Paulo Whitaker|Reuters
Kaka o último autêntico meio-campista da seleção brasileira a vestir a camisa 10 Paulo Whitaker|Reuters

Aposentado, Kaká encerra a era dos meias que brilharam com a camisa 10 do Brasil

Atleta foi o último grande nome da seleção que vestiu a 10 como um autêntico meia, na Copa de 2010

Rafael Franco, O Estado de S.Paulo

26 de dezembro de 2017 | 07h00

Ao anunciar a sua aposentadoria de forma surpreendente no domingo retrasado, Kaká, de 35 anos, se tornou o último autêntico meio-campista da seleção brasileira a vestir a camisa 10. Hoje, Neymar carrega este número nas costas na equipe nacional, mas ele é um jogador de característica genuinamente ofensiva, sem a responsabilidade direta de ser um grande criador de jogadas, como outros nomes de peso da história do time canarinho tiveram por décadas.

Kaká se aposenta: veja trajetória do último brasileiro melhor do mundo

Pelé eternizou a camisa 10 ao fazer história pela seleção com os títulos das Copas de 1958, 1962 e 1970, mas ele também era um autêntico finalizador, chamado na época de ponta-de-lança, que se tornou o maior goleador de todos os tempos e não carregou a responsabilidade de ser o cérebro da equipe, embora fosse o astro maior do time. Meio-campista do Brasil na campanha do tricampeonato mundial, no México, Rivellino herdou a mítica 10 que pertenceu ao Rei do Futebol após a aposentadoria de Pelé e envergou a mesma no time nacional nas Copas de 1974 e 1978.

Entrevistado pelo Estado, Rivellino reconheceu que Kaká foi o último grande nome da seleção que vestiu a 10 como um autêntico meia, o que ocorreu na Copa de 2010 antes de Neymar assumir o número e usá-lo no Mundial de 2014. Mas o fazendo como um atacante, diferentemente do que ocorreu também com o maestro Zico, que foi o dono da 10 do Brasil nas Copas de 1982 e 1986, com Silas em 1990, Raí em 1994, Rivaldo em 1998 e 2002, Ronaldinho Gaúcho em 2006 e finalmente Kaká em 2010.

“Primeiro eu queria dizer que no futebol brasileiro acabou o 10. Hoje na seleção nós não temos mais este jogador. O 10 era muito marcante, principalmente depois que o maior jogador do mundo vestiu essa camisa, que deveria ter sido imortalizada, colocada em um pedestal e ninguém mais usá-la depois que o Pelé a usou na seleção”, disse Rivellino, lembrando o significado de usar esta camisa pelo País.

“De uma certa forma, a camisa 10 é uma responsabilidade. No futebol brasileiro, a 10 diz tudo, mas de repente isso acabou. O Neymar hoje é o mais importante do Brasil. E ele mesmo disse que queria jogar com a 10 e, se você for analisar friamente, é ele quem tem a capacidade de usá-la, mas não é o conhecido 10 das nossas épocas, o 10 que vinha de trás, que pensava, que armava. E hoje taticamente as equipes mudaram, mas eu gostaria de ter um 10 e ver o Neymar com a 11, que ele também gostava de usar. A gente vê um pouco do Philippe Coutinho com essa condição, mas ele não é aquele 10 que chama a atenção da gente”, opinou Rivellino.

Outro histórico camisa 10 do Brasil entrevistado pelo Estado na semana passada, Zico também crê que hoje o futebol brasileiro não conta mais com um jogador que exiba o mesmo jeito de atuar que ele próprio tinha no passado com a mais emblemática camisa da seleção. 

“Sem dúvida que falta este jogador, mas hoje os nomes da seleção estão em outras posições. Não tem aquele mais 10 que crie. Aquele que joga atrás do centroavante, para chegar na área, tipo o Kaká fazia. Realmente não temos esse jogador com essa característica mais. Não temos um 10 hoje que é acostumado a jogar de costas para o gol, sendo marcado, o que não é fácil. Jogar de frente é outra coisa. Então o Tite coloca uma linha de quatro jogadores no meio e a maioria dos jogadores joga de frente para o gol”, disse.

