Ponte Preta Oficial
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Após quarentena da covid, jogadores sofrem para se recuperar e enfrentam problemas cardíacos

Especialistas apontam que atletas demoram um mês para voltar à condição física

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

09 de dezembro de 2020 | 09h00

O meia Moisés Vieira ficou em quarentena por 12 dias após contaminação pelo novo coronavírus. Sentiu febre, dor de cabeça, tosse e muita dor no corpo. Quando voltou aos treinos na Ponte Preta, no dia 30 de novembro, a situação também foi difícil. Perna pesada, como se usasse "chuteiras de chumbo". Com treinos específicos, ele ainda está recuperando a forma na Série B do Campeonato Brasileiro. Especialistas estimam que o tempo de recuperação plena de um atleta após a covid-19 é de um mês.

Para um jogador de futebol, a contaminação por covid tem dois tempos, como no próprio jogo. O primeiro é a quarentena. Isso inclui isolamento social, dos amigos e da família, exercícios leves e descanso, dar tempo para o corpo reagir. Os sintomas são os mesmos que afligem grande parte da população: febre, dor de cabeça, tosse e muita dor no corpo. Após a testagem negativa para o vírus, o que significa poder retomar os treinos, vem a segunda parte, tão difícil quanto à primeira. É hora de recuperar a forma física, matéria-prima dos atletas.

O cardiologista e médico do esporte do HCor, Nabil Ghorayeb, conhece bem esse roteiro de recuperação. Ao longo dos últimos dois meses, examinou um grupo de 35 jogadores que tiveram a doença, entre amadores, masters e atletas da elite. Nenhum profissional chegou a ser internado na UTI. Nabil afirma que a maioria apresentou apenas sintomas leves ou "sintomas não valorizados", como dor no peito, falta de ar e arritmia. Nenhum foi entubado.

O tema é difícil. Praticamente todos os jogadores consultados pelo Estadão para relatar as dificuldades no retorno pós-covid preferiram recusar a entrevista. A questão é delicada, pois envolve o desempenho físico, primordial para os atletas, e a preocupação em relação ao futuro na carreira. Especialistas afirmam que muitos temem não conseguir reconquistar o mesmo desempenho de antes. O atacante Wellington Paulista conta que teve sorte. "Tive apenas sintomas leves. Eu consegui até fazer alguns exercícios leves na quarentena. O que mais me afetou foi perder o olfato e o paladar", diz o atacante do Fortaleza

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A maioria dos jogadores volta aos treinos após a quarentena ainda com a perna pesada. É uma situação complicada
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Victor Bolt, volante do Botafogo-SP

A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) registrou até este mês de novembro 689 casos positivos do novo coronavírus entre jogadores e membros da comissão técnica nos times das Série A, B, C e D do Campeonato Brasileiro. A informação está no documento "Eficácia e segurança do Protocolo Médico da CBF", produzido pela Comissão Médica da Entidade. Foram analisados os resultados de 47.450 testes PCR em 1161 jogos do Campeonato Brasileiro das quatro primeiras divisões e também de mais outras três competições para categorias inferiores: sub-17, sub-20 e aspirantes. A todo, foram registrados 807 testes positivos, o que corresponde a 1,7% do total de amostras. Na Série A, foram 97 casos. A Série D, que concentra o maior de times, somou a maioria das infecções com 348 casos.

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Muitas vezes as pessoas pensam que é só chegar e continuam bem, mas foi um vírus que atacou o corpo. Os jogadores estão sendo fortes, mas não é fácil
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João Martins, auxiliar técnico do Palmeiras

Após um surto de 33 casos em setembro, quando chegou a pedir o adiamento da partida contra o Palmeiras pelo Campeonato Brasileiro, o Flamengo comemora nesta semana o teste negativo de todos os jogadores e membros da comissão técnica. O Palmeiras vive momento oposto. Depois de mais de 20 casos no elenco, a equipe alviverde vem sentindo os efeitos da covid na queda do desempenho da equipe nos últimos jogos, principalmente nos empates diante do Santos (Campeonato Brasileiro) e Libertad (Libertadores). A avaliação é de João Martins, auxiliar do técnico Abel Ferreira, que também está com covid.

"Tivemos dificuldade na parte física dos jogadores que vieram de Covid. Muitas vezes as pessoas pensam que é só chegar e continuam bem, mas foi um vírus que atacou o corpo, o organismo. Os jogadores estão sendo fortes, mas não é fácil. Tivemos 22 casos, quase todos na mesma altura. E temos de jogar com atletas que às vezes nem começam com 50%. Eles estão sendo guerreiros e muitas vezes temos de gerir isso", pontuou.

A covid-19 não é apenas uma doença respiratória. Seus danos atingem intestino, rins, cérebro e coração. No último, o risco é a miocardite, uma inflamação do músculo cardíaco. Com a criação de articorpos pelo organismo para conter a infecção, o vírus é combatido, mas a inflamação permanece. Essas áreas podem ficar com cicatrizes ou fibroses, que ocasionam as arritmias. Um dos fatores de risco para a miocardite é o retorno ao esporte sem que tenha havido a recuperação completa.

No grupo avaliado pelo HCor, apenas um atleta foi afastado. Seu teste ergométrico apontou uma isquemia, ou seja, diminuição da passagem de sangue pelas artérias coronárias, os vasos que levam sangue ao coração. Por conta do problema, causado pela covid, ele está afastado por três a seis meses. Por causa da ética médica, a identidade do jogador foi preservada. "É um caso raro, mas acontece", diz Nabil.

Por isso, a Sociedade Brasileira de Medicina do Exercício e do Esporte (SBMEE) recomenda uma avaliação cardiológica para quem for retormar a atividade física após a contaminação. A entidade sugere a avaliação contemple anamnese, exame físico e eletrocardiograma para todos. Exames complementares vão depender da gravidade do quadro clínico prévio à covid-19. A entidade recomenda ainda acompanhamento regular e reavaliação a médio e longo prazo, pois a evolução tardia da doença ainda é pouco conhecida.

Linamara Rizzo Battistella, professora de fisiatria da Faculdade de Medicina da USP, explica que algumas características dos atletas podem ajudar na recuperação pós-covid. "As nossas observações, acompanhando os pacientes do Hospital das Clínicas, sugerem que as boas condições físicas, a ausência de comorbidades e bons hábitos de vida são fatores positivos para a recuperação dos pacientes", diz a idealizadora do Instituto de Reabilitação Lucy Montoro. 

O zagueiro Luan Peres ficou dez dias em quarentena, tomando medicações indicadas pelos médicos do Santos. O defensor também conseguiu fazer exercícios leves, como caminhadas na esteira, por exemplo. Por isso, ele não ficou tão debilitado. "Eu treinei um pouco em casa. Não voltei tão abaixo dos outros. Dez dias sem treinar fazem o jogador sentir um pouco. É normal sentir a perna pesada. Mas eu me recuperei. Depois de dez ou doze dias treinando, eu já não sinto mais diferença", diz o titular do Santos.

As equipes da Série B do Campeonato Brasileiro também sofreram com as baixas. O volante Victor Bolt conta que viu vários colegas do elenco com dificuldades no retorno aos treinos. "Alguns jogadores que pegaram covid não voltaram 100%. É uma situação complicada. Alguns fizeram treino on-line, mas não é a mesma coisa", diz o atleta de 33 anos. 

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