Ulisses Job/Estadão
Ulisses Job/Estadão

Aos 40, Paulo Baier mantém alto nível e diz que deve jogar em 2015

O estilo de Paulo Baier continua o mesmo às portas dos 40 anos. O experiente jogador ainda comanda o meio-campo, dribla, arma o jogo, e, de quebra, marca gols. Vê-lo atuar dessa forma pelos gramados do Brasil tornou-se algo comum ao longo dos últimos anos. Não à toa, a trajetória de Paulo Baier no futebol se mistura com a história do próprio Brasileirão. Em 12 edições dos pontos corridos, o jogador fez 106 gols, tornando-se o maior artilheiro desse período.

Entrevista com

Paulo Baier

Diego Salgado e Felippe Scozzafave, O Estado de S. Paulo

18 de outubro de 2014 | 17h00

Como capitão, Paulo Baier é o líder do Criciúma no Campeonato Brasileiro. O meia, que completa mais um aniversário no próximo dia 25, tem um objetivo na reta final da temporada – provavelmente a penúltima como profissional: livrar o time do rebaixamento. Em entrevista ao Estado, Paulo Baier, que também passou por Atlético-MG, Vasco, Botafogo, Palmeiras, Goiás e Atlético-PR, relembra fatos da carreira e admite: pode virar técnico no futuro – para isso, contará com uma experiência vivida há 11 anos, quando foi auxiliar de Gilson Kleina no Criciúma por 29 dias.

Quando você tomou a decisão de deixar a lateral para atuar no meio-campo?

Eu joguei muito tempo como lateral, como ala. Quando eu voltei ao Goiás (em 2007), já existia o Vítor na posição. Comecei, então, a jogar pelo meio. Para mim foi tranquilo. Fiquei muito mais próximo do gol e isso facilitou bastante. Foi bem melhor em relação a marcar mais gols.


Sentiu mais facilidade por causa da idade?

Eu joguei muito tempo como ala. No Goiás, em 2004 e 2005, eu acho que fiz 42 gols mesmo atuando como ala. Mas, com o tempo, as coisas começaram a ficar mais difíceis. Eu precisava correr mais na lateral. No meio ficou melhor.

Você faz alguma preparação física especial por estar perto dos 40 anos?

Há quatro anos, eu mudei um pouco a parte de musculação e isso está fazendo a diferença para eu ainda jogar em alto nível. Pelo menos três vezes por semana eu procuro fazer um trabalho forte para ter o suporte e evitar lesões.

Você é um grande batedor de faltas. Treina bola parada desde o início da carreira?

Eu costumo treinar bastante a bola parada depois dos treinamentos. Eu acho que esse tipo de lance faz diferença. Mas tenho de ter cuidado. Por exemplo, se eu treinar muita falta, fico cansado. Tento dosar.

Quais dificuldades enfrentou para conseguir se destacar no futebol?

Eu divido a minha carreira em duas fases. Quando eu era chamado de Paulo César, passei por clubes como Botafogo, Vasco e Atlético-MG, mas eu tinha sempre contratos curtos e não consegui ter sequência. Quando eu voltei ao Criciúma, em 2002, fomos campeões brasileiros (da Série B), eu marquei três gols na final contra o Fortaleza e as coisas melhoraram. Nessa época eu troquei de nome, pois já tinha outro Paulo César no time.

Como você se sente sendo o artilheiro dos pontos corridos?

Muito orgulhoso, pois há grandes jogadores e eu, mesmo jogando um bom tempo como ala, consegui isso. Eu me orgulho muito dessa marca de 106 gols. Eu sei que um dia serei superado, mas eu pretendo, enquanto estiver na ativa, manter a artilharia.

Chegou a pensar em seleção brasileira?

Tive uma pré-convocação na época do Goiás (em 2005, quando Parreira era técnico). Entraria se tivesse um jogador machucado. Queria participar, era um sonho, mas não veio. Isso faz parte.

O que guarda da passagem pelo Palmeiras, em 2005 e 2006?

Eu só tenho a agradecer o Palmeiras pela oportunidade. As pessoas não entenderam a minha saída. Eu ainda tinha alguns meses de contrato. O Palmeiras me devia salário. Eram quatro meses, com mais algumas parcelas, chegava a praticamente a seis. E fui conversar com o presidente e ele disse que não tinha dinheiro. A minha saída foi por causa disso. Seis meses sem receber é duro.

E a tua relação com Edmundo?

Ele é um amigo particular. Ele é um cara bacana. Fou um prazer jogar com ele, já tinha jogado no Vasco. A gente dividia o quarto na concentração. É um cara tranquilo.