E Zico fez questão de ressaltar o mérito que Tite teve de conseguir fazer a seleção brasileira engrenar mesmo sem contar hoje com um camisa 10 com as características que ele e outros craques tiveram na equipe nacional. Além disso, o ex-jogador vê o esquema do treinador deixar Neymar menos sobrecarregado de responsabilidade, diferentemente do que aconteceu sob o comando de Felipão na Copa de 2014 e em seguida com Dunga, demitido em 2016.

“A seleção é hoje mais organizada e tirou-se um pouco o peso do Neymar. É lógico que, sendo o grande nome, a grande estrela, a responsabilidade aumenta pra ele, mas o Tite não bota a seleção jogando em função dele”, reforçou. E Zico conhece bem o peso da 10. Mesmo que o 10 clássico esteja em extinção.

A CRONOLOGIA DOS GRANDES CAMISAS 10 DO BRASIL

- Copas de 1958 a 1970

Pelé vestiu a 10 com 17 anos e brilhou com o título em seu primeiro Mundial.

- Copas de 1974 e 1978

Rivellino herdou a 10 em 2 Copas.

- Copas de 1982 e 1986

Zico foi o 10 em dois mundiais.

- Copa de 1990

Silas caiu junto com o Brasil nas oitavas de final.

- Copa de 1994

Raí iniciou bem o Mundial, mas perdeu posição no time.

- Copas de 1998 e 2002

Rivaldo se destacou na campanha do vice e brilhou como o 10 do penta.

- Copa de 2006

Ronaldinho Gaúcho decepcionou com a 10 na Alemanha.

- Copa de 2010

Kaká foi o 10 e caiu nas quartas.

- Copa de 2014

Neymar vestiu a 10 e foi decisivo, mas teve grave lesão nas quartas.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Rivellino: 'Quando o Tite assumiu, tirou um pouco da responsabilidade do Neymar'

Campeão do mundo em 1970 elogia trabalho do comandante da seleção

Rafael Franco, Estadão Conteúdo

26 de dezembro de 2017 | 07h34

Ao comentar o fato de que a seleção brasileira não conta mais com um camisa 10 que atua como o grande cérebro do time nacional, assim como ele próprio já foi ao vestir este número nas Copas do Mundo de 1974 e 1978, Rivellino afirmou, em entrevista ao Estado, que o técnico Tite soube tirar um pouco do peso que recaía sobre Neymar antes da chegada do treinador ao comando da equipe canarinho.

+ Aposentado, Kaká encerra a era dos meias que brilharam com a camisa 10 do Brasil

Neymar, que assumiu a 10 e a vestiu na Copa de 2014, ostenta este número na camisa como um jogador que atua mais adiantado, sem a responsabilidade de criar as jogadas, assim como já fazia quando foi dirigido por Felipão e depois por Dunga. Com Tite, porém, o melhor equilíbrio tático da seleção deixou o astro do Paris Saint-Germain menos sobrecarregado em sua condição de maior protagonista da seleção.

"Quando o Tite assumiu, ele tirou um pouco dessa responsabilidade do Neymar e tentou dividi-la mais. Quem é diferenciado, o craque da seleção, é o Neymar, mas o que não pode é toda hora dar a bola ao Neymar e achar que ele vai driblar dois ou três e vai resolver sozinho. Com o Tite, ele deu uma respirada neste aspecto. Até porque, quando ele estiver mal, o time tem que jogar também", afirmou Rivellino.

