estado de S.Paulo

24 de junho de 2019 | 04h30

Tite fez uma convocação pesada para a Copa América. Levou vários jogadores com mais de 30 anos, pois queria ter a chance de escalar um time “cascudo”, adiando inevitável renovação até a Copa do Catar, que será apenas no fim de 2022. Falta muito tempo. Até lá, Daniel Alves estará próximo dos 40 anos, Fernandinho, Thiago Silva, Miranda e Filipe Luís batendo os 37, jogadores importantes, muitos deles titulares, com mínimas chances no próximo Mundial.

Apesar disso o time brasileiro custou a engrenar na competição. Sendo o anfitrião, fica mais grave quando se apresenta mal, como nos dois primeiros compromissos, contra Bolívia e Venezuela. A goleada redentora sobre o Peru muda tudo, leva paz e segurança para quem se equilibrava em meio a críticas pertinentes e receio do que estaria a caminho. Fato é que a Copa América tem peso exagerado para Tite, pelo fato de ser no Brasil e ele não ter sido campeão na Rússia.

O começo de partida diante dos peruanos não foi bom, mas apesar dos minutos iniciais, não demorou a sair o 1 a 0 com Casemiro, na bola parada. E rapidamente viria o segundo tento, na tolice do goleiro Gallese. Tendo opções de passe seguro, preferiu chutão, foi bloqueado por Firmino, que pegou rebote da trave, o driblou e ampliou. Ali o rival estava batido, a partida que ameaçava ser difícil estava precocemente resolvida para os brasileiros.

Mais gols viriam, com Everton Cebolinha, agora obviamente titular, e Daniel Alves, em passe de Firmino. Tite parece ter encontrado soluções, como o posicionamento de Gabriel Jesus pela direita, embora ele e o atleta do Liverpool, centralizado, devam revezar mais, trocar posições, necessário em jogos mais complicados, que naturalmente virão. Algo que em determinados momentos se assemelharia ao que ocorre em seus times na Inglaterra.

Mas é questionável a presença do camisa 9 entre os titulares. David Neres e Richarlison até podem executar tal papel melhor. E pesa contra o jogador do Manchester City sua ineficiência na definição das jogadas. Embora muitos repitam que é o goleador da seleção com Tite, fato é que Jesus se aproxima das dez horas sem marcar um gol em jogos oficiais (fez em amistosos). São 567 minutos de jejum, incluindo uma Copa do Mundo que passou em branco.

Em contrapartida, quem a priori com ele disputava posição cresce na seleção brasileira. Roberto Firmino circulou mais pelo ataque, deu bons passes, uma assistência para Daniel Alves e marcou seu gol com frieza, estilo e categoria, depois de pressionar a saída de bola do goleiro adversário. O jogador do Liverpool não é um típico camisa 9, tampouco um armador, um 10, mas sim um atacante capaz de construir e finalizar jogadas. Foge do convencional.

Sem Neymar, que concentra o jogo em torno de si, Firmino pode ser a chave capaz de solucionar muitos problemas. Tite pode, aliás deve, recorrer à sua versatilidade para dar a movimentação e criatividade necessárias ao time, girando ao redor dele, como acontece no campeão europeu sob o comando de Jürgen Klopp. Qual seria então a dupla capaz de simular Mané e Salah, seus companheiros na equipe inglesa? Everton Cebolinha e David Neres, por exemplo?

Vencer a Copa América é sempre importante e o Brasil não a conquista desde 2007. Sendo o país-sede é natural que tal expectativa seja ainda maior. Tudo isso colocou o técnico da seleção em posição na qual, mais do que projetar o futuro, busca resultados no presente, temendo que seu trabalho não tenha prosseguimento. A competição teve seu peso amplificado e cabe a Tite achar as melhores soluções. A goleada sobre o Peru já tirou uma tonelada de suas costas.

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