Amalia Candiotto
Enzo, filho de Ananias, aos poucos, voltar a sorrir, após perder o pai em acidente da Chapecoense Amalia Candiotto

Após um ano, sobreviventes e familiares tentam entender o que aconteceu com a Chape

Em meio a dor, eles seguem em busca de um recomeço após tragédia que deixou 71 mortos

Daniel Batista, O Estado de S.Paulo

25 de novembro de 2017 | 17h00

No dia 28 de novembro, o Brasil vivia a expectativa de ver a simpática Chapecoense na decisão da Copa Sul-Americana, feito histórico e inédito para a modesta equipe de Santa Catarina. Nas primeiras horas do dia 29, quando o avião da empresa LaMia com o time de Chapecó sofreu uma pane seca nos arredores de Medellín, local da partida, a trajetória de 77 famílias seria transformada.

+ Chapecoense abrirá arena para homenagens no aniversário da tragédia

No total, foram 71 mortes que chocaram o mundo. Astros do esporte divulgaram mensagens de luto. Diversas foram as homenagens e a ajuda ao clube e às famílias das vítimas. Mas as marcas permanecem, sobretudo nas crianças.

No campo, a Chapecoense conseguiu grandes feitos para quem não tinha nem sequer um time para jogar no início da temporada. Sagrou-se campeã catarinense e se garantiu na Série A do Brasileiro. Sobreviveram os jogadores Jackson Follmann, Neto e Alan Ruschel; o jornalista Rafael Henzel; a comissária de bordo Ximena Suárez; e o mecânico Erwin Tumiri. 

Follmann e estuda para se tornar dirigente. Neto e Alan Ruschel continuam suas carreiras, assim como Henzel. Ximena Suárez trabalha como modelo e recentemente tatuou um avião da LaMia como se ele estivesse chegando ao céu. Tumiri vive na Bolívia e tem participado de programas de TV no país.

Uma vítima não estava no avião: Celia Castedo. Ela era a funcionária da Administração de Aeroportos e Serviços Auxiliares de Navegação Aérea da Bolívia (Aasana) e detectou problemas no plano de voo, mas foi ignorada. Após o acidente, alegou ter sofrido ameaças de morte e pediu refúgio no Brasil. Vive em Corumbá, mas seu refúgio é provisório, expira em 5 de dezembro e ela teme que não seja renovado. Celia não quer voltar à Bolívia, onde é acusada de homicídio culposo.

 

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Crianças ainda choram a morte de seus pais em acidente da Chapecoense

Filhos tentam lidar com a dor da perda e mães sofrem com o sentimento de impotência diante da situação

Daniel Batista, O Estado de S.Paulo

25 de novembro de 2017 | 16h59

A dor e as lembranças do dia 29 de novembro estão vivas. Talvez, ninguém tenha sofrido tanto quanto os filhos das vítimas do acidente, a maioria crianças, que convivem com a saudade e tentam entender o que aconteceu. O Estado foi em busca das famílias para saber como os órfãos de pai lidam com a ausência. As mães se sentem impotentes diante do sofrimento dos filhos e tentam encontrar uma forma de amenizar a dor deles. 

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“Ele fala várias vezes: ‘Mamãe, quero morrer para ver o papai’. Ele pergunta se o pai tem celular para ele falar que está com saudade e quer saber como Jesus o levou. Dói muito, pois eu queria protegê-lo desse sofrimento, do luto, mas não tem como”, conta Bárbara, viúva de Ananias e mãe de Enzo, de apenas seis anos. 

Ela lembra que Ananias era muito presente. Desde a tragédia, seu filho passa por uma terapeuta para tentar viver normalmente. “Ele sabe que não vai mais ver o pai, mas não entende muito bem o que aconteceu.” Bárbara deixa Enzo ver algumas notícias do acidente. “De vez em quando passam coisas na TV e eu não mudo de propósito, para ele saber lidar com a saudade e enfrentar a realidade.” Ela vive com o filho em Salvador. 

O pequeno Victorino, de 9 anos, filho do repórter da Fox Sports Victorino Chermont, passa pela fase da inconstância. “Tem dia que ele está tranquilo e em outros só chora”, explica Luciana Chermont, a mãe. Por causa da tragédia, o menino foi reprovado na 3.ª série do Ensino Fundamental, por não conseguir fazer as provas. “Ele ficou muito tempo sem falar com ninguém e não queria mais ter vínculo com as pessoas, por medo de perdê-las. Ele achava que elas iriam morrer também.”

Luciana o leva para a terapia e precisou mudar seus hábitos. “O Vito (apelido do filho) ia jogar bola e só chorava, já que futebol faz lembrar o pai. O professor da escolinha sugeriu que ele parasse de fazer as aulas, para não piorar”, conta. 

 

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'Não quero piedade. Quero ser tratado como um atleta', diz Alan Ruschel

Lateral diz saber que será sempre lembrado como o sobrevivendo do acidente, mas não quer que isso atrapalhe sua carreira

Daniel Batista, O Estado de S.Paulo

25 de novembro de 2017 | 16h59

Faz quase um ano, mas parece que foi ontem. A gente se pega pensando e imaginando muita coisa, ainda sem acreditar em tudo que aconteceu. Talvez demore para absorver toda a história. Foi algo que comoveu o mundo, mexeu com dezenas de famílias, mas o apoio e a forma carinhosa com que todas as pessoas estão nos tratando mostra que a humanidade ainda respira e que a maioria das pessoas ainda são boas. 

