Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Aonde foi parar o Hino da Fifa?

O futebol moderno mexeu até com a música

Ciro Campos*, O Estado de S.Paulo

19 Junho 2018 | 04h00

Quem já esteve no estádio ou acompanhou atentamente uma partida de Copa do Mundo sabe que o torneio é uma experiência sensorial praticamente completa. Visão para presenciar os grandes momentos, fala para gritar gol e até o paladar para desfrutar do churrasco em família em dia de partida da seleção ou da pipoca no escritório quando o expediente é interrompido para ver algum jogo. Infelizmente, a Copa na Rússia apresentou um duro golpe para outro de nossos sentidos, a audição.

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Desde criança, quando passei a acompanhar Copas com fervor, tentava já ficar atento à transmissão dos jogos para observar o bonito cerimonial de entrada dos times. A tensão dos jogadores no túnel, as bandeiras nacionais preparadas e, por fim, o grande deleite auditivo pré-jogo para completar o clima. O sistema de som dos estádios colocava para tocar a bela música instrumental, chamada de Hino Fifa. Trilha triunfal.

Os acordes sempre me agradaram. Som clássico, música breve, um ritual para aumentar a expectativa para o início dos jogos. Era uma experiência sensorial importante, pois, quando o sistema de som dos estádios começava a tocar, já havia a certeza de que os dois times entrariam em campo em instantes. Após a música, seria a vez dos hinos nacionais, um dos momentos mais interessantes das partidas.

Era assim até 2014. Uma pena. A Copa de 2018 me surpreendeu negativamente ao trocar a tradição da música do cerimonial da Fifa pelo já conhecido riff de guitarra da música Seven Nation Army, sucesso lançado em 2003 pelo dueto americano White Stripes. A canção já é entoada seguidamente em estádios europeus, tem um ritmo contagiante, é fácil de cantarolar. Enfim, é uma música agradável. Mas não poderia derrubar a tradição do Hino da Fifa.

 

A novidade foi apresentada logo no jogo de abertura. Acompanhei pela televisão, porém achei que, por se tratar da primeira partida da Copa, seria uma ocasião excepcional. A decepção veio no último domingo, quando em Rostov, junto com os demais colegas de cobertura, acompanhávamos a estreia da seleção brasileira contra a Suíça. A música da Fifa tocaria na entrada das equipes? Passei vontade. A entidade trocou a tradição do hino pomposo pela aposta em cativar os torcedores a cantarolarem uma melodia mais popular como “aquecimento” para o jogo.

Nas memórias afetivas que cada fã do esporte adquire ao longo da vida, a trilha musical é quase tão importante quanto as alegrias que ídolos ou equipes produzem. Quem gosta de automobilismo, como eu, até hoje se lembra com saudade das vitórias de Ayrton Senna na Fórmula 1 e os acordes do Tema da Vitória, executado nas transmissões da TV Globo após as corridas. Alguns até a chamam de “a música do Senna”, pois se sentem emocionados ao escutá-la e se lembrar do tricampeão mundial.

O melhor exemplo da ligação entre afetividade, tradição e esporte é na Liga dos Campeões. A ópera em tom apoteótico tocada nos estádios europeus e nos canais de televisão tem na letra passagens em vários idiomas. A melodia é cantarolada por todos que já dedicaram algumas tardes de suas vidas de olho nos craques do Velho Continente. Tenho amigos que, de tão fanáticos pelos acordes e pelo torneio, brincam que o plano é tocar a música nas cerimônias de seus casamentos.

Como a Copa do Mundo é um misto de emoções, sensações, expectativas e até memórias, eu e outros saudosistas, teremos de nos conformar. O futebol moderno mexeu até com a música.

*REPÓRTER DO ‘ESTADÃO’

 

 

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