Alberto Estevez/EFE
Alberto Estevez/EFE

Apoiada por 'velhos conhecidos', Islândia teve mais que uma torcida em estreia

Familiares e amigos dos atletas acompanham elenco até a Rússia e vão ao estádio torcer pela sua seleção

Jamil Chade, enviado especial / Moscou, O Estado de S.Paulo

16 Junho 2018 | 12h54

Eles são vizinhos, colegas de classe, cunhados, inimigos políticos e até ex-namorados. Mas, na Copa do Mundo, são os representantes de um país minúsculo onde praticamente todos se conhecem. Com apenas 350 mil habitantes e um punhado de jogadores profissionais, a Islândia vive uma situação em que a torcida não apenas vai ao estádio para apoiar seu país. Mas também para apoiar seus amigos de infância.

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Ao terminar o primeiro jogo da história de uma Copa para o grupo com um empate contra a potência argentina, os jogadores escandinavos saltaram as barreiras para se jogar nos braços da torcida. Ao lado da reportagem, um islandês gritava o nome do atacante que havia feito o gol, Finnbogason, para depois receber um abraço do herói do dia. "Sou amigo dele desde os sete anos de idade", explicou, emocionado, orgulhoso e nem tão sóbrio.

O próprio treinador, Heimir Hallgrimsson, contou que percorreu os bares de sua cidade natal antes do início da Copa para criar um sentimento de cumplicidade entre a população local e seus jogadores.

Mas, para a torcida que foi até Moscou, isso nem mesmo seria necessário. "Eu era colega de escola de dois dos jogadores da seleção. É incrível que hoje vejo eles jogando contra Messi", comentou Sveinn, um torcedor islandês na porta do estádio do Spartak.

Ele frequentava desde criança as mesmas salas de aula que Finnbogason e Sigurdsson, dois dos principais titulares. "Tenho histórias muito boas dos dois. Mas acho melhor nem falar", riu o colega de escola dos novos heróis nacionais.

O jovem Albert Freyr Eiriksson viajou com a família de sete pessoas para ver sua seleção em Moscou. Mas sabe como poucos o que o time tem como potencial. "Joguei por muito tempo com um deles: Traustason", afirmou. "Ele é um atacante muito bom e que pode dar trabalho", disse. Seu pai ainda ironizou que o filho só não estava na seleção por ter sofrido uma contusão no joelho.

Anna, que trabalha como advogada, ainda conta que Arnason era seu vizinho antes de ir jogador num clube da Escócia. "Mas continuamos amigos dos seus pais e ele sempre nos manda notícias", disse.

No metro a caminho para o primeiro jogo da história da Islândia numa Copa, as irmãs Helga e Carolina chegaram a ficar envergonhadas quando a reportagem perguntou se elas conheciam pessoalmente alguns dos jogadores. "Um deles foi meu primeiro namorado", contou Helga, que não quis dizer sobre quem se referia.

Um senhor que não estava longe das meninas interveio para explicar que a torcida que tinha viajado para a Rússia não era "apenas uma torcida". "Somos um país-família", disse. "Se eu não conheço cada um deles pessoal, eu certamente sei que são seus tios, primos ou parentes", disse.

 

"Eu posso dizer tranquilamente que conheço uns dez dos 23 jogadores que estão na Rússia", afirma o empresário Sigurdarson, que viajou para Moscou com sua esposa e filha. "Isso cria algo mágico entre nós e os jogadores", insistiu.

Aron Gunnarsson, o capitão, confirma essa relação "especial". "Essa é uma das poucas vantagens de ser pequeno. Mas posso dizer que temos os melhores torcedores do mundo", disse.

"Conhecemos nossos torcedores e essa proximidade nos da confiança", afirmou o treinador islandês. "Isso mostra unidade e o respeito que podemos receber", explicou.

Quem não foi e não irá em nenhum momento para a Rússia serão os políticos islandeses. Num gesto para deixar claro a oposição ao governo de Vladimir Putin, as autoridades da pequena ilha à beira do Ártico decidiram em bloco que abririam mão da emoção de estar nos jogos para dar uma declaração diplomática de desagravo ao Kremlin.

 

 

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