+ "Gostaria que todos tivessem a segunda chance que eu tive", diz Follmann

Sobre o que eu senti após acordar no hospital e ver tudo que aconteceu foi uma mistura de coisas. Agradeci por estar vivo, foi um milagre. Mas veio uma tristeza pelos amigos que se foram. Só seria injusto com Deus e comigo ficar triste, eu estava vivo e tinha que agradecer. 

Eu sempre serei um dos sobreviventes da Chape. Sempre que falarem de mim, terá esse sentimento. Mas quero deixar claro que não peço piedade nem quero ser o coitado da tragédia. Quero ser tratado como qualquer outro atleta de futebol e conseguir voltar a jogar em alto nível, como já fiz. O clube não pode pensar apenas em mim. Tem de pensar na instituição, por isso entrei e joguei. Tenho contrato até dezembro, pertenço ao Internacional e, ao fim desta temporada, a gente senta e vê o que é melhor para todos os lados. Acredito que na Chape, eu ficarei sempre como o Alan que sobreviveu à tragédia. Temo que isso possa me atrapalhar na careira e na vida.

A mensagem que eu posso deixar para as pessoas é que elas aproveitem ao máximo a convivência com quem está ao seu lado, familiares e amigos. A gente nunca sabe o que vai acontecer daqui dez minutos. Viva o momento e aproveite a companhia de quem você ama, pois a gente não sabe até quando estaremos aqui

 

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'Gostaria que todos tivessem a segunda chance que eu tive', diz Follmann

Ex-goleiro da Chapecoense diz que lamenta a morte dos amigos, mas não o fato de perder a perna

Daniel Batista, O Estado de S.Paulo

25 de novembro de 2017 | 16h59

Eu sou um milagre da vida. As perdas foram muito grandes e são coisas que vamos lamentar para a eternidade, ainda mais pelo fato de ter sido algo que poderia ser evitado. Estou feliz por ter uma segunda chance de viver e gostaria que todos tivessem essa oportunidade que estou tendo. 

+ Famílias ainda esperam por algumas indenizações

Também não gosto de ficar pensando que algo poderia ter sido diferente, pois são coisas que não me farão bem. O passado não se reorganiza e ficar remoendo faz mal. De todos que se foram, quem eu tinha mais contado era o Danilo. A gente vivia junto, tomava café junto, nossas famílias eram amigas. Foi duro, mas temos que seguir. 

Lamentar? Jamais. Fica a tristeza pela perda dos meus amigos, mas jamais reclamei da minha perna amputada. Foram 13 fraturas, quase amputei o outro pé, mas sei que todos que se foram gostariam de estar no meu lugar. 

Quando aconteceu o acidente, eu tinha duas opções: entrar em depressão, ficar jogado no canto ou encarar as coisas de frente e foi o que fiz. E viva intensamente o hoje, pois nossa vida é muito rápida, tudo muda em um piscar de olhos. Eu era um cara feliz e sorrindo como o meu bom trabalho e as coisas mudaram em uma noite. 

No dia 20 de outubro, me casei e dei início a uma construção da família e a confirmação de uma nova vida. A Andressa esteve comigo por todo o tempo e nada melhor do que selar o nosso amor assim. Ano que vem, eu vou fazer curso de gestão para ser dirigente da Chapecoense. Eu ainda estou montando uma clínica de prótese em Chapecó e estou feliz com tudo que está acontecendo comigo. Tinha a ideia de me tornar paratleta, mas ainda não me redescobri em outro esporte. Sem pressa, não adianta eu querer abraçar o mundo.

 

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Famílias das vítimas do acidente com a Chapecoense ainda não foram indenizadas

O fato de a investigação envolver três países, que têm legislação distinta, é complicador na luta pela indenização

Almir Leite, O Estado de S.Paulo

25 de novembro de 2017 | 16h59

Os familiares das vítimas da Chapecoense do voo da LaMia ainda não foram indenizados, e não há perspectivas de que isso ocorra a curto prazo. Os problemas são vários. A começar pela seguradora boliviana, a Bisa. Ela se recusa a pagar as indenizações – total de US$ 25 milhões, ou R$ 80 milhões –, sob a alegação de que o acidente ocorreu por erro do piloto Miguel Quiroga, um dos mortos. A Bisa propôs pagar US$ 200 mil (R$ 646 mil) a cada família se pelo menos 51 delas concordassem em desistir de qualquer ação judicial. Não houve acordo.

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O fato de a investigação envolver três países, que têm legislação distinta, também é complicador na luta pela indenização. E a Colômbia ainda não divulgou o relatório final sobre a queda do avião – a expectativa é de que isso aconteça ainda este ano. 

Em outubro, o Ministério Público Federal de Santa Catarina concluiu inquérito civil apontando que a Chapecoense não foi negligente nem imprudente ao contratar a LaMia. No entanto, os procuradores encontraram indícios que a LaMia pode não pertencer ao piloto Quiroga e a Marco Antonio Rocha, que está foragido, como consta no registros. Documentos apontaram que a venezuelana Loredana Albacete participou do fretamento do avião e receberia numa conta em Hong Kong os US$ 140 mil do serviço.

Loredana, que aparece como proprietária, é filha do ex-senador Ricardo Albacete. Ele era dono do avião que caiu e declarou que apenas o arrendou à LaMia. A descoberta pode mudar os rumos dos processos que requerem as indenizações. Até agora, os familiares receberam o seguro do clube (14 vezes o salário), o da CBF (12 vezes) e valores de rateios de doação e de renda de alguns amistosos da Chape. 

 

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