Fábio Motta|Estadão
Fábio Motta|Estadão

Ao unir paulistas e cariocas, Havelange fez do Brasil campeão do mundo

Dirigente deu a chefia da delegação em 1958 a Paulo Machado de Carvalho e investiu na comissão técnica

O Estado de S.Paulo

16 Agosto 2016 | 08h46

João Havelange enxergou o óbvio antes de assumir a presidência da CBD. Jamais alcançaria sucesso se cariocas e paulistas continuassem em pé de guerra nos gramados. Assim, ele pacificou o futebol brasileiro ao nomear o competente paulista Paulo Machado de Carvalho como chefe da delegação do Brasil na Copa de 1958, na Suécia.

Carvalho incumbiu três jornalistas paulistas, Ary Silva, Flávio Iazzetti e Paulo Planet Buarque, de criar um plano de trabalho. Seria o embrião do profissionalismo que transformaria definitivamente a seleção brasileira.

Havelange também decidiu encorpar a comissão técnica da seleção. O grupo técnico passou a incluir, além de médico, preparador físico, massagista, roupeiro e técnico, mais dois profissionais: um dentista e um psicólogo. A inspiração vinha da Viação Cometa. "Um ônibus, para sair, precisa ter um mecânico de motor, um mecânico de chassis, um limpador, o encarregado do pneu, o encarregado do almoxarifado e o motorista. Foi assim com a delegação", disse Havelange a Ernesto Rodrigues, autor da biografia Jogo Duro.

Mario Trigo, o dentista, extraiu mais de cem dentes no total. "Nós mostramos que o jogador brasileiro, bem cuidado, é o melhor do mundo." Claro que houve excessos. Os testes psicotécnicos, o QI baixo e os desenhos infantis de Garrincha levaram o psicólogo João Carvalhaes a indicar seu corte. Foi devidamente ignorado.

A preparação bem cuidada era também mais cara. Por esse motivo, Havelange não foi à Suécia nem ao Chile, em 1962. Sua função era assinar papagaios para custear os gastos da seleção. A CBD não tinha recursos nem sequer para permanecer na Suécia até o fim da Copa do Mundo.

Mas não foi só com organização e dinheiro que o Brasil chegou ao bicampeonato. Havia também influência nos bastidores. Garrincha foi expulso na semifinal, contra o Chile, mas não cumpriu suspensão automática e jogou a final. Mas como? Zagallo explica. "Deram um sumiço no bandeirinha para ele não assinar a súmula". Assim, a expulsão não teve existência formal. Eram os métodos de João Havelange.

Em 1966, já pensando em fazer do sucesso da seleção sua plataforma para a Fifa, Havelange afastou Paulo Machado de Carvalho, o "Marechal da Vitória", e resolveu chefiar ele mesmo a delegação na Copa da Inglaterra. Foi um fiasco. Sem margem para erros em 1970, Havelange, pressionado pelos militares, tira João Saldanha do cargo de técnico e coloca Zagallo. O novo treinador arruma espaço para Tostão jogar com Pelé, o que Saldanha considerava inexequível. O resto, os craques da seleção de 70 trataram de fazer.

O passo seguinte de Havelange foi criar a Minicopa de 1972, competição organizada para comemorar o sesquicentenário (150 anos) da Independência do Brasil. De olho na acomodação dos países que queria transformar em aliados em sua candidatura à Fifa, Havelange convidou até o Irã e criou a seleção da África e a seleção da Concacaf. As finalidades políticas foram alcançadas, mas a competição causou um rombo financeiro.

O general Ernesto Geisel fez vista grossa a um relatório confidencial que apontava desvios e prejuízos de US$ 10 milhões causados pela competição. Geisel ordenou que a Caixa Econômica Federal tapasse o rombo, mas decretou o fim da era Havelange no Brasil. Apontou então o almirante Heleno Nunes, irmão do almirante Adalberto Nunes, inimigo de Havelange, para substituí-lo.

NA FIFA

Eleito presidente da Fifa em 1974, ele tinha planos de acumular esse cargo com o de presidente da CBD, mas foi forçado a deixá-lo em janeiro de 1975. A retomada de seu poder no Brasil só seria consumada com o sucesso da articulação da candidatura do então genro, Ricardo Teixeira, à CBF, em 1989.

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