Após 3 anos, Raí quer voltar ao futebol

Faz três anos e meio que Raí parou de jogar. Nesse tempo, seus contatos com o futebol foram uma frustrante experiência que durou menos de três meses no departamento de futebol amador do São Paulo e a participação em grupos de trabalho para discutir o esporte no Brasil. Mas agora ele acha que está na hora de voltar ao ambiente em que viveu por quase 20 anos. ?Ainda tenho muito a dar ao futebol.?Seu sonho é transformar-se em dirigente, mas com poderes para impor sua marca e fazer o que gostaria de ter feito no São Paulo ano passado e não conseguiu por falta de autonomia. Ele já foi sondado por clubes franceses, mas também admite assumir um cargo no Brasil ? e não precisa necessariamente ser no São Paulo.E numa prova de que está mesmo com saudade do futebol, admite até a possibilidade de um dia virar treinador. Essas e outras revelações estão na entrevista que o ex-jogador concedeu a Luís Augusto Monaco, Luiz Antônio Prósperi e Wania Westphal.O eterno ídolo são-paulino também falou de sua carreira como jogador e mostrou muito entusiasmo com o trabalho que faz na Fundação Gol de Letra, que criou em parceria com o amigo Leonardo e hoje atende mais de 700 crianças e jovens em São Paulo e Niterói.Agência Estado - Ano passado você trabalhou no departamento de futebol amador do São Paulo, mas ficou só três meses. Ficou decepcionado com o que viu por lá?Raí - Não vi nada que já não imaginasse que existia. Estava caindo para uma função que não me agradava e resolvi sair.AE - Qual foi a gota d?água que te levou a pedir demissão?Raí - Eu não tinha autonomia. Uma pessoa com a minha experiência no futebol teria que ser consultada para todas as decisões da área, mas isso não acontecia. Senti que ia ser só um assessor, um conselheiro, sem poder de decisão. Para começar, logo que cheguei escolheram os técnicos das categorias de base e ninguém me consultou. Já começou assim...Não gostei, mas resolvi esperar para ver se as coisas mudavam. Como não mudavam, vi que não tinha nada para fazer ali. Para ficar daquele jeito, o clube não precisava de mim. Minha contribuição ao São Paulo foi fazer o clube economizar os R$ 60 mil que me pagava de salário.AE - Se tivesse autonomia o que você teria mudado por lá?Raí - Por uma questão de ética, prefiro não falar. Mas vocês ainda vão me ver trabalhando num clube.AE - Como assim?Raí - Ainda tenho muito a contribuir com o futebol. Tive sondagens de clubes franceses para trabalhar como dirigente. É uma coisa que me atrai.AE - Como foram essas sondagens? Raí - Eu seria o diretor-esportivo, como o Jorge Valdano é no Real Madrid. Cuidaria das contratações, de montar o elenco, administrar o futebol...É estranho receber esse tipo de proposta da Europa e não aqui do Brasil, perceber que as pessoas acreditam mais em você lá do que aqui. Veja o caso do Leonardo: foi chamado para trabalhar num clube como o Milan, mas ninguém no Brasil pensou nele.AE - Você tem sua imagem muito ligada ao PSG. Teria problema se trabalhasse em outro clube?Raí - Só se fosse no Olympique de Marselha, que é o grande rival do PSG. Nos outros não teria problema nenhum.AE - E você aceitaria trabalhar num clube brasileiro que não fosse o São Paulo? Corinthians ou Palmeiras, por exemplo?Raí - Encararia numa boa, se tivesse autonomia e condições para fazer o trabalho do jeito que imagino.AE - E trabalhar como treinador, já passou pela sua cabeça?Raí - Já. Nada muito definido, mas é algo que não descarto.AE - É curioso que, como treinadores, normalmente os craques não têm o mesmo sucesso que ex-jogadores de menor expressão. Você vê alguma razão para isso?Raí - Nunca parei muito para pensar, mas acho que é porque trabalho de técnico é pesado demais para um ex-craque. Ao longo da carreira, o craque se acostuma a ser o centro das atenções, a ter um monte de gente em volta ajudando, paparicando. Ele acaba ficando meio mimado. O trabalho de técnico