Rener Pinheiro / MoWA Press
Seleção brasileira feminina de futebol Rener Pinheiro / MoWA Press

Após a Copa do Mundo, caminho está aberto ao talento das meninas no Brasil

Há razões para acreditar que a modalidade vai pegar de vez no País após a disputa do Mundial

Daniel Batista e Paulo Favero, O Estado de S.Paulo

30 de junho de 2019 | 04h30

A Copa do Mundo feminina de futebol se tornou uma febre nunca antes vista no Brasil por causa de vários ingredientes misturados: debate sobre igualdade de gênero no esporte, desilusão com a seleção masculina, empatia com as jogadoras e suas histórias de vida, apoio maciço de grandes empresas e recordes de audiência na tevê aberta. Mas após a eliminação da seleção feminina nas oitavas de final da competição para a anfitriã França, a pergunta que aparece é sobre qual será o legado desse megaevento.

A campanha do Brasil na Copa não foi um fiasco, pelo contrário, a eliminação veio apenas na prorrogação contra uma das principais forças do torneio e que estava jogando em casa, a França. O técnico Vadão, porem, já vinha sofrendo críticas e a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) deve tomar uma decisão na próxima semana sobre qual projeto levará adiante até os Jogos de Tóquio, em 2020.

De um lado está a preocupação em deixar a equipe nacional bem preparada. “Devemos ter um torneio no Brasil, com duas ou três partidas, e temos convite para jogar na China. Agora vamos fazer uma agenda bastante positiva para que a gente possa manter a seleção em atividade e não perder esse ritmo que foi conseguido para a Copa, e claramente melhorá-lo na parte física e técnica”, explicou Marco Aurélio Cunha, coordenador de futebol feminino da CBF.

O outro ponto importante é desenvolver ainda mais o futebol feminino no País. Atualmente, existem duas divisões nacionais. Na Série A-1 são 16 equipes e o torneio, que foi paralisado em razão da Copa, está na 9.ª rodada. O Corinthians lidera, seguido pelo Santos. Além dos dois rivais, outros exemplos de grandes times que estão na elite são Inter, Flamengo, Vitória e Sport. Já na Série A-2, a segunda divisão, são 36 clubes e a competição está nas quartas de final. Sobem quatro equipes para a elite. Os jogos são: Ceará x Cruzeiro, América-MG x Grêmio, Chapecoense x Palmeiras e Taubaté x São Paulo. A disputa será retomada a partir de 12 de julho.

Os clubes passaram a ser obrigados a cumprir diversas exigências para obter o licenciamento da CBF e, entre essas mudanças, estava a criação de uma equipe feminina. Obrigatoriamente. Por isso, grandes times ainda estão na segunda divisão. Ainda neste ano, terá início um Campeonato Brasileiro da base, com 24 participantes. Em maio, a TV Bandeirantes firmou parceria com a CBF e a emissora passou a transmitir jogos das duas divisões, que passam também no Twitter. Ainda há a disputa de Estaduais. Em São Paulo, tem a divisão principal e uma competição sub-17.

Neste mês, o São Paulo obteve patrocínio exclusivo para sua equipe feminina. “Quando começamos a conversar com o São Paulo, sabíamos que tinha a Copa do Mundo Feminina, mas como nunca teve uma evidência tão forte quanto no masculino, não tínhamos ideia do tamanho do impacto”, comentou Rodrigo Machado, gerente de marketing da Giuliana Flores.

Um alento parece estar vindo de diversas empresas que se engajaram em um movimento de apoio ao futebol das meninas. O Guaraná Antarctica incentivou outras marcas e 14 aceitaram a convocação: Almap BBDO, Cabify, Always, DMCard, Downy, Gilette Vênus, GOL, Havaianas, LAY’S, Nescau, Nutren Beauty, O Boticário, Uber e Volkswagen Caminhões.

Fornecedora de material esportivo da seleção, a Nike criou pela primeira vez um uniforme para as mulheres a partir de “estudos e troca de informações com as próprias jogadoras”. Quem também festejou o torneio foi a Panini, com vendas do álbum de figurinhas com as principais estrelas da competição. Ao que tudo indica, é um caminho sem volta e a tendência é que o espaço do futebol feminino seja cada vez maior.

