Bruno Haddad/Cruzeiro
Bruno Haddad/Cruzeiro

Após pior início entre os grandes, Cruzeiro busca soluções para evitar vexame na Série B

Atrapalhado por problemas financeiros, time destoa dos rivais de expressão que foram rebaixados e conseguiram subir no ano seguinte; equipe de Minas corre risco de permanecer na Segundona

Ricardo Magatti, especial para o Estado, O Estado de S.Paulo

15 de setembro de 2020 | 10h00

Atormentado por dívidas estimadas em R$ 982 milhões, prejudicado por punições recentes da Fifa e atolado em uma crise que parece não ter fim dentro e fora de campo, o Cruzeiro vive um drama e encontra dificuldades para deslanchar na Série B do Campeonato Brasileiro, diferentemente do que aconteceu com a maioria dos clubes de expressão que foi rebaixado e se reergueu em um ano, como Palmeiras e Corinthians, por exemplo.

A má gestão, um dos fatores determinantes para a queda à Segunda Divisão, também atrapalhou e fez com que a equipe começasse a competição com seis pontos negativos pelo não cumprimento da ordem de pagamento de 850 mil euros (R$ 5,4 milhões na cotação atual) referente à dívida com o Al Wahda pelo empréstimo do volante Denilson. Outras dívidas e punições bateram neste ano à porta da Raposa e o clube, apesar dos esforços, não consegue reagir. O tempo é curto. O dinheiro é curto. E o futebol é curto também. Depois de 9 jogos, o Cruzeiro tem 8 pontos, dois a mais que o primeiro clube na zona de rebaixamento.

Vivendo a mais grave crise de sua história, o clube passa por drama sem precedentes em relação aos grandes que estiveram na Segundona. Na história da Série B desde 2006, ano em que a competição passou a ser disputada por pontos corridos, nenhum dos principais times brasileiros se submeteu a uma situação semelhante à que se apresenta ao time de Minas. Apesar do triunfo na última semana sobre o Vitória, o Cruzeiro amarga a pior campanha de um clube de expressão até a nona rodada. Com oito pontos, o ocupa a 13.ª posição.

O Atlético-MG, em 2006, o Vasco, em 2009 e 2014, e o Internacional, em 2017, também largaram mal. Ainda assim, todos obtiveram mais de 50% de aproveitamento até a nona rodada e somaram 14 pontos, seis a mais do que possui o Cruzeiro atualmente. A melhor campanha até esse estágio da competição foi a do Corinthians, que conseguiu se manter invicto nesse período e somou 23 pontos, aproveitamento de 85,2% em 2008. A equipe paulista também ostenta a maior pontuação da história do campeonato (85 pontos), à frente de Portuguesa de 2011 (81) e do Palmeiras de 2013 (79).

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O maior desafio de um time grande na Série B é reestruturar a casa. O primeiro passou é se organizar internamente. Depois, no campo, aos poucos, as coisas acontecem naturalmente
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Bruno, ex- Palmeiras, ex-goleiro, hoje preparador nos EUA

"O maior desafio de um time grande na Série B é reestruturar a casa. O primeiro passou é se organizar internamente. Depois, no campo, aos poucos, as coisas acontecem naturalmente", ensina o ex-goleiro Bruno, que conseguiu acessos por Portuguesa, Palmeiras e Santa Cruz, um com cada time. Atualmente, ele é comentarista esportivo e treinador de goleiros nos Estados Unidos.

"A competitividade na Série B é maior. Os jogos são mais pegados e os campos não têm a mesma qualidade da Série A. Outro diferencial é que os jogadores se esforçam ainda mais para ter oportunidade de contrato em um clube da elite. É uma vitrine. O torneio fica mais disputado", reforça o ex-jogador Wendel, que disputou a competição pelo Palmeiras em 2013. Ele também fez parte do elenco campeão dez anos antes.

O Cruzeiro até teve um bom início, com três vitórias seguidas em seus três primeiros jogos. Começou a corrida com menos 6 pontos. Depois, porém, a equipe ficou cinco partidas sem vencer até que o técnico Ney Franco fosse contratado para o lugar de Enderson Moreira. O time conseguiu reagir logo em sua estreia com triunfo por 1 a 0 sobre o Vitória, mas não dá sinais de que sobrará na disputa.