não é fácil, tem que ficar debaixo do sol dando treino, gritando, corrigindo. E depois tem que ficar estudando o adversário, vendo vídeos, gravando jogos, planejando, administrando problemas...Acho que os que foram craques não têm muita paciência para essas coisas.AE - Há quase um consenso de que o Brasil tem uma geração de jovens jogadores como há muito não tinha. Você concorda?Raí - Temos grandes jogadores, mas quando se fala em geração tem que se falar no conjunto e não apenas em atacantes ou meias. Acho que o problema é que faltam jogadores de defesa. Todo mundo fala do Kaká, do Diego e do Robinho, mas lá atrás não aparecem muitos jogadores. É por isso que um zagueiro como o Aldair teve de jogar 10 anos na seleção e o Cafu precisa ser imortal e jogar 15 anos.AE - Quem são os expoentes desta geração?Raí - É fácil: os expoentes são os ídolos. Como os garotos se tornam titulares cada vez mais cedo, logo viram ídolos. Antes havia os ídolos e as revelações. Hoje, as revelações já têm muita responsabilidade.AE - Alguém lembra o seu estilo?Raí - O Kaká, sem dúvida. Ainda mais agora que ele está mais forte. Outro dia estava vendo um vídeo meu para selecionar imagens para uma palestra. Eram cenas de um 4 a 2 contra o Palmeiras. Via aquilo e ficava impressionado com a semelhança com o jeito de jogar do Kaká. As arrancadas, o jeito de abrir o jogo para a lateral, é muito parecido mesmo.AE - Como surgiu a idéia de criar a Fundação Gol de Letra?Raí - Quando estava aqui no Brasil eu já pensava em um dia fazer um trabalho desse tipo. Essa idéia cresceu quando fui para a França, porque lá vi o que era justiça social. Conversava muito sobre isso com o Leonardo e resolvemos criar uma fundação. A Gol de Letra existe há quatro anos e três meses e hoje temos dois núcleos, um em São Paulo, na Vila Albertina, com 440 crianças e outro em Niterói, com 300.AE - Quanto custa manter essas duas unidades?Raí - Nosso orçamento anual é de R$ 2,4 milhões.AE - E de onde saem os recursos?Raí - A briga por patrocínios é constante. Temos uma equipe que vai à luta para captar recursos, que vêm de três fontes: pessoas físicas, jurídicas e instituições. As pessoas físicas são o que chamamos de Sócio Titular Gol de Letra. As pessoas colaboram com a Fundação pagando uma mensalidade de R$ 20. Fazemos parcerias com as instituições, que investem em algum projeto nosso. E também contamos com a ajuda de empresas privadas.AE - Como é o dia a dia das crianças na Fundação?Raí - Bom, existem dois grupos: o de 6 a 14 anos e o de 15 a 21. Os menores vão todo dia, no período complementar ao da escola. Quem estuda de manhã vai à tarde e vice-versa. As crianças passam por um circuito de atividades em três áreas: esportiva, cultural e literária. Num dia, jogam vôlei, fazem teatro e ouvem histórias. No outro, jogam handebol, têm aula de música e fazem um trabalho com poesia. O pessoal de 15 a 21 anos vai duas vezes por semana, três horas por dia. Existem várias oficinas à disposição e eles escolhem o que fazer. Tem foto, vídeo, música, teatro, dança, comunicação... Fazem um jornal para a comunidade, o pessoal do vídeo tem um projeto de um longa-metragem. O curso dura três anos e chama-se FAC , que é Formação de Agentes Comunitários. Os jovens podem usar profissionalmente o que aprenderam, mas o objetivo principal é que usem essas técnicas para ajudar a transformar a comunidade em que vivem.AE - Vocês pretendem abrir outros núcleos?Raí - Não, mas pretendemos disseminar o conceito. Queremos documentar nossa experiência e criar uma equipe para ajudar a implantar nossa metodologia de trabalho em iniciativas semelhantes.AE - Quais os resultados desse trabalho que mais te tocaram?Raí - Tem muita coisa...Por exemplo: na Associação de Mães que surgiu por causa da Fundação, 30% das mulheres voltaram a estudar. Isso foi um resultado indireto do trabalho da Fundação. Temos um número muito legal: as crianças de 9 a 11 anos retiram