Reprodução/ Twitter Santos FC
Reprodução/ Twitter Santos FC

Após pressão de patrocinadores e torcida, Santos suspende contrato de Robinho

Clube informa que decidiu de comum acordo com o jogador, para ele ter tempo para se defender da condenação de estupro

Paulo Favero, O Estado de S.Paulo

16 de outubro de 2020 | 19h09

Depois da pressão de patrocinadores e torcedores, o Santos optou por encerrar o contrato com o atacante Robinho. O clube divulgou na noite desta sexta-feira, 16, uma nota informando que suspendeu a validade do contrato com o jogador. "O Santos Futebol Clube e o atleta Robinho informam que, em comum acordo, resolveram suspender a validade do contrato firmado no último dia 10 de outubro para que o jogador possa se concentrar exclusivamente na sua defesa no processo que corre na Itália", disse.

O jogador também aproveitou sua conta no Instagram para explicar a suspensão de contrato. "Claro que com muita tristeza no coração venho falar para vocês que tomei a decisão, junto com o presidente, de ter a suspensão do meu contrato, nesse momento conturbado da minha vida. Meu objetivo sempre foi ajudar o Santos Futebol Clube e se de alguma forma eu estou atrapalhando, é melhor que eu saia e foque nas minha coisas pessoais. Para o torcedor do Peixão e para aquelas pessoas que gostam de mim, vou provar para vocês a minha inocência. Um abraço", disse.

Robinho chegou ao Santos como grande contratação para a temporada. Era a aposta de marketing para um clube que está sem patrocínio master desde o final de 2018 e poderia repetir boas atuações e trazer os holofotes, como conseguiu em suas outras passagens. Mas a condenação por estupro em 1ª instância na Itália - a decisão do Tribunal de Milão ainda não é definitiva e é alvo de contestação da defesa do jogador - ganhou enorme repercussão nos últimos dias e a pressão dos patrocinadores aumentou bastante.

Muitas empresas que estampam suas marcas na camisa do Santos já avisaram que se o contrato com o atacante não fosse rescindido, o patrocínio seria retirado. A primeira a tomar a iniciativa foi a Orthopride, que já rompeu o contrato de patrocínio que tinha com o clube até fevereiro de 2021. A empresa de ortodontia estética estampava sua marca dentro do número das camisas e não quis ter seu nome atrelado a um jogador condenado por estupro na Itália.

Nesta sexta, uma reportagem do site globoesporte.com revelou detalhes da sentença condenatória. Transcrições de interceptações telefônicas realizadas com autorização judicial mostraram que Robinho revelou ter participado do ato que levou uma jovem de origem albanesa a acusar o jogador e amigos de estupro coletivo, em Milão, na Itália. Em 2017, a Justiça italiana se baseou principalmente nessas gravações para condenar o atacante em primeira instância a nove anos de prisão. 

De acordo com a investigação, Robinho e outros cinco amigos, incluindo Ricardo Falco, que também foi condenado, levaram a mulher ao camarim de uma boate chamada Sio Café, em Milão, e lá abusaram sexualmente dela. O caso aconteceu em 22 de janeiro de 2013, quando o atleta defendia o Milan. Os outros suspeitos deixaram a Itália ao longo da investigação, e por isso a participação deles no ato é alvo de outro processo.

Com a repercussão negativa e pressão de pessoas nas redes sociais, os patrocinadores começaram a avisar o Santos que poderiam abandonar o clube. Tekbond, Kicaldo, Casa de Apostas e Philco, entre outras, divulgaram posicionamentos nessa linha e notificaram o Santos sobre a possível saída caso fosse mantida a intenção de contar com Robinho no elenco. Mais tarde, a Tekbond anunciou que vai permanecer patrocinando o clube da Vila Belmiro.

"Diante da definição pela suspensão do contrato com o jogador, a Tekbond decidiu pela manutenção do seu patrocínio ao clube. Estamos certos de que a melhor atitude foi tomada pelo clube. O Santos é dono de uma história grandiosa, uma das mais reconhecidas e amadas no mundo do futebol.  Reiteramos o nosso repúdio a toda e qualquer forma de violência, e defendemos que o respeito às mulheres deve estar presente na sociedade, assim como também no futebol. A promoção ao respeito, à igualdade de gêneros e à diversidade faz parte dos nossos compromissos e orienta nossas operações e relacionamentos", disse.

Desde o início a diretoria do Santos e o técnico Cuca se colocaram ao lado do atleta, mas a pressão forte também de parte dos torcedores pelo rompimento do contrato fez diferença. Segundo Fábio Wolff, sócio-diretor da Wolff Sports & Marketing, não é comum esse tipo de atitude no Brasil dos patrocinadores no futebol, mas é uma situação que vem mudando nos últimos anos. "Quando a influenciadora Gabriela Pugliesi deu uma festa durante a pandemia de covid-19, as marcas foram cobradas pelos consumidores, e ela perdeu patrocinadores", comentou.

"As empresas estão cada vez mais preocupadas com as suas imagens e trabalham o tempo todo para aprimorar o compliance, então acredito que essa situação vai ocorrer cada vez mais. Os consumidores gostam de empresas que não são omissas e tenho visto muitos clientes preocupados com a imagem de suas empresas", disse o especialista em marketing.

A contratação de Robinho estava na pauta da reunião virtual de quarta-feira do Conselho Deliberativo do Santos. Os membros têm poder de fiscalização das ações da diretoria e poderiam vetar a contratação, que agora deve fazer burbulhar mais o ambiente político na Vila Belmiro. O clube vive um momento de turbulência política, com o afastamento do presidente José Carlos Peres. Quem está na presidência é Orlando Rollo, mas em dezembro haverá nova eleição.

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