MAURICIO DE SOUZA/ESTADÃO
MAURICIO DE SOUZA/ESTADÃO

'Aqui fora, não vai depender de mim decidir um jogo'

Prestes a pendurar as chuteiras e virar dirigente em tempo integral, Renato fala dos desafios que terá no Santos

Entrevista com

Renato, jogador e executivo de futebol do Santos

Renan Cacioli / Santos, O Estado de S. Paulo

30 de novembro de 2018 | 05h00

Renato vai se tornar ex-atleta no domingo, ao fim do jogo entre Santos e Sport que marca a última rodada do Campeonato Brasileiro. Aos 39 anos, passará a se dedicar exclusivamente à função de executivo de futebol, que ele já acumula desde setembro com a de meio-campista do time.

Ao Estado, ele conta sobre os primeiros desafios como dirigente: achar um novo técnico e um substituto à altura de Gabigol, que vai embora do clube de volta para a Inter de Milão, com quem ainda tem contrato.

Em tese, você é dirigente há dois meses. Na prática, como funcionou ser um diretor que ia treinar todo dia no CT?

No início, eu praticamente não estava tendo folga, até porque quando tínhamos folga de manhã e só treinaríamos à tarde, eu vinha de manhã acompanhar o (Sérgio) Dimas (gerente administrativo do clube), que está há mais tempo no clube e estava junto com o Ricardo (Gomes, antecessor de Renato no cargo, saiu em setembro). Eu vinha me inteirar do que estava acontecendo, saber quais jogadores estavam em fim de contrato, quais voltariam de empréstimo. Tentei nesse tempo ver tudo o que estava acontecendo no clube.

Foi um período mais de adaptação, então? Na prática, você não precisou tomar nenhuma grande decisão?

Isso, era mais pra me ambientar, interagir e até peguei o finalzinho do caso do Róbson (Bambu, que acabou indo para o Atlético-PR), mas ele já havia assinado pré-contrato, então não tive como agir para ver se conseguia manter ele aqui porque era um desejo do Cuca na época. Ali eu fazia mais essa transição, eram mais conversas, às vezes o presidente vinha aqui no CT à tarde, coincidia, mas era rápido, porque aí eu já tinha de ir treinar.

Sua rotina de treinos não mudou nesse período?

Não, faço o mesmo que todo mundo. Até um pouquinho mais, porque como a gente não vem jogando, quem fica de fora normalmente trabalha um pouquinho mais do que quem está jogando para se manter em forma. E eu tinha me deixado à disposição do Cuca, para quando ele precisasse. Até no último jogo, se eu for mesmo para Recife e ele quiser me utilizar, vou estar à disposição.

Quando será seu último dia como jogador?

Dia 2 de dezembro, que é a última rodada. Mesmo eu não indo a Recife, o campeonato termina e aí, sim, eu serei um aposentado dos gramados. Fiz a minha despedida uma semana antes até porque era jogo em casa, queria fazer diante da nossa torcida. Mas acabando o campeonato, serei um ex-atleta.

E enquanto seus companheiros pegarão férias a partir de segunda-feira, pra você será ainda mais trabalho...

É (risos). Já dou continuidade no trabalho, tenho uma viagem mais para o final do ano para a Europa, mas estarei junto com o presidente, atento a tudo, conversando por telefone e vendo o ano de 2019 do Santos.

Mas isso é uma viagem particular?

É, já tinha marcado lá atrás, reservado em abril. Não havia decidido de parar ou não. Mas é algo particular que também pode ser algo produtivo para 2019...

E quando você decidiu que 2018 seria o último ano da sua carreira?

Normalmente nos outros anos, já a partir de 2015, estava renovando os contratos sempre depois do Campeonato Paulista. Vinham me perguntar se eu queria ficar mais um ano, aí consultava minha família. E eu tinha de ter ambições, vir disposto a treinar. Acabava renovando. Em 2018, já pesou um pouco mais em relação ao filho menor, as viagens longas... Em 2016, joguei todas as rodadas do Campeonato Brasileiro, então tinha vez em que ficava em casa dois dias da semana, aí vinha concentração... Nesse ano, ele já colocou um pouco mais de pressão, reclamava das viagens, que não passo Dia dos Pais junto... Às vezes, minha esposa nem levava ele na escola no dia da comemoração, porque estariam as crianças com os pais lá, e ele não.

Ser dirigente foi sua primeira opção quando você definiu que iria parar de jogar?

Não, foi uma oportunidade. O Elano tinha comentado comigo uns anos atrás que eu tinha o perfil, era mais político, sempre converso, sou mais apaziguador. Mas o que eu dizia é que queria ajudar o clube na comissão técnica fixa, que não precisa estar envolvido com as viagens, a rotina. Não queria ser treinador nem auxiliar, porque aí voltaria tudo a essa mesma rotina. E aí surgiu a oportunidade. O Ricardo Gomes acabou saindo, o Cuca me chamou, perguntou, falou que assim como tinha visto a transição do Zé Roberto (hoje dirigente do Palmeiras), eu poderia seguir nesse perfil, pediu para eu conversar com minha família.