ENTREVISTA COM ALINE PELLEGRINO

COORDENADORA DO DEPARTAMENTO DE FUTEBOL FEMININO DA FEDERAÇÃO PAULISTA

Como você vê o futebol feminino no Brasil no momento?

Sem dúvida nenhuma, estamos vivendo o melhor momento do futebol feminino. Temos uma Série A-1 e A-2 muito grande. Teremos pela primeira vez um Brasileiro de base sub-18 e hoje a gente percebe que há algo em torno diferente. Muita gente querendo saber e acompanhar e temos TV aberta tanto no Brasileiro quanto no Paulista.  

Quanto a Copa pode ajudar na divulgação do futebol feminino no Brasil?

A Copa faz com que a gente tenha uma visibilidade monstruosa. A situação está diferente do que acontecia antes, que acabava a Copa ou a Olimpíada e não se falava mais de futebol feminino. Agora, todo sábado e domingo terá transmissão na TV aberta.

O que acha da ideia do time feminino fazer preliminar do masculino?

É possível e viável e depende dos clubes, mas precisa ser feito com calma. Não adianta querer fazer em todos os jogos, mas podemos estrategicamente pegar alguns confrontos importantes, que terá uma divulgação bacana, e usarmos esse pano de fundo para mostrar o nosso futebol. Dá para casar muita coisa, mas de forma respeitosa entre as partes.

O que pensa sobre quem diz que o licenciamento serve para obrigar a realização do futebol feminino?

É errado falar isso. O licenciamento veio para dar maiores responsabilidades e melhorar a administração dos clubes. No ano passado, sem licenciamento, tivemos uma Série A-1 e uma A-2 com 16 anos. É importante, neste momento, que o licenciamento dê uma alavancada no futebol, mas ele não foi criado com essa intenção. Me incomoda muito quem faz essa relação.

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Sucesso da Copa e luta por igualdade movem meninas em peneira em São Paulo

Peneira de futebol feminino da Federação Paulista atrai mais de 400 adolescentes em São Paulo

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

30 de junho de 2019 | 04h30

A estudante norte-americana Gisele Yamamoto é filha de brasileiros e joga futebol pelo Califórnia Magic, time do colégio. Aos 17 anos, ela quer jogar no Brasil, pois acha que seu estilo se encaixa melhor por aqui. Por causa do sonho da garota sorridente e fluente em inglês e espanhol, a família cogita voltar depois de 20 anos. O pai, Alex Yamamoto, aposta que os novos torneios, o entusiasmo por causa da Copa das mulheres e esse “movimento de igualdade entre masculino e feminino” podem dar o empurrão para a modalidade no País.

Uma das tentativas de Gisele para conseguir um clube é a peneira da Federação Paulista de Futebol para meninas entre 14 e 17 anos, realizada na semana passada na USP. Ao todo, foram 424 inscritas, número que surpreendeu os organizadores.

Muitos pais pensam como Alex. “Vou apoiar o sonho dela”, diz o gestor de frota Gilmar Alves Ferreira que levou a filha Ana Flavia Tomás Ferreira para a peneira. “A participação dos pais tem de ser total. A gente patrocina tudo, desde a chuteira até a ida ao evento. É um ‘paitrocínio’”, sorri Gilmar, que aproveitou as férias do trabalho para acompanhar a filha e a mulher ao teste. 

A peneira foi mais descontraída do que as tradicionais. Antes do jogo, música eletrônica para aquecer. Monitores perguntavam a toda hora se estava “tudo bem” para as candidatas. Patrocinadores distribuíram iogurtes de graça até para os pais, com selfies à frente do banner do evento inédito em São Paulo. 

As meninas jogaram em uma metade do campo, com nove atletas para cada lado. No fim, elas saíram sem saber se serão chamadas pelos olheiros – foram 14 ao todo, inclusive dos quatro grandes de São Paulo. A intenção dos organizadores foi estimular a participação não só nesta peneira, mas em outras.

