Natacha Pisarenko/AP
Natacha Pisarenko/AP

Apesar da classificação argentina, Maradona continua mal visto

Irritado, técnico disparou contra a imprensa depois da vitória por 1 a 0 sobre o Uruguai, em Montevidéu

Ariel Palacios - O Estado de S. Paulo,

15 de outubro de 2009 | 10h51

A "Batalha de Montevidéu", tal como foi definido pela mídia - em ambas margens do rio da Prata - o embate que aconteceu nessa quarta-feira entre as seleções do Uruguai e da Argentina, terminou com um suspiro de alívio por parte dos torcedores argentinos, que nos últimos meses haviam assistido a uma sequência inédita de derrotas de sua seleção. O alívio, propiciado pela vitória suada sobre o Uruguai, foi substancial, já que o país havia estado à beira do precipício da desclassificação pela primeira vez em 40 anos.

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“Vamos, carajo!” (vamos, c...!), desabafou Maradona, utilizando a típica expressão argentina, no meio de soluços, falava e chorava ao mesmo tempo com seus colegas. No gramado encontrou o manager da seleção, Carlos Bilardo, ao qual abraçou efusivamente, apesar das recentes tensões entre ambos.

 

Os jogadores da seleção abraçaram-se e entoaram cânticos de vitória que incluíam ofensas sexuais ao jornalismo argentino, que havia sido intensamente crítico com o técnico e o time nos últimos meses. Maradona sustentou, aos gritos, enfático, que sentia-se entronizado no posto: "os jogadores me consagraram como técnico!".

No entanto, na posterior coletiva de imprensa, perguntado pelos jornalistas se continuaria como técnico, Maradona respondeu secamente: "é coisa que tenho que falar com (o presidente da Associação de Futebol da Argentina, Julio) Grondona".

 

Diversas especulações na manhã desta quinta na capital argentina indicavam que Grondona tentará, gradualmente, criar uma situação incômoda para Maradona, de forma a levá-lo a renunciar a seu posto. Uma das especulações era que um dos grandes amigos de Maradona, Alejandro Mancuso, integrante do corpo técnico da seleção, não teria seu contrato renovado no mês que vem.

 

Os torcedores, enquanto isso, continuam pedindo a remoção do turbulento técnico. Isso é o que indica uma pesquisa realizada pelo jornal La Nación que afirma que os torcedores, apesar da classificação da seleção argentina para a Copa desejam que "El Diez" deixe de ser o técnico da "celeste e branca" (denominação informal da seleção argentina, em alusão às cores de sua camiseta). Do total, 85% consideram que Maradona deve partir.

Visceralmente irritado, no gramado do estádio Centenário, quando foi cercado pela imprensa, Maradona disparou com ressentimento: "sabia quer tínhamos que esperar! Sabia disso!".

 

Segundo Maradona, seus rapazes "suportaram tudo... eu estou agradecido ao plantel e ao povo..e ninguém mais!". Depois, encerrou com uma agressivo convite ao sexo oral aos jornalista: "que vocês continuem me c...!"

 

Posteriormente, durante a coletiva de imprensa, indicou que sabia quais eram os jornalistas que o haviam criticado: "minhas filhas Dalma e Giannina me disseram quais jornalistas bateram em mim e quais não, e quais foram filhos de p...".

 

Após negar brigas com Bilardo - indicado como eventual sucessor no posto de técnico da seleção - mais uma vez Maradona fez o convite de fellatio aos jornalistas. Novamente, disparou críticas contra a imprensa e mostrou rancor: "eu fui tratado como um lixo!"

 

Depois, fez referências ao fellatio pela terceira vez: "que me c... e que continuem mamando (no sentido de 'beber')!". O site do jornal Olé ironizou com a proposta de Maradona e fez uma pesquisa entre os internautas com a pergunta: "o que o Diego quis dizer com 'continuem mamando'?"

