Aos 76, Djalma Santos nem fala em parar

O bicampeão mundial Djalma Santos descarta a hipótese de aposentadoria e não se afasta de sua grande paixão: o futebol. Aos 76 anos, o maior lateral-direito brasileiro de todos os tempos, um dos 100 grandes craques do mundo homenageados em 2004 no centenário da Fifa, bate bola com os amigos em Uberaba e comanda um projeto de escolinhas de futebol para garotos de rua em todo o Triângulo Mineiro.Como jogador de quatro Copas, em que a seleção acumulou dois títulos e duas decepções, faz uma previsão para 2006, mas com ressalva: "O Brasil é favorito no Mundial... se os dirigentes não atrapalharem."Na sala de visitas da casa de Djalma, no bairro de Fabrício, área em que novas ruas tomam o espaço de antigas fazendas, a galeria de troféus dá idéia da longa e gloriosa carreira desse paulistano que se tornou uma espécie de embaixador de Uberaba, cidade onde mora desde 1981. Lá estão taças, placas, flâmulas, faixas, fotografias, livros, jornais e revistas dos tempos da estréia na Portuguesa de Desportos, em 1948, até os últimos jogos pelo Atlético-PR, em 1971, passando pelo Palmeiras e pelas Copas do Mundo de 1954, 1958, 1962 e 1966. Djalma conserva também as lembranças de suas fases de treinador e líder de escolinhas. Cada foto escolhida é acompanhada de uma apaixonada e detalhada explicação."Este time era incrível", recorda o lateral-direito, apontando o time campeão mundial de 1958, aquele que, de camisas azuis, goleou a Suécia por 5 a 2 na final de Estocolmo. Nos cinco jogos anteriores, contra Áustria, Inglaterra, URSS, País de Gales e França, o titular havia sido De Sordi, que, contundido, foi vetado pelo médico Hilton Gosling para a decisão. Escalado pelo treinador Vicente Feola, Djalma entrou com a tarefa de marcar o perigoso ponta-esquerda sueco Skoglund. E conseguiu: depois de o capitão Bellini ter levantado a Taça Jules Rimet e a equipe campeã ter dado a volta olímpica com a bandeira do Brasil, jornalistas de vários países colocaram Djalma na seleção dos melhores da Copa. Um só jogo havia sido suficiente para ser eleito. "Chegamos desacreditados à Suécia e saímos com o caneco", relembra.Gilmar; Djalma Santos, Bellini, Orlando e Nilton Santos; Zito e Didi; Garrincha, Vavá, Pelé e Zagallo. O dedo indicador de Djalma pára diante de cada companheiro de time. "Estes já morreram", lamenta, ao destacar Orlando, Didi, Garrincha e Vavá. "Estes dois estão doentes. Tomara que melhorem", comenta, apontando Gilmar e Bellini. "Tenho conversado com Zito, que mora em Santos", explica Djalma, que reconhece na atuação dos dirigentes Paulo Machado de Carvalho e Carlos Nascimento um peso fundamental para o sucesso da seleção bicampeã de 1958 e 1962: "Eles deram tranqüilidade aos jogadores e aos técnicos Feola e Aymoré. O time de 58 quase não mudou em 62. Mauro no lugar de Bellini, Zózimo no de Orlando... Amarildo substituiu Pelé após a contusão do Crioulo no segundo jogo no Chile. Até a perda de uma arma poderosa como Pelé foi bem digerida pelo grupo. E deu tudo certo. O time funcionava como se fosse uma orquestra. Diferente do que aconteceu em 1954 e 1966, as outras Copas em que estive."No Mundial de 1954, na Suíça, o Brasil foi eliminado pela poderosa Hungria, de Czibor, Kocsis e Puskas, ao perder por 4 a 2 nas quartas-de-final. "O time húngaro era mesmo muito bom e foi derrotado injustamente pela Alemanha na final, mas nossos cartolas eram desorganizados. Eles nem sabiam que no jogo anterior, contra a Iugoslávia, o empate na prorrogação garantiria a classificação."Djalma tenta lembrar o nome do chefe da delegação daquela Copa e não consegue. De fato, João Lyra Filho está banido de sua memória, assim como o auxiliar Alfredo Curvelo.Em 1966, o Brasil tentaria o verdadeiro tricampeonato - três títulos em seguida e não em Copas alternadas -, mas viveu um Mundial de trapalhadas, como recorda Djalma. "Havelange, vaidoso, queria aparecer e ser presidente da Fifa. Paulo Machado de Carvalho caiu fora e ele chefiou a delegação na Inglaterra", analisa.O presidente da então Confederação Brasileira de Desportos (CBD), João Havelange, já alimentava mesmo o sonho de chegar ao poder na Fifa, algo que conseguiria em 1974. Os erros começaram na convocação: para 22 vagas, foram chamados 45 jogadores. "Os últimos cinco foram cortados quando a gente já estava na Europa", explica Djalma. "Houve intrigas, insegurança e o Brasil foi eliminado na primeira fase. Vencemos a Bulgária, mas perdemos da Hungria e de Portugal. Só podia dar naquilo. É importante evitar erros daquele tipo na seleção atual."Com o futebol brasileiro agora dono