“Mesmo sabendo que é difícil, cada esforço pode valer a pena. Eu vim para tentar”, diz Maria Morena Grou, que saiu de Amparo (SP) para participar do teste. A menina de 17 anos acha que essa luta individual faz parte de algo maior. “As meninas da seleção brasileira não ficaram paradas esperando. Elas correram atrás. O futebol feminino depende disso, depende de todo mundo, não só das mulheres.”

Sofia Ramos era uma das duas poucas goleiras na tarde ensolarada de terça-feira. “É uma carreira difícil. Quando você joga em times menores, é difícil conseguir o prestígio que um homem tem. Gosto muito de fazer. Se eu passar vai ser legal”, diz a garota de 16 anos do Esporte Clube Pinheiros.

O evento também procurou ajudar os clubes a descobrir talentos para o Campeonato Paulista Sub-17, que vai começar no dia 18 de agosto. Rogério Francisco Marques, presidente do Estrela de Guarulhos, afirma que selecionou 15 meninas que podem ser chamadas para um período de testes no clube. É a segunda vez que o time da grande São Paulo vai disputar o torneio paulista.

Felipe Bonholi, analista de desempenho e observador da Ferroviária, pioneiro no futebol feminino com as Guerreiras Grenás, avalia que conseguiu pinçar meninas para um segundo olhar. “É difícil fazer a avaliação em um dia. Algumas têm potencial, mas ficam nervosas”, justifica.

Olheiros apontam que a falta de um trabalho de base consolidado é um dos entraves para o desenvolvimento do futebol feminino no País. Hoje, existem apenas dois: o Paulistão Sub-17 e o Brasileirão Sub-18, que estreia neste ano.

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Futebol feminino ganha força na Europa

França Itália e Espanha passaram a investir mais na modalidade e jogos começaram a ser transmitidos na TV

Guilherme Amaro, O Estado de S.Paulo

30 de junho de 2019 | 04h30

Enquanto no Brasil o futebol feminino ainda está à sombra do masculino, em outros países o cenário é de igualdade ou até de superioridade da modalidade praticada pelas mulheres. Os Estados Unidos, por exemplo, são os maiores campeões da Copa do Mundo feminina, com três títulos, enquanto a seleção masculina levantou apenas um troféu na história, a Copa Ouro.

O mesmo ocorre no vizinho Canadá, que disputou apenas uma Copa do Mundo masculina e terminou com a pior campanha em 1986. Já na modalidade feminina, a seleção canadense chegou a uma semifinal de Mundial e soma duas medalhas de bronze em Olimpíada.

Na Europa, alguns países começaram a desenvolver o futebol feminino nos últimos anos. A França, anfitriã da Copa deste ano, tem o principal time do mundo: o Lyon, que conquistou em maio sua sexta Liga dos Campeões. Além disso, a equipe conta com a atacante norueguesa Ada Hegerberg, uma das melhores do mundo.

Itália e Espanha estão no mesmo caminho. Nesses países, o futebol feminino passou a receber mais investimento nas últimas temporadas, com a entrada de clubes grandes. Milan, Juventus, Roma, Barcelona e Atlético de Madrid possuem equipes femininas e começaram a atrair torcedores. Consequentemente, as TVs passaram a transmitir os jogos, gerando visibilidade e mais interesse.

Neste contexto, o maior campeão da Liga dos Campeões masculina percebeu que estava ficando para trás e tratou de agir. O Real Madrid confirmou que terá um time feminino no ano que vem. O clube anunciou a fusão com o Deportivo Tacón, equipe feminina fundada em 2014. A brasileira Marta está na mira dos dirigentes.

O duelo entre Atlético de Madrid e Barcelona registrou o recorde de público em um jogo de futebol feminino. No estádio Wanda Metropolitano, 60.739 torcedores acompanharam a vitória do Barcelona por 2 a 0. Suécia, Noruega, Japão e China são potências na modalidade e times comuns no masculino.

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