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Após infância pobre, Marin virou milionário com política e futebol

Filho de imigrantes espanhóis, cartola acumulou riquezas durante cinco décadas

Raphael Ramos, O Estado de S.Paulo

22 de dezembro de 2017 | 16h52

Antes de ser condenado pela Justiça dos Estados Unidos, José Maria Marin, 85 anos, fez fama e riqueza na política e no futebol. Filho de uma família de imigrantes espanhóis, teve uma infância pobre em São Paulo, mas durante cinco décadas acumulou riquezas e tornou-se um homem milionário até ser pego pelas autoridades americanas acusado de receber propina e suborno.

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A ligação do ex-presidente da CBF (Confederação Brasileira de Futebol) com o esporte vem de berço. O seu o pai, Joaquín Marin y Umañes, era boxeador, conhecido como Jack, o Terrible. Marin foi jogador de futebol e, entre 1949 e 1954, atuou nos aspirantes do São Paulo e em clubes sem grande expressão, como São Bento de Marília e Jabaquara. No São Paulo, disputou apenas dois jogos oficiais e marcou um gol.

Marin chamou a atenção de Vicente Feola, o técnico campeão do mundo em 1958 com a seleção brasileira, mas não pelo futebol. Treinador de Marin no São Paulo, ele aconselhou aquele jovem atleta a se dedicar aos estudos. A sua avaliação era de Marin nunca iria se transformar em um grande era ponta-direita, mas, se fizesse uma faculdade, teria uma profissão para a vida inteira e poderia se dar bem.

Ele conciliou os estudos com a vida de atleta e, em 1955, se formou na conceituada Faculdade de Direito da USP do Largo São Francisco. Com a ajuda dos amigos de Santo Amaro, bairro na zona sul de São Paulo onde passou a infância e juventude, resolveu arriscar-se na política. Foi eleito vereador em 1963 pelo Partido de Representação Popular (PRP). Reeleito, virou presidente da Câmara em 1969 com apoio do regime militar – nesta época já estava filiado à Aliança Renovadora Nacional (Arena).

Na década seguinte, Marin foi deputado estadual por dois mandatos e se tornou vice-governador de São Paulo em 1978. Entre 1982 e 1983, assumiu o governo do Estado por dez meses, substituindo Paulo Maluf, que se afastou do cargo para concorrer a uma vaga na Câmara dos Deputados.

Marin era acusado pelos opositores de ser apenas um fantoche de Maluf. Era chamado de “irmão siamês” de Maluf. A curta passagem dele pelo Palácio dos Bandeirantes foi marcada por várias polêmicas. Ele não teve as contas do seu governo aprovadas, envolveu-se em empréstimos suspeitos da Caixa Econômica Estadual e passou o cargo para Franco Montoro, eleito pelo voto popular, debaixo de uma vaia histórica na Assembleia Legislativa.

Depois de deixar o governo do Estado, Marin voltou ao esporte. Desta vez como cartola para assumir a presidência da Federação Paulista de Futebol. Marin ainda se arriscou novamente na política e, em 2002, quando foi candidato ao Senado, obteve 63.641 votos, o equivalente a 0,2% dos votos válidos.

Marin manteve influência na Federação Paulista por vários anos. O seu filho, Marcus Vinícius, por exemplo, foi diretor de Futebol Amador na gestão de Marco Polo Del Nero, em 2010. Na CBF, Marin ocupou a cargo de vice-presidente e, em 2012, viu cair no seu colo as presidências da entidade e também do COL (Comitê Organizador Local) da Copa de 2014 após a renúncia de Ricardo Teixeira, que permaneceu 23 anos no poder e acabou abatido por denúncias de envolvimento em irregularidades e problemas de saúde.

Vaidoso, Marin fez implante capilar e até a sua prisão, em 2015, mantinha o hábito de tentar disfarçar os fios brancos com tinta acaju. Durante o período em que cumpriu prisão domiciliar em Nova York, a partir de novembro de 2015, ficou em seu apartamento no arranha céu Trump Tower, a poucos metros do Central Park - o imóvel foi adquirido na década de 80.

Com autorização da Justiça, ele podia sair até sete vezes por semana de casa. Às segundas, quartas e sextas-feiras, ia à academia de ginástica do prédio para fazer exercícios físicos. Às terças, quintas, sábados e domingos, podia fazer compras, caminhar e ir à missa, desde que permanecesse dentro de um raio de até duas milhas (o equivalente a 3,2 quilômetros) de seu apartamento. Um dos seus programas preferidos era ir a uma livraria perto do Central Park. Apesar de não falar inglês, Marin mas tem compreensão geral do que lê. Ele também costuma ir a restaurantes nos arredores da 5.ª Avenida.

Parte do patrimônio que Marin acumulou ao longo das últimas décadas acabou dilapidado. Para ajudar a pagar os custos de sua prisão domiciliar em Nova York e despesas com advogados, o ex-presidente da CBF vendeu por R$ 11,5 milhões uma mansão localizada no Jardim Europa, uma das regiões mais nobres de São Paulo. O imóvel fica em um terreno de 2.600 m² e tem 818 m² de área útil. Possui dois andares, 12 salas, dez banheiros e estacionamento para 30 carros.

A mansão foi comprada por Marin em 2014. O ex-presidente da CBF pagou por ela R$ 13,5 milhões. A casa estava registrada em nome da JMN Empreendimento e Participações, empresa criada por Marin para cuidar dos bens da família.

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