Você vai estrear, de fato, como executivo de futebol, num cenário pouco favorável. O Santos está sem técnico, o principal jogador, o Gabriel, indo embora... Preocupa começar com dois problemas já enormes como esses?

Assim, quando eu aceitei, sabia do desafio. Para mim, acho que a responsabilidade é até um pouco maior do que quando se está dentro de campo. Aqui fora, não vai depender de mim decidir um jogo. O Renato jogador, minha história dentro de campo fica guardada. Me perguntaram se eu não tinha medo de arranhar a minha imagem. Acho que ela dentro de campo está lá, fui campeão brasileiro em 2002 e 2004, bicampeão paulista em 2015 e 2016. Então eu tenho minha história dentro do clube. Agora, o que eu vou fazer fora dele, se vou ter o mesmo êxito, é o resultado dentro de campo. E pra mim a responsabilidade é grande porque vou estar olhando, motivando quem está aqui a ter resultado. Eles sendo campeões, o meu resultado também vai aparecer. Só que não depende de mim. Não vou mais chutar uma bola no gol, cabecear num escanteio, não vou poder entrar lá dentro. É um desafio grande. Acho que é até bom para eu pegar experiência.

Desde quando vocês estavam sabendo do problema de saúde do Cuca?

Ele nos falou não faz muito tempo. Ele fez os exames que detectaram o problema, esperou para fazer um outro para saber se precisaria realmente de cirurgia ou não, e aí sim nos comunicou. A gente contava muito com ele par 2019.

Vocês já estavam até fazendo o planejamento de 2019 com ele, imagino...

Sim, já tinha essa conversa. Então houve um impacto grande. Como falei, ele fez um novo exame para ter certeza de que precisaria mesmo (da cirurgia), senão continuaria. E numa posição dessa, não podemos por em risco, sabe da pressão que é para o treinador...

Mas se há o risco, por que ele não interrompeu imediatamente o trabalho?

Ele tinha um compromisso com a gente que iria até o final e falou que iria honrar esse compromisso até a última rodada.

O Abel Braga será o técnico do Santos em 2019? É mesmo quem está mais próximo de um acerto?

Tem conversa, mas não está nada certo.

Você chegou a falar diretamente com ele ou isso está mais a cargo do presidente?

Não, isso é com o Peres, ele viajou (até o Rio, para negociar com o treinador)... até porque eu estou mais em treinamento, ainda jogando. É um treinador campeão, que trabalha também com a base. Se fechar, a gente fica bem servido.

Com a saída do Gabriel, você o Santos obrigado a trazer alguém do mesmo nível?

Acho que tem de ter, né? Até porque o Gabriel é da casa, acabou saindo e não foi tão bem lá fora quanto a gente esperava. Ele jogou muito pouco, não teve sequência de jogos. E voltou para um lugar onde ele se sente à vontade. Vamos precisar de alguém assim. Hoje temos o Fellipe Cardoso, o Yuri Alberto, que faz 18 anos em 2019, e volta o Rodrigão, com 23, 24. Então depositar toda a responsabilidade em garotos, ainda mais nessa função de centroavante, acho um pouco arriscado e até para não sobrecarregar esses garotos. Temos alguns nomes já e esperamos concretizar.

Praticamente todo ano se fala no Santos em repatriar Diego ou Robinho. Mas desta vez quem está à frente do departamento de futebol é alguém que foi campeão ao lado deles. Isso pode tornar esse sonho mais factível?

Olha, até pela amizade que a gente tem... Mas primeiro temos de sentar com o novo treinador. Os dois também viveram dentro da casa, foram formados aqui, sabem como é. Mas para eles voltarem, precisa estar alinhado com o treinador. Hoje não posso falar "vou trazer o Robinho e o Diego", e o treinador que vier disser que quer contar com outros. Vai se criar um atrito ali. A gente não pode fazer loucuras também, estou vindo do outro lado, sei do orçamento do clube. Mas se chegar o treinador e disse que gostaria de contar com os dois, vou fazer de tudo para trazê-los. Sei que a torcida tem o sonho de vê-los aqui novamente.

O Palmeiras ameaça criar uma dinastia porque tem um patrocínio forte, montou um elenco forte. Isso traz títulos, visibilidade, atrai jogadores de fora. No caso do Santos, que não tem um orçamento que possibilite grandes contratações, o caminho ainda é apostar em suas divisões de base?

A base vai estar junto com o profissional, o Santos não abre mão. Isso não é de agora, sempre foi assim. E o Santos, apesar de ter o menor orçamento dos clubes de São Paulo, o que a gente pode trabalhar é que o clube sempre teve visibilidade. O clube colocou o Ricardo Oliveira na seleção brasileira com 35 anos. O Lucas Lima também, ainda teve os três da Olimpíada, o Gabriel, o Zeca e o Thiago Maia (campeões no Rio em 2016). E talvez aqui quem vier terá um protagonismo maior do que no Palmeiras. Lá, se tirar os 11 e colocar outros 11, quase não muda, tem muita gente que pode ser titular.

 

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