de cinco títulos, uma pergunta é inevitável: de todas as seleções campeãs, de 1958 a 2002, qual é a melhor? Djalma responde: "Difícil falar de épocas diferentes. Nos últimos anos, muitas coisas mudaram. O time de 70 era ótimo, mas, se a gente comparar individualmente, o de 58 era melhor. Gilmar, por exemplo, foi mais goleiro do que Félix... Nilton Santos ou Everaldo? Nilton Santos, claro. No meio, Zito e Didi, sem dúvida, apesar de Clodoaldo e Gerson terem sido também ótimos. Pelé esteve nos dois times e era espetacular. E Garrincha ajudava a fazer a diferença em favor da seleção 58 e 62."A camisa da Fifa foi vestida por Djalma em 1963, no lendário Estádio Wembley, de Londres, no jogo Inglaterra x Resto do Mundo, que festejou o centenário da Football Association, a associação inglesa. "Fui o único brasileiro no time porque Pelé, machucado, não pôde jogar. Nosso time tinha o goleiro russo Yashin, o goleador argentino Di Stefano, o checo Masopust e o moçambicano Eusébio, da seleção portuguesa", conta.Djalma fez parte daquele grande time da Portuguesa dos anos 50, que tinha Brandãozinho, Julinho e Pinga. Após a Copa de 58, transferiu-se para o Palmeiras, único clube que interrompia as séries de títulos paulistas do Santos de Pelé, tendo sido campeão de 59, 63 e 66. Eram os tempos da Academia, de 65, com Valdir, Ademir da Guia, Servílio e a zaga dois Djalmas - Santos na lateral e Dias no centro. "O Palmeiras tinha um esquadrão", relembra o bicampeão mundial. "Só saí de lá para o Paraná. Joguei no Atlético-PR, que também levou Bellini, Gildo, Dorval e Nair. Fomos campeões paranaenses em 1970. Então, parei de jogar, aos 42 anos, e virei técnico do Atlético."Numa época em que os craques não trocavam tanto de camisa, Djalma teve 22 anos de carreira no futebol em apenas três clubes. Só três? Houve um quarto, mas por um jogo. E Djalma mostra na parede de sua casa uma foto em que ele aparece no time posado do São Paulo. "Foi no segundo jogo da inauguração do Morumbi, em 60. Julinho e eu fomos emprestados pelo Palmeiras para aquela partida. O Almir, do Corinthians, também. Ganhamos do Nacional de Montevidéu por 3 a 1."As imagens de Djalma Santos mais recordadas por torcedores que viveram o futebol das décadas de 50 a 70 são as de um lateral forte, ágil, técnico e firme, que, após desarmar e superar o ponta-esquerda, muitas vezes por meio de um "chapéu", avançava para cruzar a bola e criar uma situação de gol. Se o zagueiro adversário rebatesse para fora, o time de Djalma era beneficiado por um autêntico escanteio, pois ele erguia os braços e fazia o arremesso lateral com força, colocando a bola diante do gol, pronta para um atacante finalizar.Essa capacidade para transformar o arremesso em caminho para o gol surgiu por acaso, fruto de acidente no fim da década de 40, quando o garoto pobre Djalma dividia seu tempo entre jogar futebol na várzea da Parada Inglesa, na zona norte de São Paulo, e trabalhar numa fábrica de sapatos. "Um dia, esmaguei a mão direita numa máquina da indústria", explica. "Quebrei vários ossos, passei por cirurgia. Isso acabou com meu sonho de entrar para a Aeronáutica e ser piloto. Mas minha mão ficou calejada e ganhei força para fazer os arremessos, depois que me firmei na Portuguesa."Em 2004, Djalma esteve na Europa e recebeu da Fifa um troféu que aparece com destaque em sua galeria: o da lista dos 100 grandes jogadores ainda vivos dos cem anos da entidade internacional. Vivo e com saúde, ele garante que, enquanto tiver forças, vai continuar trabalhando no futebol: "Depois que parei de jogar, fui técnico de vários times profissionais no Brasil, no Peru, na Bolívia. Andei pela Arábia Saudita e pela Itália, onde treinei times de garotos. Ao voltar para Uberaba, há mais de dez anos, aceitei a proposta do então prefeito Luiz Guaritá Neto (PFL) para coordenar o projeto Bem de Rua, Bom de Bola, de escolinhas de futebol para garotos de rua. Fiquei na prefeitura até o início deste ano." Agora, ele é funcionário estadual e coordena o mesmo tipo de projeto em todo o Triângulo Mineiro, com o ex-prefeito Marcos Montes (PFL), que se tornou secretário de Desenvolvimento e Esportes de Minas ao entregar a prefeitura para o ex-ministro dos Transportes Anderson Adauto (PL). Em 12 anos, milhares de meninos da região, na maioria de famílias carentes, trocaram a rua pela bola e pelos estudos. Djalma mostra, num de seus álbuns, as fotos de uma entrega de troféus, livros e cestas básicas aos destaques das escolinhas e comenta: "Também me sinto premiado com esses milagres que o futebol faz."

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