DJALMA VASSAO/AE
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Após 25 anos, médica relembra Batalha do Pacaembu: 'Nadamos em sangue naquele dia'

Briga entre são-paulinos e palmeirenses provocou a morte de um torcedor e deixou 102 feridos em jogo das categorias de base

Wilson Baldini Jr., O Estado de S.Paulo

20 de agosto de 2020 | 08h00

A "Batalha do Pacaembu", que causou a morte de um torcedor e deixou 102 feridos durante a decisão da Supercopa São Paulo de Juniores, vencida pelo Palmeiras diante do São Paulo (1 a 0), em 20 de agosto de 1995, ainda está viva na memória de Ana Maria Visconti. Aquele jogo foi um marco (negativo) na história do futebol brasileiro.

Única médica presente no tradicional estádio paulista naquele dia, Ana Maria, recém-formada então, teve uma "pós-graduação" forçada ao ter de cuidar sozinha de centenas de machucados entre torcedores e policiais militares. "Nadamos em sangue naquele dia. Ganhei uma experiência muito grande na profissão. Foram muitos atendimentos. De todos os tipos", disse a médica em entrevista ao Estadão, mas também ressaltando a dor daquele confronto.

"O grupo de trabalho era pequeno no Pacaembu, apenas uma ambulância de UTI, assim como o contingente policial, pois era um jogo de garotos. A equipe seria reforçada à tarde, quando iria ocorrer um jogo do Corinthians, que, evidentemente, foi cancelado." Segundo a médica, que continua seu trabalho nos jogos em São Paulo, após aquela tragédia a segurança e o trabalho médico foram modificados nos estádios do Estado.

Quando o episódio completou 20 anos, o Estadão conversou com Ester Gasparin, mãe de Marcio Gasparin, são-paulino assassinado durante a confusão.  O torcedor foi morto pelo palmeirense Adalberto Benedito dos Santos, único preso na confusão. Adalberto foi condenado a 14 anos de prisão pelo 1º Tribunal do Júri, em São Paulo, por homicídio duplamente qualificado, cumpriu quatro anos em regime fechado e hoje está solto.

A médica lembra que a briga ganhou proporções maiores porque os torcedores se armaram de pedras e paus. O tobogã (um dos setores da arquibancada, localizado atrás do gol de fundo do estádio) ) estava sendo reformado e havia muito entulho no local, transformando-se imediatamente em armas para os briguentos. "Foi um horror. Uma briga que não acabava nunca e o número de lesões graves era muito grande", lembrou Ana Maria. "Com a pandemia, não temos público temporariamente e com isso o nosso trabalho diminuiu bastante, mas nada mais será comparável com aquele dia. Ainda bem."

25 anos depois

Aquela briga mudou completamente o tratamento com os torcedores uniformizados no futebol de São Paulo. Tudo foi parar no Ministério Público, torcidas foram extintas, promotores se apossaram no assunto e tentaram evitar mais brigas, que passaram a ser constantes até elas saírem dos estádios e ganharem regiões espalhadas pela cidade. Torcedores foram presos. Faz 25 anos que todos os envolvidos tentam solucionar o tema, a briga no futebol, sem sucesso. Atualmente, o futebol de São Paulo realiza clássicos com torcida única, isso antes da pandemia, que tirou o torcedor por completo das partidas.

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