Shiho Fukada/The New York Times
Shiho Fukada/The New York Times

Aos 51 e grisalho, Kazu, ex- Santos, continua jogando no Japão

Atacante defende o Yokohama, da segunda divisão japonesa

Jeré Longman / THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

06 Outubro 2018 | 05h00

Havia uma ameaça de tufão e começava a chover. Todos na rarefeita torcida estavam de capa ou guarda-chuva. Não havia grande motivação para ir a um jogo da segunda divisão em Yokohama naquele 30 de setembro, mas Junichi Onishi, de 61 anos, tinha uma pauta a cumprir. Há três décadas ele é repórter esportivo do Sports Nippon, o mais antigo jornal de esportes do Japão. E era seu plantão. “Estou aqui para o caso de Kazu jogar”, explicou Onishi. 

“Kazu” é Kazuyoshi Miura, o exuberante atacante do futebol japonês que, aos 51 anos, ainda joga. No ano passado, Miura se tornou o que se acredita ser o jogador profissional mais velho a marcar um gol, pegando um rebote e comemorando com sua conhecida “dança Kazu”. Ele tinha 50 anos e 14 dias. 

É claro que não dá para cravar com certeza absoluta esse recorde. O próprio Miura adverte: “Estou certo de que na quarta ou quinta divisão no Brasil alguém já fez um gol aos 54”.

Miura está ficando grisalho, seu tempo está se esgotando e ele dança cada vez menos. Quando setembro terminou, Miura havia participado de apenas oito dos primeiros 35 jogos do Yokohama FC na segunda divisão, sempre saindo do banco de reservas. E não houve nenhum gol para comemorar com sua agitada dança.

“Quando você chega aos 51, perde força e fica mais difícil manter a forma”, explica Edson Tavares, o técnico brasileiro do Yokohama. “Tenho que ser honesto com ele, mas quando é possível ele joga.”

Entretanto, mesmo no banco, Miura ainda é atração num pequeno time sem grandes expectativas. Mantém seu jeito exuberante e treina com rigor. E sua alimentação... bem, aí cada um tem sua versão sobre o que Miura supostamente come. Às 5h ele já está de pé para o desjejum, preparado por um nutricionista pessoal. Se seu nível de ferro está baixo, ele vai a um restaurante e come fígado. 

Após treinar, mergulha as pernas em água gelada e bebe o que muitos acham que é uma grande quantidade de suco de laranja. Mas não é suco de laranja, é uma água carbonatada especial que vem da Itália. 

Quando estava na faixa dos 30, Miura chegava a comer um bolo inteirinho, segundo a revista de esportes Number. Agora, é só na base de muita proteína e pouca gordura – bifes e saladas temperadas com azeite. Um site de esportes chamado Spollup informou que ele confere o peso e a gordura corporal quatro vezes por dia. “O futebol do Japão ainda caminha para ser altamente profissional”, disse Tavares, “e Kazu serve de exemplo, incentivando e motivando os colegas jogadores.”

Seu rosto ainda aparece em cartazes e seu número 11 está por toda parte, de camisetas de jérsei a capas de celular. Os fãs o consideram um cara simples e bem-humorado, sempre pronto a apertar mãos e dar autógrafos, mesmo com suas aparições na mídia sendo hoje tão esparsas quanto sua participação em partidas. 

Miura é considerado por muitos como o primeiro superastro do futebol japonês. Ele jogou no Brasil, entre outros, pelo Santos, na Itália pelo Gênova e na Croácia pelo Dínamo de Zagreb. Quando começaram os jogos da primeira divisão (J League) no Japão, em 1993, Miura chamou a atenção pelo modo como jogava e por não ter papas na língua. Ele foi considerado o primeiro jogador mais valioso da J League e recebeu a honraria usando um terno vermelho. 

“Sem Kazu, a J League não teria o sucesso que tem”, disse Kenji Hattori, diretor do Yokohama FC. 

Além do futebol, Miura simboliza as possibilidades de se envelhecer produtivamente em um país que, segundo o Fórum Econômico Mundial, é o segundo com maior expectativa de vida, 83,8 anos, perdendo apenas para Hong Kong. 

“Não podemos simplesmente estabelecer uma idade para parar”, disse Nobuko Kamiya, de 68 anos, professor aposentado que acompanha o Yokohama FC em casa e na estrada. “Kazu me dá inspiração para seguir adiante.”

Por que continua jogando, aos 51? Porque ama o futebol e sempre evitou sofrer lesões sérias, respondeu o próprio Miura ao Japan Times no ano passado. Alguns fãs e repórteres acreditam que ele ainda seja estimulado, duas décadas depois, pela mágoa de não ter sido convocado para a seleção do Japão na primeira participação do país em uma Copa do Mundo, em 1998, na França. 

Mas ele ainda tem esperança de jogar na Copa do Mundo. Quando, no ano passado, a Fifa aprovou a ampliação da Copa do Mundo para 48 equipes, Miura, que jogou pela última vez na seleção japonesa há quase duas décadas, viu uma possibilidade interessante. “É importante continuar sonhando”, afirmou. “E jogar numa Copa do Mundo ainda é meu sonho.”

TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

 

 

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