 

Entre as respostas, a hipótese de "que abram uma champanhe" recebeu 9,1% dos votos. A alternativa de "que festejem com vinho tinto" teve 8,9% dos votos. A opção de "comprar sorvete, pois chegou o verãozinho" foi a escolhida por 9,7% dos internautas. A opção de "outras" foi votada por 72,3%.

AUTOCRÍTICA

Um dos poucos jogadores que conversou com a imprensa foi Juan Sebastián Verón, que declarou que "o jogo foi difícil... mas o objetivo foi conseguido". Segundo Verón, o time "teve determinação, pois o plano era conseguir a classificação".

 

Mas, Verón também mostrou um tom crítico com Maradona, ao afirmar que não havia "coisa alguma a celebrar". O jogador sugeriu a necessidade de uma autocrítica por parte da seleção. "Agora começa uma análise profunda para deixar de sofrer e começar a desfrutar". O jogador sustentou que "é preciso não esconder as coisas debaixo do tapete". Verón também sustentou que "agora, Diego terá tempo para encontrar o time".

Mario Bolatti, autor do gol argentino da noite, elogiado pelos comentaristas esportivos como um "jogador elegante", ponderou: "sabia que não tínhamos que ficar loucos. Fomos inteligentes".

INSATISFEITOS

A vitória da seleção argentina com o Uruguai no histórico estádio Centenário de Montevidéu não eliminou as críticas ácidas disparadas contra o outrora "El Pibe de Oro" (O Garoto de Ouro), como era chamado Maradona em seus tempos de glória. Uma pesquisa realizada pelo site do jornal "Clarín" durante o jogo indicava que os internautas desaprovaram o desempenho da seleção, apesar do resultado favorável. Segundo a pesquisa, 84,8% estavam insatisfeitos com a forma como a seleção havia jogado.

 

A mídia portenha festejou a classificação. No entanto, foi implacável com o atual técnico argentino, acusado de ter envergonhado o país com suas declarações de baixo calão.

 

"Preocupante - Erros exasperantes e a pior versão de Maradona" foi a manchete do suplemento esportivo do La Nación. O site do jornal Crítica afirmou que "Acabou o suplício: Argentina tem um lugar na Copa da África do Sul". O jornal econômico Ámbito Financiero apresentaram a mesma manchete: "Acabou a angústia: a Argentina vai para Copa".

 

O Clarín perguntava: "E agora, o quê?", em alusão às dúvidas que pairam sobre a seleção, apesar da classificação. Segundo o Clarín, a seleção conseguiu a classificação embora "o nível futebolístico esteve longe do esperado". O jornal também criticou o desempenho de Lionel Messi: "fez um jogo muito frouxo". O site "26 Notícias" não poupou críticas: "Com pouco futebol e muito sofrimento, Argentina venceu o Uruguai e jogará a Copa da África do Sul".

DESORIENTADO

Embora celebrassem a classificação, os analistas esportivos criticaram a "desorientação" que assolava o plantel argentino. De quebra, afirmaram que estava "sub-treinado", já que Maradona - que não aprecia acordar cedo - treinava seus jogadores durante breves horas. Ao longo da última semana e meia o técnico fez que seus jogadores treinassem somente em três ocasiões. Isso equivale a um total de seis horas destinadas a um grupo cujos jogadores se conhecem pouco entre eles.

 

O jogo, esperado de forma resignada pelos torcedores, provocou somente uma paralisação parcial da cidade de Buenos Aires. Decepcionados com os resultados dos últimos embates, algumas principais avenidas do centro da capital argentina - 9 de Julio, Corrientes, Pueyrredón e Las Heras - mostravam relativo movimento de pessoas em via pública durante o jogo, desinteressados pelo time de Maradona.

 

Na Câmara de Deputados, os parlamentares desapareceram na hora do jogo, embora fosse necessário debater o Orçamento Nacional de 2010. Somente 69 deputados de um total de 257 compareceram à sessão.

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