Alex Silva/Estadão
Alex Silva/Estadão

Aos 36 anos, Daniel Alves se reinventa e vira destaque do Brasil na Copa América

Lateral supera lesão grave no joelho direito e se torna até armador da equipe no torneio

Ciro Campos, enviado especial ao Rio de Janeiro, O Estado de S. Paulo

04 de julho de 2019 | 04h30

Daniel Alves ainda sentia a tristeza de ter ficado fora da última Copa do Mundo após sofrer a lesão mais grave da carreira quando procurou se reinventar no futebol, mesmo aos 35 anos de idade e com currículo extenso de conquistas. O destaque e capitão da seleção brasileira nesta Copa América entendeu ser necessário fazer uma releitura da sua função tática dentro de campo para continuar em alto nível e se mostrar tão efetivo como foi na vitória sobre a Argentina, terça, em Minas.

Agora com 36 anos, o jogador usou os seis meses longe do futebol na última temporada para se recuperar do grave problema no joelho direito e repensar como poderia ser sua atuação na lateral-direita.

Depois de anos em busca de cruzamentos da linha de fundo e boas tabelas, Daniel quis testar algo novo. "Tive de me reinventar porque o futebol se reinventou também, não se joga mais com laterais apoiando o tempo todo. As seleções agora jogam com pontas. Consegui entender isso rapidamente", afirmou. Ou seja, se ele continuasse apoiando pela direita, como fazia, ocuparia o espaço de Gabriel Jesus ou Willian.

Na atuação contra a Argentina, no Mineirão, assim como em outros jogos desta Copa América, ele mostrou uma nova função. Daniel se transforma em armador extra quando a seleção está com a bola. Avança, fica mais centralizado e se torna um aliado para encarar retrancas, como opção de passes e deslocamentos. Chamá-lo de lateral já não é mais tão correto, portanto. "Minha posição não deveria se chamar lateral-direito e sim amigo de todos", brinca. O novo Daniel, no gol de Jesus, o primeiro diante da Argentina, deu chapéu e fez passe de legítimo camisa 10 e não de um lateral.

O jogador foi escolhido o melhor em campo contra o time de Messi. O "amigo de todos", depois do chapéu, encarou Acuña quando foi preciso ser mais incisivo e mostrou vitalidade nas divididas. Longe de ser um menino, ainda tem muita determinação e boa dose de irreverência. A posição é sua há uma década.

Na véspera do jogo contra a Argentina, por exemplo, Daniel se sentou com a comissão técnica para tomar um café e conversar. O capitão contou a Tite e ao auxiliar Cléber Xavier o esforço para estar com tamanho vigor físico nesta Copa América. "O Daniel nos falou da preparação que teve para voltar à seleção. Ele queria jogar de qualquer maneira e conversou com o treinador do PSG (Thomas Tuchel) para poder pegar ritmo e estar bem fisicamente", disse Xavier.

Daniel havia ficado seis meses parado até retornar ao futebol em novembro com a pressa de quem queria provar seu valor. "Quando bate certa idade no jogador, ele começa a gerar dúvidas. Sou consciente disso", comentou o atleta. 

Ao retornar, ele passou a atuar também como meio-campista e entrou em campo 32 vezes. O fim da temporada na França teve a presença de Daniel em 11 jogos do PSG, com participação decisiva em alguns deles. Fez três gols e deu três assistências. Não é pouco.

"A capacidade mental de superação, a capacidade física e a capacidade técnica dele são enormes. Fico feliz pela naturalidade que ele tem de jogar. O Dani é um cara do bem", elogiou o técnico Tite. Mesmo com alto nível na seleção, o jogador está sem clube após ter anunciado sua saída do Paris Saint-Germain. Seu contrato terminou em junho e não houve renovação. Já sabia. A tendência é Daniel continuar na Europa na próxima temporada. Pela seleção, ele já tem 115 partidas, oito gols e 20 assistências.

Para o professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e fisiologista Paulo Zogaib, a vitalidade de Dani se explica até pela lesão sofrida recentemente. "O Daniel veio de um processo de reabilitação. Por isso, não teve um desgaste tão grande de jogos e passa agora por um recomeço no futebol. Isso ajudou a culminar nessa condição extraordinária", diz.   

O especialista afirma que o avanço da medicina esportiva ajuda os clubes a individualizar cargas de treinos e conseguir fazer com que cada atleta renda o máximo possível. O esforço individual do jogador também conta muito. "A herança genética é um ponto de partida, mas o que você fez na sua vida, como alimentação, hábitos e disciplina, isso te ajuda a manter a capacidade de atleta por mais tempo", explicou ao Estado.

TORCIDA

A personalidade e as declarações fortes de Daniel Alves marcaram a campanha do Brasil nesta Copa América. Após as vaias na estreia diante da Bolívia, no Morumbi, o jogador criticou a torcida paulista e se mostrou ansioso para o jogo seguinte, em Salvador, sua terra. "Na Bahia, o axé é diferente. As pessoas sentem falta da seleção, dessa energia que a seleção leva aonde passa. Certeza que lá vai ser mais animado", disse.

Como a passagem por Salvador foi marcada pelo empate sem gols com a Venezuela e novas vaias, os aplausos da torcida vieram só depois, contra o Peru, em São Paulo. Após a partida, o capitão se rendeu ao carinho paulistano. "Se você vaiar, vai vaiar o próprio País. Estamos representando todos eles. Hoje a torcida foi nota dez. E quando tem essa vibração boa, o resultado vem", disse, invertendo a situação – a torcida aplaude quando o time joga bem. Após a vitória sobre a Argentina, cobrou mais carinho. Logo entendeu depois que não está no time para isso, mas para fazer seu papel e representar bem a seleção brasileira.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.