Imagem Ugo Giorgetti
Colunista
Ugo Giorgetti
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Apoio insuficiente

Levir, a rigor, tinha sido mantido no cargo pelos seus jogadores. Aí veio a derrota...

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

29 Outubro 2017 | 03h00

O que falam os jogadores dos treinadores? Não o que falam publicamente, mas o que comentam entre si, entre colegas e amigos que eventualmente jogam em clubes diferentes. São nessas conversas secretas que as reputações dos treinadores vão se formando. De vez em quando vaza informação para a imprensa, geralmente truncada ou pouco confiável. O que realmente pensam fica entre eles.

Com o tempo, os treinadores de carreira longa acabam por deixar rastros, derivados dessas informações que circulam e que a força de se repetir acabam formando uma opinião. Ninguém confessa publicamente o que pensa, principalmente porque ninguém sabe o dia de amanhã. Mas, como disse, carreira longa fala por si.

Faz pouco tempo ocorreu um fato que demonstra de maneira nítida o que boleiros pensam de um treinador. Falo de Levir Culpi. Esse treinador está no meio faz tempo e por isso sua carreira deve ter sido analisada muitas vezes, suas qualidades e defeitos avaliados, sua manias, idiossincrasias e cacoetes espalhados por todos os lados.

Entretanto, esse fato de uns dias atrás - que acabaria não sendo definitivo – o absolve publicamente e, antes, acrescenta enorme prestigio à sua carreira. O Santos vinha tendo alguns resultados inesperados e parte da torcida e parte da diretoria exercia forte pressão para a demissão de Levir.

Na semana passada, a demissão chegou a ser divulgada na imprensa, com a pressa das coisas irrevogáveis e definidas: logo após uma partida. Foi confirmada até pela assessoria de Levir. Só faltou o próprio Levir confirmar. E eis que um fato que não é corriqueiro aconteceu: uma comissão de boleiros se reuniu com a diretoria e, falando em nome dos jogadores, reverteu a situação.

Naquela ocasião Levir, a rigor, foi mantido no cargo pelos seus jogadores. Esse fato em si é mais relevante quando sempre se consideram jogadores responsáveis pelas quedas dos treinadores. É frequente times que iam mal, da noite para o dia se transformarem completamente e começarem a obter resultados que não havia antes. Evidentemente ficam as suspeitas. A queda de um treinador, portanto, recai sobre os jogadores muito mais frequentemente do que seu apoio ao técnico que balança. A atitude dos jogadores do Santos é rara e fala muito da personalidade, e, sobretudo, da honestidade, do modo de proceder de Levir. Boleiros olham sempre em primeiro lugar a honestidade do treinador, sua lealdade. Ele fica permanentemente sob escrutínio de muitos olhos, desconfiados como são os olhos da maioria dos jogadores de futebol.

Quando a equipe sai a campo para defender o técnico é porque ele passou por todas as provas morais. O julgamento técnico não importa para os jogadores. Todos os treinadores são mais ou menos parecidos. O que os diferenciam é outra coisa. E essa outra coisa Levir tem. Gosto muito dele. Da sua maneira de ser, de suas entrevistas. São alegres, verdadeiras, descontraídas, confiantes e engraçadas, sem serem ofensivas nem muito polêmicas.

Levir recebe dos jogadores o que dá a eles. Já o vi chorar, por sair do Atlético-MG, provavelmente por deixar um grupo a que tinha se afeiçoado. Levir é meio sentimental. Nesse tempo de profissionalismo e métodos “científicos”, isso parece um defeito. Não é. De vez em quando os jogadores mostram isso, como nesse episódio após o jogo do Santos com o Sport.

Mas isso não foi suficiente. O peso dos resultados (ou da falta deles) voltou a falar mais alto. Veio a derrota deste domingo para o São Paulo e a diretoria decidiu demitir Levir. De maneira rápida, oficial, para não permitir reações. A justificativa: o time já não estava rendendo. Mostra de que nada adianta a relação que existe entre técnico e jogador.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.