Após 25 anos, Ponte bate Corinthians

O conselheiro Ricieri Fordiani, 70 anos, exibia com orgulho a faixa de campeão paulista de 77, com o autógrafo de Vicente Matheus, presidente do clube na histórica conquista. O narrador Fiori Giglioti, o poeta do microfone, ainda na ativa, repetia para as emissoras de rádio e televisão, a narração do gol de Basílio, o verdadeiro pé de anjo, que tirou encerrou o jejum de 22 anos sem títulos. Foi emocionante a viagem no tempo proporcionada neste domingo por ex-jogadores de Corinthians e Ponte Preta, protagonistas da decisão do Campeonato Paulista de 1977. Em campo, a Ponte Preta venceu por 3 a 1. Então, a justiça foi feita, deve estar perguntando o torcedor do time de Campinas, ferrenho defensor da tese de que o seu time era muito melhor do que o rival na ocasião da decisão. Outro lance polêmico naquela final, que segue entalado na garganta do torcedor da Ponte, foi o cartão vermelho que o juiz Dulcídio Wanderley Boschilia mostrou para o atacante Rui Rey, no início da partida. "Na verdade a Ponte Preta tinha um grande time em 77 e neste domingo colocou em campo vários jogadores mais novos do que os nossos. Só que a história ninguém apaga", disse o lateral-esquerdo Wladimir, um dos destaques da equipe que conseguiu o feito heróico. A homenagem feita pelo Corinthians aos seus heróis deve servir de exemplo a um futebol brasileiro que não trata bem seus ídolos. Todos os jogadores que participaram da histórica decisão receberam tratamento de megaastros. Fiori Giglioti, com a sua voz inconfundível, anunciou o nome de cada um deles antes da entrada para o gramado. O volante Russo foi o único ex-jogador do Corinthians que participou da decisão do dia 13 de outubro de 77 que não esteve presente ao Parque São Jorge. Em má situação financeira, prometeu vir de Irajá (RJ) para participar da homenagem e receber uma cesta básica de alimentos que lhe seria oferecida pelos organizadores. Mas não apareceu. A situação de Russo é complicada. Além da falta de dinheiro, sofre com a artrite, que dificulta a sua locomoção. A banda da Polícia Militar executou os hinos nacional, do Corinthians e da Ponte Preta. No vestiário, um encontro inesquecível entre os velhos adversários. O lateral-esquerdo Odirlei, careca, era chamado de Roberto Carlos pelo goleiro corintiano Tobias. Rui Rey, personagem principal da decisão, foi alvo das brincadeiras dos corintianos. Quando o jogo começou, deu para perceber logo que os 25 anos não conseguiram diminuir as diferenças entre as duas equipes. A Ponte Preta, como em 77, exibiu o belo toque de bola, sob o comando do habilidosíssimo meia Dicá. Do outro lado, a velha raça corintiana, liderada por Basílio. O time de Campinas criou várias oportunidades, mas foi o Corinthians que abriu o placar. Como em 77, Vaguinho foi à linha-de-fundo aos 22 minutos e cruzou para Geraldão marcar. "Eu e o Vaguinho ainda nos entendemos muito bem. Estamos sempre fazendo jogos beneficentes juntos. Ele sabe que é só cruzar que estou lá para conferir", disse Geraldão, que não aparenta os 53 anos. No segundo tempo, houve muitas mudanças nos times. A Ponte Preta ganhou com as alterações e chegou ao empate aos três minutos, por intermédio de Rui Rey. Aos 13, Robertinho virou para a Ponte e, aos 22, Parraga, completou o placar. Os torcedores (cerca de oito mil, que trocaram um quilo de alimento não perecível pelo ingresso) não deram a menor importância para o placar. Entre eles, estava o lateral-direito do São Paulo Gabriel, filho de Wladimir. "Estou aqui pelo meu pai. Em 77, eu ainda não havia nascido, mas sei o quanto aquele título foi importante para ele", disse, dentro do vestiário, enquanto era cumprimentado pelo ex-goleiro Jairo. Para o atacante Chicão, que jogou na Ponte Preta de 78 a 87, o jogo tinha outro significado. Foi a primeira partida que participou após a isquemia cerebral que sofreu há três anos e meio e que paralisou o lado direito de seu corpo. Falando com extrema dificuldade, o ex-jogador não conseguia conter a emoção. Corinthians: Tobias (Jairo e depois, Solito); Zé Maria (Zé Eduardo), Moisés, Ademir (Darci) e Wladimir; Luciano, Basílio (Jenildo) (Edu) e Palhinha (Adãozinho e depois, Lance); Vaguinho, Geraldão e Romeu. Técnico: Zé Teixeira. Ponte Preta: Carlos; Edson, Juninho, Oscar e Odirlei (Eugênio); Parraga (Chicão), Hélio (Odirlei) e Dicá (Nenê); Rui Rey e Tuta (Robertinho). Técnico: Zé Duarte. Juiz: Emídio Marques Mesquita. Local: Parque São Jorge.

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