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Após corte de salário na Espanha, jogadora recorre a 'vaquinha' para voltar ao Brasil

Camila Mehler, do time La Solana, teve seu contrato rescindido durante a pandemia sem receber os vencimentos

Andreza Galdeano, O Estado de S.Paulo

15 de junho de 2020 | 11h00

O futebol feminino chegou a comemorar o aumento de visibilidade na temporada passada com o sucesso da Copa do Mundo na França. Mas com a pandemia do novo coronavírus, a crise financeira atrapalhou a vida de uma brasileira na Espanha. O Estadão teve acesso ao contrato da jogadora Camila Mehler, do time espanhol La Solana, da primeira divisão. Ela foi uma das atletas prejudicadas durante a crise.

Em entrevista ao Estadão, Camila diz que estar fora do seu País chegou a ser um drama durante a covid-19. Explica que a quarentena na Espanha começou no dia 13 de março, suspendendo os treinos e os jogos. Desde então, começou a ter problemas com os acordos firmados com o clube. "Meu contrato diz que eles teriam de pagar meu salário, moradia, uma refeição por dia e a passagem de avião para voltar ao Brasil. Desde a paralisação, não recebo nada. O contrato de aluguel da casa em que estava foi encerrado no início de maio e o clube se recusou a custear minha passagem", lamentou.

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Se não fosse a ajuda da minha família eu não teria nem onde morar hoje
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Camila Mehler, jogadora brasileira

A jogadora conta que precisou entrar em contato com a embaixada brasileira na Espanha por não ter mais "condições financeiras e psicológicas para continuar na mesma situação". "Se não fosse a ajuda da minha família, não teria nem onde morar. Ao entrar em contato com a embaixada, me disseram que não teria outro voo de repatriação tão cedo e que não tinha como me ajudar. Diante disso, minha família juntou dinheiro para pagar a minha passagem."

Camila conseguiu retornar ao Brasil no fim de maio. "Além de não pagar o voo, o clube também não se dispôs a me levar no aeroporto. Precisei sair um dia antes, ir até uma cidade vizinha, pegar um trem até Madri, com bilhetes pagos por um amigo, e outro trem até o aeroporto. Tudo isso sozinha e carregando malas". A jogadora passou parte do período entre o horário de chegada no aeroporto e seu embarque na rua, já que não poderia ficar dentro do local e todos os estabelecimentos próximos estavam fechados devido à pandemia.

"O clube simplesmente não responde minhas mensagens e não demonstra se importar com o que está acontecendo comigo, uma estrangeira. Ainda tentei entrar em acordo com o time, informando que não precisava pagar os dois meses de salários, mas pelo menos a passagem que comprei para retornar ao Brasil. Mas nem isso".

A jogadora recebeu um alerta do time espanhol semana passada, mas apenas para enviar documento de rescisão do seu contrato, feito no dia 5 de março. "Ambas as partes foram dispensadas das obrigações firmadas", diz parte do documento, que não foi assinado por Camila. A reportagem entrou em contato com o La Solana, mas não recebeu resposta até a publicação desta matéria. Camila afirmou que após o contato do jornal, o clube a questionou sobre as informações fornecidas.

Estadão também procurou o advogado trabalhista Higor Maffei Bellini para falar do caso. O especialista em direito esportivo explicou que uma das práticas comuns entre clubes durante a pandemia é pagar as passagens para os atletas retornarem aos seus países de orihem. Mas isso não é uma regra jurídica. Porém, Camila tem o direito de receber os salários até o fim do seu contrato. "Já que ela não assinou a rescisão antecipada, o clube dispensou a jogadora e não cumpriu com os termos do contrato. De acordo com a Fifa, como o clube pagava as despesas da atleta, ela é jogadora profissional", explica o advogado. "Ela tem seus direitos."

De acordo com o regulamento da entidade máxima do futebol, "um profissional é um jogador que tem um contrato escrito com um clube e é pago mais por sua atividade futebolística do que pelas suas despesas. Todos outros jogadores são considerados amadores". Camila vai esperar a pandemia passar para brigar por seus direitos.

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