Já ao ser questionado pelo Estado se o Brasil hoje tem problemas na formação de bons jogadores de criação no meio-campo, o ex-camisa 10 do Brasil respondeu: "Sim. Tanto é que na seleção, que é onde você pode escolher os melhores, já não temos este jogador. O último que tinha essa qualidade era o Alex, que parou de jogar há pouco tempo. Infelizmente hoje existe uma procura maior por parte dos treinadores de um jogador que é mais marcador e que também sai para jogar. Preferem mais este tipo de jogador do que o que tem o talento".

Rivellino, porém, não acredita que a ausência de um autêntico meia vestindo a camisa 10 seja o principal problema seleção. "Não diria que é o principal, até porque não se tem mais este jogador, e muitas vezes se 'mata' este tipo de jogador na base. O Corinthians, que é o campeão brasileiro, não tem. O São Paulo tem o Cueva, que é interessante, mas que não é brasileiro. O Santos tinha o Lucas Lima, que me agrada muito e foi para o Palmeiras. É um baita jogador, que me parece um pouco mais um meia à moda antiga", opinou o ex-jogador, que foi o camisa 11 da seleção brasileira tricampeã do mundo de 1970, quando Pelé vestiu a 10 pela última vez em uma Copa.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Zico: 'Sinto falta daquele jogador que me faz ir ao estádio só pra vê-lo jogar'

Ex-camisa 10 da seleção acha que o estilo de jogo no Brasil passou a formar mais jogadores táticos e não técnicos

Rafael Franco, Estadão Conteúdo

26 de dezembro de 2017 | 08h06

Assim como reconhece que hoje a seleção brasileira não possui mais à disposição camisas 10 clássicos que desempenhavam uma função de meia que municiavam os atacantes como verdadeiros maestros, Zico revelou, em entrevista ao Estado, que hoje não consegue se lembrar de um jogador em atividade no Brasil que o faria sair de casa para vê-lo atuar de bem perto, não apenas como acompanha tantos outros pela televisão.

+ Aposentado, Kaká encerra a era dos meias que brilharam com a camisa 10 do Brasil

+ Rivellino: 'Quando o Tite assumiu, tirou um pouco da responsabilidade do Neymar'

"A gente sente falta daquele jogador que faz a gente ir ao estádio só pra vê-lo jogar, não para ver o time jogar. É difícil eu dizer que hoje vou sair da minha casa e ir ao Maracanã no domingo para ver fulano jogar. Hoje está difícil. E não estou falando de camisa 10, mas de um jogador que realmente chame a atenção e faça coisas que você não espera que ele faça", ressaltou Zico, que foi este tipo de craque por muitos anos enquanto vestiu a camisa do Flamengo, pelo qual se tornou o maior ídolo da história do clube.

Já ao ser questionado sobre os motivos que fizeram com que o Brasil parasse de produzir autênticos camisas 10 como os que tinha no passado, o ex-jogador apontou que o próprio jeito de jogar das equipes colaborou para que isso ocorresse.

"Eu acho que, realmente, nas categorias de base esse tipo de jogador começa a acabar porque estão prevalecendo mais as partes táticas do que a individualidade, então esquecem que o que decide os jogos e o que ganha campeonatos é a qualidade técnica. Você pode ver que todos os grandes nomes foram muito fortes e importantes para as conquistas de suas equipes ou seleções", enfatizou o ex-camisa 10 do Flamengo e da seleção brasileira.

Zico também deu um conselho a Neymar ao comentar como vê a atual condição do atacante, que veste o número 10 da equipe nacional desde 2013 e a estreou em uma Copa em 2014. Ele agora se prepara para envergar a camisa no Mundial de 2018, na Rússia, onde espera poder ser decisivo para levar a seleção brasileira ao sonhado hexacampeonato.

"O Neymar precisa ter autocontrole quando o time está perdendo. Quando está ganhando ele até tem, mas, quando está perdendo, ele perde a bola, leva uma falta e se descontrola um pouco. Tem que se controlar quando o time está em desvantagem. O Brasil não é um time que está acostumado a estar em desvantagem. A cada dez jogos, em um costuma ter este problema. E este um é que pode ser perigoso", alertou.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.