Nilton Fukuda/Estadão
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Árbitro de campo tem feito o papel de 'bobo da corte' para a turma do VAR

Juízes no gramado são cercados ao final de cada jogo, enquanto operadores da tecnologia sai de cena sem ser notada

Robson Morelli, O Estado de S. Paulo

16 de novembro de 2020 | 05h00

O VAR tem deixado o juiz de campo com cara de bobo. Sua senhoria, antes assim graciosamente chamado fora das quatro linhas, já não manda mais nada, ou pelo menos não apita nos lances capitais de um partida de futebol. Sua atuação se resume às jogadas sem muita importância, decidindo para qual time é o lateral, por exemplo. As 21 rodadas do Campeonato Brasileiro têm mostrado isso ao torcedor. E a todos. Cada vez mais, o árbitro tem sido um mero mensageiro das decisões da turma do VAR, aquela que fica analisando as imagens do jogo pela TV. É ela que toma as decisões, inclusive aquelas de chamar o juiz para olhar o monitor.

Nem sempre foi assim. O árbitro era uma entidade. Entrava em campo já sendo xingado pelas duas torcidas, tamanha a desconfiança que se tinha dele. Era imponente. Suas decisões eram aplaudidas de um lado e reclamadas de outro. Era amado e odiado. O que ele decidia era assunto na semana, nos botecos da cidade, entre amigos e jogadores. Mas ele era respeitado. Todos conheciam sua humanidade, portanto, sua condição passível de falhas. Ninguém gostava, mas todos entendiam. E tudo zerava até a próxima rodada.

Essa figura pujante do futebol não existe mais, está em fase de extinção, feito o lobo-guará, prestes a desaparecer, senão por completo, ao menos na condição que o consagrou no esporte.

O juiz de campo não determina mais nada. É um apaziguador de jogadores ensandecidos com faltas marcadas ou faltas não marcadas, pênaltis dados ou não dados, cartões amarelos e até expulsões. Nada está mais sob seu controle ou ao que viu na jogada. Quem manda agora é o olho eletrônico.

O juiz é o ‘bobo da corte’ de uma equipe liderada pelos chamados árbitros de vídeo, que o torcedor não vê no jogo nem se lembra do nome deles.

O árbitro de campo não pode ser essa figura morta da partida. Nunca foi até a chegada do VAR e da sua intenção de tornar justo o futebol, coisa que ele não é desde o primeiro toque na bola, desde a escalação dos times, passando pela compra de jogadores, formação na base e resultados até a confecção da tabela dos campeonatos nacionais.

O árbitro de campo, que conhecemos e respeitamos, cada qual com sua característica, ainda é condenado por esperar minutos sem fim para tomar uma decisão, repetindo uma cena cada vez mais comum que é afastar os atletas ao seu redor, levar uma das mãos ao fone na tentativa de ouvir as recomendações de quem tomou o poder. O atleta quase sempre reclama com o juiz de campo, ali parado em sua frente, mas um mero garoto de recado do VAR.

Quando tenta tomar decisões por conta própria, é alertado a parar o jogo e esperar. Se o argumento da turma do vídeo não o convence, é chamado a olhar o monitor, quase que como um puxão de orelha em público ao que viu ou ao que não viu no lance. E aí “toma” sua nova decisão, quase sempre contrária à primeira, fazendo com os dedos da mão o contorno do quadro que representa o monitor de vídeo.

Nessa brincadeira, o jogo é interrompido várias vezes, os atletas perdem o calor da partida e a concentração. O relógio corre e o acréscimo é dado ao fim do tempo regulamentar. Atualmente, também com as substituições, o jogo jogado vai até 52 minutos, em média. O torcedor, em sua casa porque os estádios estão vazios, na maioria das vezes não sabe o que está acontecendo e tende a fazer outra coisa, mudar de canal, ir ao banheiro, beliscar alguma coisa na geladeira para comer. No apito final, o juiz de campo ainda é cercado. Diferentemente dele, a turma do VAR sai de cena sem ser notada.

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