em média 30 livros por dia. Estamos mudando a cultura da região. Também tem exemplos legais no esporte. Fomos para uma competição e uma menina da Gol de Letra chegou em segundo na prova dos 50 metros. Ela abraçou o professor e começou a chorar sem parar. O professor perguntou se ela estava triste por ter perdido e ela respondeu que estava chorando porque nunca um grupo de pessoas tinha torcido por ela como naquele dia. Recebemos uma doação de 40 patins e a molecada logo improvisou uma quadra de hóquei e começou a jogar. Agora, uma vez por semana tem jogo de hóquei na Vila Albertina.AE - Muitos jogadores estão investindo em ações sociais. O que explica isso?Raí - Acho que é a origem humilde dos jogadores. Minha infância não foi difícil como a da maioria dos jogadores, mas convivi de perto com os dramas e as tristezas desse pessoal, principalmente nas categorias de base, quando tinha 15, 16 anos. Aprendi muito com aquilo, acho que acabou me inspirando para pensar criar a Fundação Gol de Letra.AE - Você foi chamado para participar de algum projeto social do Governo Lula?Raí - Ainda não. No governo passado eu participei de um grupo de trabalho com o José Luiz Portella (secretário-executivo do Ministério do Esporte) e saiu muita coisa boa dali, como o Estatuto do Torcedor. Também tratamos do calendário do futebol, de fazer o Brasileiro por pontos corridos. Quando o Lula foi eleito, participei de um grupo que se reuniu para formular sugestões para o futuro ministro do Esporte, mas até agora nada foi aproveitado. Era na linha da democratização do esporte, voltado para o trabalho na base e não no alto rendimento. O Oded Grajew (empresário, ex-assessor especial de Lula no projeto Fome Zero) me pediu para pensar num projeto que unisse esporte e geração de renda, primeiro emprego. Tive uma idéia, conversei com o ministro francês do Esporte (Jean-François Lamour), com o ministro daqui, mas ainda não foi analisado.AE - Como é o projeto?Raí - É polêmico, por isso quero colocá-lo em debate, organizar um seminário para ver o que as pessoas acham. Pretendo trazer gente de Cuba, dos Estados Unidos e da Europa para o seminário. A idéia é criar jovens monitores esportivos, que possam trabalhar com esporte sem precisar passar pelos quatro anos de faculdade. Seria um curso técnico, de um ou dois anos, que seria mais barato. Hoje existe o corporativismo do pessoal da Educação Física, que deve ter lá suas razões. Mas isso limita muito o trabalho com o esporte, porque poucas pessoas chegam à faculdade. E quem chega vai trabalhar em academia. Na França isso é uma coisa antiga. Tem muita gente que trabalha com esporte, todos os assessores do ministro são esportistas. Tem o exemplo de uma campeã de judô que só conheceu a modalidade porque um instrutor foi lá na cidadezinha de cinco mil habitantes em que ela morava.AE - Você está decepcionado com a linha de ação do ministério do Agnelo Queiroz? A Paula se desencantou e caiu fora...Raí - Não conheço por dentro para avaliar. Não cheguei a ficar frustrado por não terem analisado meu projeto, porque foi só um contato e a equipe tinha acabado de assumir. Mas ainda espero que atuem mais na área da democratização do esporte. Ainda não demonstraram uma vontade explícita de ir por esse lado, mas acho que uma hora vão ter que ir, imagino isso que seja uma questão de honra para o PT.AE - Você participou do grupo que debateu o calendário do futebol. O que está achando do modelo em vigor?Raí - Há uns 10 anos, escrevi um artigo para a Gazeta Esportiva em que defendia um calendário que é praticamente igual ao de hoje, com o Brasileiro longo e por pontos corridos e os Estaduais curtos. Gosto muito da fórmula deste ano, a briga pelas vagas na Libertadores valorizou muito a disputa. Com essa briga, se caírem quatro times e o número de participantes for reduzido para 18 ou 20, vai mexer com todo mundo.

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