Na temporada, foi eliminado na terceira fase da Copa do Brasil pelo CRB, sua pior participação em 24 edições que disputou da competição nacional da qual é o maior vencedor, com seis títulos, e terminou o Campeonato Mineiro em quinto, pior colocação nos últimos 25 anos. O torcedor sabe das dificuldades. A missão para voltar à elite é mais complicada do que os desafios pelos quais passaram Palmeiras (2003 e 2013), Botafogo (2003 e 2015), Grêmio (1992 e 2005), Atlético-MG (2006) Corinthians (2008), Vasco (2009, 2014 e 2016) e Internacional (2017).

Essas equipes atravessaram crises significativas, mas a maioria não estava tão desestruturada e mergulhada em um caos esportivo como ocorre com o Cruzeiro. Todos eles conseguiram retornar à Série A em uma temporada, mesmo que tenham encontrado percalços em suas trajetórias e alguns tenham subido sem ser campeões. O contraponto é o Fluminense, que acumulou dois rebaixamentos seguidos, da Série A para a B em 1997 e da B para a C em 1998.

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Todos os problemas de gestão interferem dentro de campo. A primeira grande intervenção é que os melhores jogadores não aceitam as propostas financeiras pelo momento do clube. Aí o elenco não fica qualificado. Jogadores vão embora
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Rogério Lourenço, zagueiro do Cruzeiro campeão da Libertadores em 1997

"Todos os problemas de gestão interferem dentro de campo. A primeira grande intervenção é que os melhores jogadores não aceitam as propostas financeiras pelo momento do clube. Aí o elenco não fica qualificado. Jogadores vão embora. E a questão política atrapalha muito o futebol também. Vários remam contra e a situação só piora", avalia Rogério Lourenço, ex-zagueiro campeão da Libertadores pelo Cruzeiro em 1997.

Para Lourenço, o caminho para que a equipe reaja e brigue pelo acesso passa por impedir as ingerências no futebol e tentar blindar o grupo o máximo possível em relação aos problemas extracampo. "Se o futebol ficar à parte, sem interferência de pessoas de outros departamentos, se a diretoria cumprir os compromissos financeiros, dar tranquilidade ao técnico, acho que tem tudo para sair dessa situação", salienta o treinador, atualmente sem clube. "A gente sabe que muitos dirigentes são torcedores. É hora de eles terem humildade para dar as mãos e tentar reconstruir o clube."

Ney Franco tem a difícil missão de evitar que o time celeste seja o primeiro grande a não voltar para a elite no ano seguinte ao rebaixamento na era dos pontos corridos - o que obrigaria a equipe a disputar a Segunda Divisão novamente no ano do seu centenário. "Todos têm de entender que a gente está disputando uma competição extremamente difícil. Você não ganha e não fica entre os quatro primeiros apenas com o nome, com a estrutura do clube. Se você não for para campo, não trabalhar, tiver entrega de todos os profissionais, não tem sucesso", avisou o treinador assim que chegou.

A equipe pode se espelhar no Goiás de 2018, que também era comandado por Ney Franco. Naquele ano, o time goiano também tinha apenas cinco pontos passadas oito rodadas e figurava no 18º lugar, mas engatou uma arrancada impressionante e terminou o torneio em quarto, com 60 pontos, e subiu.

SÉRIE C

Considerando também o período anterior à era dos pontos corridos, o único dos grandes a não subir e, de quebra, cair para a Série C foi o Fluminense. Em 1996, o time carioca foi rebaixado para a Série B. No entanto, depois de um escândalo de manipulação de resultados envolvendo Atlético-PR e Corinthians, o rebaixamento daquela edição do Brasileiro foi cancelado. Em 1997, porém, a equipe das Laranjeiras caiu de novo e, no ano seguinte, amargou a queda para a terceira divisão.

"Foram muitos motivos que nos levaram à Série C. A falta de estrutura, de comprometimento provocada pela desorganização fora de campo, com salários não pagos, afetou nosso desempenho dentro de campo. Chegamos ao caos naquela época", recorda em entrevista ao Estadão o veterano Magno Alves, um dos poucos a se destacar na campanha que culminou com o descenso à terceira divisão.

Comandado por Carlos Alberto Parreira, o Fluminense venceu a Série C em 1999. Mas, graças a uma polêmica envolvendo outros clubes, acabou saltando direto para a elite do futebol brasileiro, fato que gera reclamações dos outros rivais até hoje.

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