Você se tornou ídolo do Atlético-PR, Goiás e Criciúma. O que faltou o que para acontecer isso nos outros times?

A maioria dos contratos eram de seis meses. Não dá nem para conhecer o clube direito. Eu jogava seis meses e mudava para outro. Não tinha continuidade. No Atlético-PR joguei cinco anos, no Goiás, quatro anos, e no Criciúma, quase cinco anos. Isso faz muita diferença.

E a saída do Atlético-PR. O que houve?

Isso é um fato que já passou. Só tenho a agradecer o Atlético-PR. Gosto demais do clube e da torcida. Não guardo mágoas de ninguém.

O pênalti de 2007, no Goiás, quando você errou duas vezes. Sentiu a pressão?

Não foi fácil. Foi um dos momentos mais difíceis da minha carreira. O Goiás precisava ganhar para não cair. Achei melhor ficar fora, pois não tinha mais condições. Era melhor colocar outro jogador. Preferi fazer isso e deixar o Élcio bater. Deu certo.

Quais boas lembranças você levará do futebol?

A gente tem de viver o momento. Eu tenho gols importantes, mas o mais importante é o momento e eu estou muito feliz. Nunca pensei que eu ia chegar aos 40 anos jogando a Série A, em um clube bacana como o Criciúma. Eu estou muito satisfeito com o meu trabalho e tudo o que eu vivi dentro do futebol. Eu não me arrependo de nada.

Qual o clube de maior identificação?

Eu tenho carinho por todos os clubes que passei. A todos eles eu só tenho a agradecer pela oportunidade. Eu tenho muito a agradecer ao São Luís de Ijuí, que me abriu as portas para o futebol, mas logicamente os clubes que eu fiquei mais identificado foram o Criciúma, Atlético-PR e o próprio Goiás, mas na realidade eu tenho um carinho especial por todos.

Quais são os seus planos para 2015?

Eu não penso nisso agora. A gente está batalhando para conseguir o nosso objetivo de permanecer na Série A. Eu vou pensar nisso no final do ano, mas eu tenho pretensão de jogar mais um ano e acho que eu tenho condições. Eu gosto do que eu faço.

Quer continuar no futebol depois de encerrar a carreira?

Eu não pensei nisso ainda. Eu sou jogador ainda. Quando eu parar de vez, eu vou mudar o foco e buscar outro objetivo. Vou estudar, dar um tempo e decidir o que fazer.

Seria treinador um dia?

É uma possibilidade porque eu tenho contato muito grande com treinadores, eu faço uma observação e uma leitura boa dos jogos.


Quais os maiores companheiros dentro de campo ao longo da carreira?

Teve vários. O Marcos, do Palmeiras e o Harley, do Goiás. O Alex Dias, o Rodrigo Tabata. No Atlético-PR teve o Marcelo, o Manoel. No Palmeiras tive a oportunidade de jogar com o Edmundo, Juninho Paulista, Gamarra. No início da carreira joguei com o Mauro Galvão, Juninho Pernambucano, Romário. 

E treinador?

Eu gosto muito do Geninho. Ele é um cara muito importante e sou um grande admirador dele. Mas outros também como o Tite, Vagner Mancini.

Você chegou a trabalhar com o Kleina no Criciúma?

Trabalhei. É um cara gente boa, até fui auxiliar dele. É que na época fui suspenso porque tinha tomado um medicamento e fui pego no doping. Não me lembro o ano, mas eu fiquei 29 dias suspenso e virei auxiliar do Gilson Kleina e aprendi muito com ele. Ele assumiu o cargo depois que o Lori Sandri foi para o Internacional e eu fiquei como auxiliar dele nesse período.

Alguns atletas não fazem planos para depois do término da carreira. Acha isso errado?

Estou no futebol há muito tempo e sei das dificuldades. Eu já fiz besteiras. Então eu tento passar esse aprendizado ao mais jovem. Orientar em relação a dinheiro, amigos, acho que é um dever ajudar os mais jovens.

O que você acha das ideias do Bom Senso?

Para mim o movimento veio no momento certo. O futebol estava se desgastando. O meu apoio é 100% para o Bom Senso.

Te chamaram para participar do Bom Senso? Você tem vontade?

Eu tive conversas, mas nunca fui chamado. E acho que o movimento é bem representado. Eles estão fazendo um grande papel.

Top 10 - ARTILHEIROS DOS PONTOS CORRIDOS

Paulo Baier 106 gols

Fred 97 gols

Alecsandro 94 gols

Borges 93 gols

Washington 82 gols

Obina 76 gols

Souza 75 gols

Deivid 73 gols

Dagoberto 70 gols

Luis Fabiano 68 gols

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